Renato x estrangeiros: um atrito antigo vira novo capítulo da crise no Grêmio, com Luís Castro à espreita em Porto Alegre
Há treinadores que fecham o vestiário como quem tranca um cofre. Renato Portaluppi escolheu o caminho contrário. Depois do empate do Grêmio no Gre-Nal 455, no domingo (11), em pleno sufoco contra o Z-4 da Série A, o técnico abriu a porta e jogou luz sobre um incômodo antigo: a relação dele com os jogadores estrangeiros, hoje maioria estatística relevante num elenco de 11 atletas de fora do Brasil e oito nacionalidades diferentes. A fala reacendeu um histórico de atritos que já passou pelo Vasco e por passagens anteriores do próprio Renato no Tricolor — e agora ameaça dividir o grupo gremista, enquanto Luís Castro, o antecessor citado nominalmente nas críticas, segue em Porto Alegre, a poucos quilômetros do Olímpico, ouvindo cada palavra.
O retrato do vestiário: 11 estrangeiros, oito nacionalidades
O elenco atual do Grêmio tem 11 jogadores nascidos fora do Brasil. Desse grupo, dez entram na conta de relacionados para as partidas — Walter Kannemann, apesar de argentino de nascimento, tem nacionalidade brasileira e não é contabilizado como estrangeiro pela regra da CBF. São oito nacionalidades diferentes dividindo o mesmo vestiário, um número que Renato classificou como fator de risco para a formação de grupos fechados dentro do time.
"Você chega aqui e tem dois ou três caras falando uma língua. No outro canto, três ou quatro falando outra. O que acho um erro."
Para o treinador, o problema não está nos próprios atletas, mas em quem os contrata sem avaliar o tempo de adaptação que cada um vai exigir.
"Você vai contratar um jogador, independente da posição, você tem que pegar a ficha desse jogador. Não pode simplesmente trazer aquele estrangeiro e botar ele aqui no grupo. Aí tem que chegar um treinador aqui com a varinha mágica. Não é assim que se trabalha. Aí trazem e não era o jogador certo. Bom, então tem que cobrar de quem trouxe. Não tem o que inventar. Estoura em quem está na beira do campo."
Amuzu e Krovinovic, os nomes citados
Na coletiva, Renato foi direto ao apontar dois casos específicos. O ponta belga/ganês Amuzu está no Grêmio desde fevereiro de 2025 e, segundo o técnico, ainda não fala português — quase dois anos depois de desembarcar no Rio Grande do Sul.
"Tem de estar sempre do lado dele. Chega em um país em que você não fala a língua e precisa se adaptar."
Já o croata Filip Krovinovic, contratado há cerca de três meses, não tem a barreira do idioma — aprendeu português na época em que defendeu o Benfica. O obstáculo, segundo Renato, é tático: o meia-atacante nunca havia atuado fora da Europa e ainda está se habituando às exigências do futebol brasileiro.
"Converso bastante com ele, por exemplo, eu tenho que chegar aqui com pouco tempo. Falar para ele que ele tem que pisar na área. Ele é meia, certo?"
Amuzu
No Grêmio desde fev/2025. Segundo Renato, ainda não fala português.
Krovinovic
Chegou há três meses. Fala português, mas nunca tinha jogado fora da Europa.
Kannemann e Villasanti
Estrangeiros, mas são as principais lideranças que Renato tenta mobilizar no vestiário.
Luís Castro
Citado nominalmente nas críticas, segue em Porto Alegre e reagiu com indignação a amigos.
Vasco e o capítulo colombiano
O atrito de Renato com jogadores de fora do Brasil não nasceu agora. Antes de voltar ao Grêmio, ele comandou o Vasco entre março e junho deste ano — e uma das polêmicas do período envolveu justamente atletas colombianos. Em abril, após derrota para o Botafogo, foi questionado sobre a dificuldade do colombiano Marino Hinestroza em engrenar no time carioca.
"O que eu mais falo, até por eu ter sido atacante, é para eles terem tranquilidade para tomar a melhor decisão. O desespero próximo da área é sempre do adversário. Temos quatro colombianos no grupo, eu procuro sempre corrigir eles. E eles têm muitos erros. É o meu trabalho, mas é falta de tempo. Não é da noite para o dia que eu vou corrigir os caras 100%."
O Grêmio do passado também filtrava
Na mesma entrevista, Renato recordou um critério que já usava em passagens anteriores pelo clube gaúcho ao analisar propostas de colombianos e equatorianos oferecidos ao Tricolor.
