O áudio que não existia: a gafe histórica da defesa do Inter no STJD
O áudio que não existia: a gafe histórica da defesa do Inter no STJD
Advogados do clube colorado apresentaram como prova um áudio de paródia do VAR, retirado de perfil humorístico do Instagram. Victor Gabriel foi condenado mesmo assim.
Num tribunal esportivo, onde cada detalhe técnico pode definir a carreira de um atleta, a defesa do Internacional entrou na sessão desta terça-feira (28) armada com uma prova que parecia decisiva: o áudio da cabine do VAR, revelando os bastidores da expulsão de Victor Gabriel na partida contra o Cruzeiro. O problema é que o áudio não era real. Era de um perfil de paródia no Instagram — e o escândalo que se seguiu acabou por definir um dos episódios mais embaraçosos do futebol gaúcho recente dentro de um tribunal.
O julgamento de Victor Gabriel pelo STJD, marcado para apurar a entrada violenta no meia Gabriel Pec no dia 22 de julho, já era cercado de tensão. A falta resultou em fratura na tíbia do jogador do Cruzeiro, com prognóstico de até seis meses de recuperação. O lance era grave. A pena, quase certa. Mas o que ninguém esperava é que a defesa transformasse a sessão também num vexame institucional.
O julgamento e a condenação
Victor Gabriel foi julgado e condenado pelo STJD nesta terça. A pena estabelecida pelos auditores foi de suspensão por seis jogos — ou até que Gabriel Pec retorne aos treinos, com prazo máximo de 180 dias. A previsão médica para a recuperação do cruzeirense é justamente de cerca de seis meses, o que na prática significa que o zagueiro colorado dificilmente voltará a campo em 2026.
A entrada de Victor Gabriel aconteceu no jogo do dia 22 de julho, pelo Brasileirão. O zagueiro entrou de carrinho e atingiu a perna esquerda de Gabriel Pec, que deixou o gramado do Beira-Rio de maca. O árbitro Flávio Rodrigues de Souza expulsou o jogador do Inter após consulta ao VAR, operado por Carlos Eduardo Nunes Braga. A defesa colorado tentou questionar exatamente esse diálogo entre árbitro e VAR.
A prova que veio das redes sociais
O escritório Cravo, Pastl e Balbuena Advogados Associados, responsável pela defesa de Victor Gabriel, apresentou ao tribunal um áudio que seria a conversa entre o árbitro Flávio Rodrigues de Souza e o responsável pelo VAR na partida. No diálogo, o árbitro de vídeo tentaria convencer o árbitro de campo a não expulsar Victor Gabriel — sugerindo que o lance era acidental, que o campo estava molhado, que o carrinho era resultado de um escorregão.
Durante a sessão, a auditora Aline Gonçalves identificou a irregularidade e informou ao tribunal que o áudio apresentado não correspondia ao material oficial. Confrontados com a descoberta, os advogados do Inter solicitaram imediatamente que o áudio fosse excluído das provas. Ao encerrar a sessão, o advogado Rogério Pastl buscou minimizar o impacto da situação:
"Não se trata de uma prova falsa. Eventualmente pode ter acontecido alguma inadvertência, alguma falta de checagem. Em nenhum momento houve algum dolo ou má fé por parte do Internacional ou da defesa. Vamos tentar esclarecer isso no período que se segue da mesma maneira como sempre atuamos nesse tribunal." — Rogério Pastl, advogado do Inter no STJD
O áudio que enganou os advogados
A transcrição do áudio apresentado como prova pelo Inter revela um diálogo no qual o VAR tenta repetidamente convencer o árbitro a não aplicar o vermelho direto — argumentando que o lance era acidental, que o campo estava molhado e que a visão da cabine era diferente da do campo. O árbitro mantém a expulsão, mas de forma vacilante, sem convicção técnica.
O problema é que nenhuma palavra desse diálogo foi dita pelos profissionais envolvidos na partida. O conteúdo é uma criação do perfil humorístico "O VAR Brasileiro", que simula conversas fictícias para fins de entretenimento. Veja a íntegra:
⚠ Transcrição do áudio fake — fonte: perfil "O VAR Brasileiro" (Instagram)
Árbitro:
Eu fui para o campo, vi o carrinho com as duas pernas, ok?
VAR:
Mas para aplicação direta, você não quer verificar aqui na cabine?
Árbitro:
Não, ele força o movimento com as nádegas, ele levanta a sola, ok? Eu acho que tá melhor.
VAR:
Pega um pouco acima do meião branco do jogador do Cruzeiro, um pouco acima.
Árbitro:
Não, vocês estão me incutindo dúvida agora. Eu posso estar errado. Eu preciso rever, vocês acham?
