Sem gols, mas com feridas à mostra: Inter sai do Gre-Nal 453 abatido e às voltas com salários atrasados
Sem gols, mas com feridas à mostra: Inter sai do Gre-Nal 453 abatido e às voltas com salários atrasados
Empate em 0 a 0 na abertura das quartas de final da Copa do Brasil expõe um vestiário sem energia, atrasos nos direitos de imagem e um time que precisa se reencontrar antes da decisão
Não houve gols no Beira-Rio, mas o silêncio do placar não foi o silêncio mais eloquente da noite. Foi o dos jogadores do Inter, de ombros curvados e olhares perdidos, deixando o gramado com a sensação de quem carrega mais do que um empate. O 0 a 0 diante do Grêmio, na primeira partida das quartas de final da Copa do Brasil, poderia ter sido tratado como um resultado neutro. Mas para quem acompanha o dia a dia colorado, aquele vestiário contava uma história bem mais dura do que os noventa minutos sem rede balançada.
Um abatimento maior do que o de uma derrota
Comparações são inevitáveis. Na final do Campeonato Gaúcho, quando o Inter havia sido superado por 3 a 0 na Arena, o clima entre os jogadores, ainda que amargo, carregava indignação. Desta vez, no Beira-Rio, a sensação foi de exaustão. A sequência recente de resultados ruins em casa, somada à pressão do Brasileirão e a problemas que extrapolam o campo, cobrou seu preço. Até a reclamação da arbitragem, tradicionalmente inflamada em clássicos, veio em tom mais comedido do que o habitual.
A concentração que não existiu
O primeiro sinal de que algo fugia do script apareceu antes da bola rolar. Diferentemente do costume em jogos desse porte, não houve concentração em hotel. Jogadores, comissão técnica e direção combinaram que a apresentação aconteceria apenas na hora do almoço, decisão que rompe com qualquer protocolo tradicional para um Gre-Nal. O motivo, reconhecido abertamente pelo clube, foi o atraso nos direitos de imagem dos atletas.
Mesmo diante do desconforto evidente, a mensagem oficial buscou separar a crise financeira do desempenho em campo. O técnico Pezzolano foi direto ao tratar do tema em coletiva:
Os jogadores sabem que a situação é difícil, mas não é por isso que estamos lutando contra o rebaixamento. A relação entre todos no dia a dia é muito boa. É normal que um trabalhador queira receber, só que se alguém jogar mal porque não está recebendo, deixo fora do time.
Pezzolano — técnico do Internacional
O presidente Alessandro Barcellos também subiu ao púlpito da coletiva para reforçar o discurso de gratidão e reconhecimento:
Quero agradecer ao grupo de atletas, que tem parte de seus vencimentos atrasados, pelo empenho. Problemas financeiros não são exclusividade do Inter e estamos trabalhando para resolver. É uma situação ruim para todos, mas desafio qualquer um a achar alguma partida em que os atletas não tenham se empenhado. Se os resultados não vieram, não foi por falta de dedicação.
Alessandro Barcellos — presidente do Internacional
Capitão em campo na noite de quinta-feira, Mercado completou o coro de que o problema financeiro não interfere na entrega dentro das quatro linhas:
Temos vencimentos atrasados, foi uma decisão em conjunto. Não tem nada grave e não vai mudar nosso foco e nossa preparação para esses jogos tão importantes. Nosso grupo sabe separar as situações, se dedica muito e se prepara para fazer o melhor.
Mercado — zagueiro e capitão do Internacional
As escolhas táticas e um segundo tempo que veio tarde
Em campo, Pezzolano optou por escalar Calebe entre os titulares, buscando mais intensidade pelo lado direito, e apostou em Vitinho como referência de área, já que Sanabria segue sem plenas condições físicas. O Grêmio, no entanto, leu rápido o desenho colorado e neutralizou as investidas durante praticamente todo o primeiro tempo. Só na etapa complementar o Inter conseguiu impor um ritmo mais consistente, sem, no entanto, transformar o domínio em gols.
Questionado sobre o volume de trocas realizadas ao longo da partida, o treinador uruguaio foi autocrítico, mas também ponderou sobre os limites do que as substituições poderiam resolver:
Acho que deveria ter trocado mais. Ser treinador exige coragem para tomar decisões e gosto disso. Mexi porque também não estamos ganhando. Mas não vejo que as trocas tenham sido tão importantes para que não tenhamos jogado melhor.
Pezzolano — técnico do Internacional
A crítica reservada para o fim
Se o tom geral da coletiva foi de resignação, Alessandro Barcellos guardou para a última resposta a única fala mais dura da noite, direcionada à arbitragem de Ramon Abatti Abel. O presidente colorado questionou a ausência de expulsão de Carlos Vinícius após falta em Bruno Gomes, cometida três minutos depois de o zagueiro gremista já ter recebido cartão amarelo.
Lamentável a atuação da arbitragem em um lance capital do jogo. Não achei ninguém que contestasse que o lance do Carlos Vinícius fosse, no mínimo, para outro amarelo. O VAR deveria ter chamado porque era lance para vermelho, mas mesmo que não entendesse assim, deveria ter levado o segundo.
Alessandro Barcellos — presidente do Internacional
⚽ Ficha Técnica
| Competição | Copa do Brasil — Quartas de final (jogo de ida) |
| Data | Quinta-feira, 27 de agosto de 2026 |
| Local | Estádio Beira-Rio — Porto Alegre, RS |
| Gols | Sem gols na partida |
| Destaque | Expulsão não assinalada a Carlos Vinícius, alvo de reclamação da diretoria colorada |
O que vem pela frente
Antes de voltar a pensar no jogo decisivo da Copa do Brasil, marcado para a próxima quinta-feira, o Inter enfrenta um compromisso pesado pelo Brasileirão. Neste domingo, às 19h30min, a equipe visita o Bahia em Salvador. No cenário mais pessimista, fecharia a 25ª rodada na penúltima colocação da tabela; no melhor deles, poderia alcançar a 13ª posição. Antes de qualquer conta, porém, o desafio real é outro: encontrar ânimo. Desde o gol sofrido para o Remo no último lance de uma partida recente, o Inter ainda não encontrou o caminho para sair do buraco emocional em que se meteu.
O empate sem gols no Gre-Nal 453 não decidiu vaga alguma, mas expôs algo mais profundo do que o resultado no placar: um clube tentando administrar crise financeira, cobrança e cansaço emocional ao mesmo tempo, com o relógio correndo até o jogo de volta.