Palmeiras x Vasco: Vitor Roque pode voltar e disputa Anresf-Cade pela venda da SAF cruzam a ida da semifinal
- Abel Ferreira desabafa sobre arbitragem e diz que não quer mais falar do assunto: "Só me prejudiquei"
- Palmeiras vence o Vasco por 1 a 0 na ida da semifinal e sai na frente em jogo marcado por polêmica de arbitragem
- Três meses depois da goleada, Palmeiras e Vasco se reencontram com a vaga na final em jogo
Tem jogo que o calendário empurra para o fim de semana e tem jogo que carrega história suficiente para render disputa de bastidor meses antes da bola rolar. Palmeiras e Vasco entram em campo neste domingo, às 16h, no Nubank Parque, pela ida da semifinal da Copa do Brasil, em um confronto que nunca havia acontecido nesta competição — mas que já colecionou finais históricas em outros torneios ao longo de quase um século. Dentro de campo, Abel Ferreira pode recolocar Vitor Roque entre os titulares depois de uma entorse no tornozelo. Fora dele, a partida acontece sob a sombra da venda da SAF vascaína a Marcos Lamacchia, enteado da presidente palmeirense Leila Pereira, negócio que Anresf e Cade ainda investigam por possível conflito de interesses.
Um confronto inédito, mas nunca neutro
Apesar de nunca terem se cruzado pela Copa do Brasil, Palmeiras e Vasco somam nove duelos eliminatórios na história, com vantagem mínima para o lado paulista: cinco classificações a quatro. Cinco desses confrontos valeram título, e os dois clubes dividiram as taças — o Vasco levantou a Taça dos Campeões Estaduais Rio-São Paulo de 1936, o Campeonato Brasileiro de 1997 e a Copa Mercosul de 2000; o Palmeiras foi campeão na mesma Taça Rio-São Paulo em 1947 e no Torneio Rio-São Paulo de 2000.
O capítulo mais lembrado entre os dois é a final da Mercosul de 2000: depois de vencer o primeiro jogo por 2 a 0, o Vasco perdeu o segundo por 1 a 0 e foi a um terceiro duelo decisivo no Palestra Itália. O Palmeiras abriu 3 a 0 no primeiro tempo e parecia resolver tudo, mas Romário (três vezes) e Juninho Paulista construíram uma virada que entrou para a história do futebol brasileiro — e que ainda aconteceu com o Vasco jogando com um a menos, após expulsão de Júnior Baiano.
Nas oitavas da Libertadores de 1999, quem levou a melhor foi o Palmeiras, de Luiz Felipe Scolari, batendo o então campeão continental por 4 a 2 em São Januário, depois de empate em 1 a 1 no primeiro jogo, rumo à conquista inédita da América.
O momento de cada time
Palmeiras: Vitor Roque de volta e foco triplo
O Palmeiras chega à sua 10ª semifinal de Copa do Brasil, voltando a esta fase cinco temporadas depois de ser campeão em 2021. Recuperado de uma entorse no tornozelo direito e já tendo recebido minutos contra o Santos, Vitor Roque é opção para retornar ao time titular — o que levaria Abel Ferreira a tirar um volante de cena, com Marlon Freitas e Lucas Evangelista disputando a vaga remanescente. Jefté está suspenso preventivamente por doping, enquanto Paulinho (panturrilha direita) e Ramón Sosa (coxa direita) seguem no departamento médico.
A equipe vive temporada de disputa simultânea por três títulos: já garantiu vaga na final da Libertadores, após eliminar o Fluminense nos pênaltis, enfrenta o Vasco na Copa do Brasil e briga ponto a ponto com o Flamengo pelo Brasileiro, hoje três pontos atrás do líder.
"Aconteça o que acontecer, seguimos lutando pelo título. Não vou mudar o discurso se ficar mais ou menos difícil. Aconteça o que acontecer, continuamos na luta e não vamos abrir mão." — Abel Ferreira, técnico do Palmeiras
"Normalizamos algo muito difícil, chegar na final da Libertadores. Queremos ganhar e é um grupo completamente diferente, muito mais jovem do que há dois anos." — Abel Ferreira
Vasco: desfalque importante e mudanças forçadas
O Vasco também soma uma caminhada de peso rumo à decisão: é a 11ª semifinal da história do clube, a terceira seguida, depois de eliminar Paysandu, Fluminense e Vitória. O time busca a final pelo segundo ano consecutivo — em 2025 perdeu a decisão para o Corinthians — e tenta o bicampeonato da competição, 15 anos depois do título de 2011.
