Botafogo vence o Atlético-MG, sai do sufoco do Z-4 e ganha novo assessor de arbitragem
Tem vitória que vale pela beleza, tem vitória que vale pela estatística, e tem vitória que vale só pelo peso que sai das costas de quem joga. A do Botafogo sobre o Atlético-MG, nesta quarta-feira, no Nilton Santos, foi desse último tipo: sofrida, pouco vistosa, mas essencial. O time carioca venceu por 1 a 0, gol de Edenilson, e saiu de uma fase de sufoco na tabela do Brasileirão para respirar com cinco pontos de distância da zona de rebaixamento.
Tudo indicava um jogo mais tranquilo para o Alvinegro. Jogaria em casa, com o Nilton Santos cheio, contra um adversário que entrou em campo com reservas pensando no duelo de sábado com o Grêmio, pela semifinal da Copa do Brasil. Mesmo assim, o contexto pesava: uma derrota poderia deixar o Botafogo a um ponto da degola.
Três zagueiros e a surpresa de Tite
A escalação surpreendeu. Tite montou o Botafogo com três zagueiros — Ferraresi, Justino e Marçal —, recolocou Huguinho como primeiro volante, manteve Medina no meio e formou o ataque com Danilo Pereira e Tiquinho. Foi uma equipe bem diferente da apresentada nos jogos anteriores, principalmente pela segurança na defesa: o goleiro Gabriel Batista pouco foi exigido, e quando precisou trabalhar, respondeu bem.
O esquema com três zagueiros e um volante de proteção funcionou. Huguinho teve atuação de destaque, blindando a saída de bola e protegendo a área. Ofensivamente, o time ainda engatinhava nos primeiros minutos, com Medina apagado, mas foi Vitinho quem ensaiou as primeiras arrancadas — numa delas, tocou para Edenilson. O meia apareceu bem posicionado, pisou na área e marcou seu sexto gol na temporada, o suficiente para decidir a partida.
Segundo tempo de sustos e chances perdidas
Com a vantagem no placar, o Botafogo passou a se postar em 5-4-1 sem a bola, deixando Tiquinho isolado no ataque. O jogo esfriou, o Atlético-MG ganhou espaço, mas não conseguiu furar a defesa alvinegra nem superar as boas intervenções de Gabriel Batista.
Tite ainda fez ajustes na etapa final, colocando Alex Telles e deslocando Paulinho para a ponta, depois substituído por Kauan Toledo. A velocidade só apareceu de fato perto dos 30 minutos, quando Matheus Martins e Kauan Toledo ganharam ritmo — mas o time carioca cometeu o pecado clássico de quem ainda briga contra o rebaixamento: desperdiçou chances claras. Matheus Martins teve a chance de ampliar, mas foi mal cara a cara com o goleiro Everson. Kauan Toledo também errou decisões em momentos de poder matar o jogo.
Nos minutos finais, a tensão voltou a subir na arquibancada do Nilton Santos, com o Galo pressionando sem efetividade. O apito final trouxe alívio: o Botafogo seguiu com a vantagem mínima e respirou na tabela.
Marçal dedica a vitória a Tite
Na zona mista, o zagueiro e lateral-esquerdo Marçal, que atuou na inédita linha de três, fez questão de dedicar o resultado ao técnico, alvo de críticas da torcida em meio à sequência irregular do time.
"O futebol é dinâmico, as coisas mudam muito rápido. Pelo trabalho que ele tem feito, pela história dele, pelo trabalho no dia a dia e a pessoa que ele é junto com o grupo... Tem sido uma injustiça os resultados que a gente tem tido. Acho que o grupo dedica mais essa vitória a ele, para poder sair um pouco do peso que todos botam em cima dele, é normal. É um treinador renomado, e acho importante voltar a vencer para mostrar que o trabalho dele é muito bom. Dedicamos isso a ele também."
O zagueiro também explicou a mudança tática pedida por Tite para a partida:
"A estratégia do professor funcionou, ele mudou para três zagueiros. Um sistema que a gente não vinha utilizando e funcionou super bem. A estratégia era tentar sair na frente, não tomar gols e ficar um pouco mais sólido. E tentar matar o jogo no contra-ataque, ou tentar fazer gols. Conseguimos sair na frente, não sofremos gols, não tivemos nenhum lance de perigo. Tivemos duas chances em contra-ataques em que poderíamos matar. Acho que a estratégia do professor foi ótima, funcionou, e espero que continue assim."