VAR:
Tudo bem, tudo bem, mas você não quer verificar a intensidade do lance? Porque ele escorrega, é acidental.
Árbitro:
É o que eu tô perguntando. Vocês acham que eu tenho que ir, ouvir o campo?
VAR:
O campo tá molhado, Flávio.
Árbitro:
Não, eu fui no campo. Dá licença, que eu tô falando com ele. Eu vi o carrinho com a sola.
VAR:
Eu sei, eu sei, mas o vermelho direto me parece exagero. O campo tá molhado, repito.
Árbitro:
Eu tô pensando aqui, tá? Eu tô pensando, mas acho que eu vou manter o vermelho para não causar confusão em campo.
VAR:
Ok, ok. É que na visão da cabine não oferecia perigo.
Árbitro:
Bom, tudo bem. Eu ouço a recomendação de vocês, mas só para não causar confusão.
VAR:
Tá bom, a decisão final é sua.
Árbitro:
Ok, para não causar confusão, eu vou manter o que eu decidi em campo, ok? Só por isso.
VAR:
Ok.
A CBF confirma: ninguém pediu o áudio original
Consultada pela reportagem da Zero Hora após o julgamento, a assessoria da CBF confirmou que o áudio apresentado pelo Inter não é o que ocorreu entre árbitro e VAR na partida. A entidade também revelou um detalhe significativo: nenhum dos dois clubes envolvidos — nem o Inter, nem o Cruzeiro — havia solicitado as imagens e o áudio oficial antes da sessão.
O auditor Rodrigo Steinmann Bayer anunciou que vai solicitar à comissão de arbitragem o envio do material original para o processo. A reportagem também requisitou o áudio à CBF.
Um precedente colorado: o caso Bolívar e Dodô em 2011
A pena aplicada a Victor Gabriel não é inédita no histórico do Inter no STJD. Em novembro de 2011, o zagueiro Bolívar passou por situação semelhante após entrada violenta em Dodô, lateral do Bahia, que resultou em ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo. À época, o árbitro da partida sequer marcou falta no lance, mas o STJD abriu processo disciplinar.
Na primeira instância, a Comissão Disciplinar do tribunal aplicou a mesma lógica usada agora para Victor Gabriel: suspensão de 180 dias ou até o retorno de Dodô às atividades — a chamada pena equivalente ao tempo de recuperação do atleta lesionado, prevista no artigo 254 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva. A punição foi duramente contestada pela defesa do jogador colorado.
No recurso ao Pleno do STJD, porém, a pena foi revertida. O tribunal reduziu a suspensão para quatro jogos, afastando a aplicação do parágrafo que vinculava a punição ao tempo de inatividade de Dodô. O caso Bolívar tornou-se referência no direito desportivo brasileiro justamente por ter sido o primeiro a discutir extensamente esse tipo de punição proporcional ao dano sofrido pela vítima — e o Inter saiu na época com uma penalidade bem mais branda do que a imposta inicialmente. A defesa de Victor Gabriel certamente estudará esse precedente ao preparar o recurso.
A nota do Inter: "equívoco", não má-fé
Horas após o julgamento, o Internacional se pronunciou oficialmente. Em nota assinada em conjunto pelo clube e pelo escritório Cravo, Pastl e Balbuena, o Inter admitiu que os advogados se valeram de "um áudio que circulava nas redes sociais" sem a devida verificação. O texto reconhece a falha, mas rejeita qualquer intenção dolosa:
"Com 19 anos de serviços prestados ao Clube, ao longo dos quais sempre atendeu o Sport Club Internacional de forma idônea, correta e comprometida, o escritório acabou se utilizando, na busca da defesa do atleta, de um áudio que circulava nas redes sociais. Tanto o escritório quanto o Inter ressaltam que jamais tiveram a intenção de praticar qualquer ato motivado por má-fé no âmbito do processo em questão. Houve, sim, uma falha reconhecida na captação e utilização do conteúdo apresentado na defesa do jogador, imediatamente assumida mediante pedido expresso de retirada do áudio dos autos." — Nota oficial do Sport Club Internacional e do escritório Cravo, Pastl e Balbuena
O comunicado ainda afirma que o escritório "pretende aprimorar ainda mais seus métodos para futuros julgamentos" e que tanto o clube quanto os advogados "reafirmam seu compromisso com a ética, a transparência e o respeito às instituições que regem o futebol brasileiro".
Victor Gabriel passa agora uma temporada inteira à sombra de dois episódios: a entrada que quebrou a perna de Gabriel Pec e a defesa que buscou o absurdo onde havia apenas paródia. O zagueiro colorado dificilmente voltará a jogar em 2026. Para o Inter, a condenação já era esperada — o que ninguém imaginava é que o caminho até ela reservaria um capítulo que vai durar muito mais do que a suspensão.