Para este domingo, Pedro Emanuel perde Andrés Gómez, titular e uma das referências do time, que lesionou o pé esquerdo contra o Corinthians. Com desgaste físico no elenco, o técnico deve promover as entradas de Lucas Piton e Adson nas vagas de Cuiabano e Marino Hinestroza.
Desfalques do Palmeiras
Jefté — suspenso por dopingPaulinho — panturrilha direita
Ramón Sosa — coxa direita
Desfalques do Vasco
Andrés Gómez — pé esquerdoAndrés Gómez também está pendurado
Nos bastidores: Anresf e Cade acompanham a venda da SAF
O jogo acontece em meio a uma investigação que mistura futebol e direito regulatório. Na sexta-feira passada, os sócios do Vasco aprovaram a venda da SAF do clube para Marcos Lamacchia, enteado de Leila Pereira. Agora a operação depende do aval da Anresf — agência criada pela CBF para fiscalizar o Fair Play Financeiro — e também é observada pelo Cade, que investiga em sigilo um possível ato de concentração e interferência de Lamacchia antes mesmo da venda.
A Anresf avalia se existe conflito de interesses no fato de o comprador do Vasco ser ligado à presidente de um concorrente direto — justamente o adversário desta semifinal. O artigo 86 do regulamento da agência prevê uma saída possível: a constituição de um "blind trust" supervisionado, mecanismo em que um fundo controla os ativos sem que o proprietário tenha influência direta sobre eles, enquanto Leila Pereira permanecer na presidência do Palmeiras.
"O Marcos tem total tranquilidade para implementar qualquer sugestão a ser proposta pela Anresf, qualquer uma. Então, dentro disso, a operação vai acontecer, é importante que se diga. Ela vai acontecer. [...] Não causa nenhum tipo de preocupação." — André Sica, advogado que representa Marcos Lamacchia
Tanto o Vasco quanto a família Lamacchia mantêm o discurso de confiança total na conclusão do negócio, sem expectativa de veto por parte dos dois órgãos.
Pedrinho, o presidente que reencontra o clube da sua pior fase
Para o presidente do Vasco, o duelo deste domingo tem um peso que vai além da tabela. Ídolo vascaíno, Pedrinho defendeu o Palmeiras entre 2001 e 2005 — justamente o período em que travou a batalha mais dura de sua vida, contra a depressão, enquanto lidava com a terceira lesão grave no joelho, sofrida em um confronto entre Vasco e Palmeiras em 2001, já como jogador alviverde.
Foi no clube paulista, com indicação do então técnico Vanderlei Luxemburgo, que Pedrinho começou a se tratar com a psicóloga Suzy Fleury e o psiquiatra Antônio Guerra. Ele chegou a propor ao então presidente do Palmeiras, Mustafá Contursi, que parasse de receber salário enquanto estivesse afastado — pedido não aceito pelo dirigente.
"Você imagina um cara que é chamado de rei, um cara que tinha um dos maiores salários do Palmeiras... esse cara pode estar com depressão." — Pedrinho, presidente do Vasco
"Depressão, no meu caso específico, ela dominou a minha mente completamente [...] enfurnado dentro de um quarto, dormindo no banheiro trancado, mesmo tendo um quarto. Deitado no chão do banheiro e tendo que ir para o treino, chorava até o caminho." — Pedrinho
"Se perguntarem: 'O que você prefere ter cinco lesões no joelho ou a depressão?'. Prefiro ter as lesões, porque a depressão quase tirou a minha vida." — Pedrinho
Recuperado, Pedrinho viveu sua melhor temporada pelo Palmeiras em 2004, com 14 gols em 49 jogos, somando 127 partidas e 31 gols pelo clube antes de retornar ao Vasco em 2008, onde é o segundo maior ídolo da sua carreira — atrás apenas da própria Colina, onde se tornou multicampeão e hoje comanda como presidente.
Onde assistir
A partida tem transmissão da TV Globo, ge tv, sportv, Premiere e Amazon Prime, além de tempo real com vídeos no ge. Arbitragem por Anderson Daronco (RS), auxiliado por Rafael da Silva Alves (RS) e Guilherme Dias Camilo (MG); quarto árbitro Paulo Roberto Alves Junior (PR); VAR com Rodrigo D'Alonso Ferreira (SC).
O jogo de volta está marcado para o próximo domingo, em São Januário, no Rio de Janeiro. Quem avançar enfrenta na final, em jogo único no dia 6 de dezembro, em Brasília, o vencedor da outra semifinal, entre Grêmio e Atlético-MG — o que mantém um clube gaúcho na briga pela taça até, pelo menos, a decisão.