"Eu gosto deles, mas eu só dava o aval para trazerem quando estavam adaptados ao futebol brasileiro. O jogador colombiano e equatoriano precisa de muito tempo para se adaptar ao futebol brasileiro. Tem uma diferença muito grande, principalmente taticamente. E isso leva tempo."
O discurso ecoa diretamente no elenco atual. Segundo a coluna de Queki, publicada nesta segunda, o Grêmio chegou a ter 14 estrangeiros no vestiário na temporada passada — e mais de R$ 100 milhões foram investidos em nomes como Nardoni, Tetê, Enamorado e Pérez, nenhum dos quais está hoje no time titular. Pérez, inclusive, já nem faz mais parte do elenco.
A régua da CBF vai apertar
O debate sobre a quantidade de estrangeiros em campo deve crescer ainda mais no fim do ano, quando a CBF reduz o número de atletas de fora do Brasil permitidos entre os relacionados.
Linha do tempo da regra de estrangeiros
- 2026 (atual): até nove estrangeiros relacionados por partida nas competições nacionais.
- 2027: limite cai para oito.
- 2030 (meta da CBF): apenas cinco estrangeiros relacionados por jogo.
Com 11 jogadores estrangeiros no plantel — dos quais dez entram na lista de relacionados —, o Grêmio já sente hoje o peso de um elenco que, pela nova régua, pode precisar de ajustes significativos nos próximos anos.
Castro, a "crueldade" e os números que não fecham
As críticas de Renato não ficaram restritas ao tema dos estrangeiros. Em dois momentos recentes — após o jogo contra o Remo e na entrevista pós-Gre-Nal, uma das mais contundentes de suas cinco passagens pelo clube — o técnico também apontou o trabalho do antecessor como parte do problema, justificando a falta de evolução do time por não conseguir, em 15 dias de treinos, corrigir erros acumulados em nove meses de trabalho anterior.
Luís Castro, que decidiu permanecer em Porto Alegre enquanto aguarda os próximos passos da carreira, acompanhou as duas últimas entrevistas de Renato de perto — literalmente. Segundo pessoa próxima ao português ouvida pela coluna de Leonardo Oliveira, Castro reagiu com decepção e indignação ao modo como foi citado pelo sucessor.
"Nunca ter ouvido em décadas de carreira um colega ter se referido a outro de forma cruel, desrespeitosa e injusta."
O português também teria contestado, segundo a mesma fonte, as declarações de Renato sobre dificuldades físicas do time sob seu comando — argumentando que os números registrados pelo departamento de performance do Grêmio contradiriam essa versão.
Fechar o vestiário, blindar a diretoria
Apesar do tom das críticas, a estratégia de Renato nos bastidores é outra: tentar reagrupar o elenco em torno dos próprios jogadores que mantém boa relação, caso dos capitães Kannemann e Villasanti — ambos estrangeiros —, além de Carlos Vinícius, Weverton e Marlon, principais referências internas. A ideia é reunir quem está comprometido a evitar o rebaixamento nos próximos 40 dias de competição.
"Com esse grupo, vamos sair dessa. Final do ano cada um tem sua consequência. Eu fui contratado para não ser rebaixado. A gente já sabia que até a última partida ia ser sofrimento. Até pela tabela que o Grêmio tem, mas estou bastante confiante. Pode ter certeza que vamos brigar até o fim."
Enquanto o treinador tenta reconstruir a unidade no campo, o departamento de futebol segue blindado na diretoria. O executivo Paulo Pelaipe e o vice-presidente Rafael Lima, alvos de críticas de conselheiros e nas redes sociais pela reformulação do elenco — cerca de 25 saídas, 12 contratações e promoções de jovens nesta temporada —, mantêm o respaldo do presidente Odorico Roman, que não planeja mudanças no setor neste momento.
Novas conversas entre jogadores, comissão técnica e dirigentes devem ocorrer nos próximos dias. A reapresentação do grupo está marcada para esta terça-feira (13), à tarde, e o Grêmio terá cinco dias de preparação até o duelo de domingo (18), decisivo na luta pela permanência na Série A. Desde o retorno de Renato ao clube, o time soma três empates e ainda busca a primeira vitória na quinta passagem do treinador pela casamata tricolor — enquanto Luís Castro, a poucos quilômetros de distância, continua acompanhando de perto cada novo capítulo da crise.