Marçal também comentou a presença do investidor Gabriel de Alba no estádio e a importância de somar pontos antes da pausa para a Data Fifa:
"É sempre importante ter a presença do 'boss' para que a gente possa entender como eles estão vendo isso também. Ele sabe que era um momento delicado. A gente fala sobre pontuação, vitória, mas se a gente não pontua hoje, poderíamos estar falando de uma situação muito complicada e com ânimos diferentes nessa pausa."
Everson volta depois de 63 dias e evita o 2 a 0
Do lado do Atlético-MG, o destaque isolado foi o goleiro Everson, que retornou à titularidade depois de dois meses parado por uma fratura no pé esquerdo sofrida ainda em 1º de setembro, na vitória sobre o Cruzeiro pela Copa do Brasil. Mesmo com o time mineiro escalado com reservas — o técnico Eduardo Domínguez poupou os titulares visando o duelo com o Grêmio —, Everson fez ao menos uma defesa decisiva, em chute de Matheus Martins que poderia ter ampliado o placar para o Botafogo.
"Resultado ruim, a gente veio para buscar um resultado positivo. Tivemos mais posse de bola, finalizamos um pouco mais, mas não fomos contundentes. Demos uma oportunidade para a equipe adversária e eles foram felizes. Mas feliz pela minha volta, dois meses parado. Sou um cara que gosta muito de defender as cores do Galo."
O goleiro, com 395 jogos e oito títulos pelo Atlético-MG, projetou a sequência da equipe, já de olho no duelo direto com o futebol gaúcho:
"Feliz por ter voltado a jogar, por ter contribuído com uma defesa. O professor vai ter tempo agora para escolher os melhores pro jogo de sábado. Sabemos da desvantagem, respeitar a equipe adversária, mas continuar em busca do sonho e do objetivo que é chegar na final da Copa do Brasil."
Botafogo contrata ex-árbitro para "profissionalizar" a arbitragem interna
A vitória também marcou a estreia de um novo nome na estrutura do Botafogo fora de campo: o ex-árbitro Marcelo de Lima Henrique, contratado como assessor de arbitragem do clube. Ele esteve no Nilton Santos com uniforme de funcionário do Botafogo e, após o jogo, passou pelo centro de imprensa em direção ao vestiário da arbitragem.
Internamente, a chegada de Marcelo é descrita como uma aposta na "capacidade técnica" de um profissional com 32 anos de experiência no apito, parte de um movimento de profissionalização do clube. Entre suas funções estará articular com entidades sobre temas de arbitragem, participar das devolutivas em reuniões semanais com a CBF e auxiliar o dia a dia do elenco com conteúdo sobre o perfil de cada árbitro — se é mais rigoroso, como reage à pressão ou se costuma distribuir muitos cartões.
"Estreia com uma grande vitória e com o PÉ DIREITO como Assessor de Arbitragem pelo Botafogo. Com muita ética e respeito vou me doar ao máximo para colaborar com excelência ao gigante mundial Botafogo."
A contratação, no entanto, dividiu opiniões entre torcedores, que lembraram o nome de Marcelo de Lima Henrique de uma polêmica na decisão da Taça Guanabara de 2008, contra o Flamengo, episódio conhecido como "chororô" por causa das reclamações da comissão e da diretoria do Botafogo na época. Em entrevista recente, o próprio ex-árbitro comentou o caso:
"Teve um pênalti que eu marquei em 2008, Flamengo x Botafogo, em que o Ferrero segura o Fábio Luciano, a favor do Flamengo. A torcida do Botafogo reclamou demais. Mas, na segunda-feira, a capa do jornal O Globo era essa foto do Fábio Luciano praticamente sem camisa. Eu fiquei assim no trânsito: 'Caramba, e se eu não marcasse esse pênalti?'. Ainda bem que eu consegui ver esse pênalti. Mas eu não me lembro de tragédias na minha carreira, em grandes decisões, não."
Ainda não há data marcada para a apresentação de Marcelo ao elenco do Botafogo, que só volta a jogar depois da pausa da Data Fifa.
Com o resultado, o Botafogo chegou aos 42 pontos no Brasileirão, na 11ª colocação, a três pontos do chamado "número mágico" que garante matematicamente a permanência na Série A. O time volta a campo somente no dia 18 de novembro, contra o Corinthians, na Neo Química Arena.
Já o Atlético-MG, que usou força alternativa em Botafogo, concentra agora as atenções no duelo direto com o futebol gaúcho: encara o Grêmio neste sábado, às 18h, na Arena MRV, pela semifinal da Copa do Brasil. Depois de perder o jogo de ida na Arena do Grêmio, o Galo precisa vencer por três gols de diferença para avançar à final direto, ou por dois gols para levar a decisão aos pênaltis.