Luto no futebol espanhol: a morte de Jesús de Miguel, a dor de Owono e o abraço da torcida do Tenerife
Tem jogos em que a bola para de rolar e o silêncio toma conta do estádio como se o próprio tempo tivesse travado. Foi isso que aconteceu na Espanha: uma disputa de bola nos acréscimos de uma partida de segunda divisão terminou em tragédia, e o futebol, de repente, ficou pequeno diante da vida. Jesús de Miguel, atacante do Tenerife, de 30 anos, sofreu uma parada cardiorrespiratória após se chocar com o goleiro Jesús Owono, do FC Andorra, na noite de segunda-feira. Levado de ambulância direto para o hospital, o jogador teve uma piora no quadro neurológico durante a madrugada e não resistiu — a morte foi confirmada na manhã de terça-feira. Nesta quarta, o luto segue dividido entre as homenagens da torcida do Tenerife e a repercussão em torno do goleiro, que se tornou alvo de ataques nas redes sociais e ganhou a defesa pública da mulher do meio-campista Federico Valverde, do Real Madrid.
A colisão que silenciou o estádio
O lance aconteceu nos minutos finais do confronto entre Tenerife e FC Andorra, válido pela Segunda Divisão do Campeonato Espanhol. Em uma disputa de bola, De Miguel e Owono se chocaram com força, e o atacante caiu sem reação. A partida foi imediatamente suspensa enquanto a equipe médica atendia o jogador ainda no gramado, antes de ele ser retirado de ambulância rumo ao hospital.
Madrugada de terça-feira: piora no quadro neurológico do atacante, internado desde o acidente.
Terça-feira pela manhã: o Tenerife confirma a morte de Jesús de Miguel, aos 30 anos.
Quarta-feira: torcida se mobiliza em homenagens e a repercussão sobre o goleiro ganha força nas redes.
Logo depois da partida, Owono foi visto chorando e rezando no vestiário. Ainda no momento de deixar o campo, ouviu gritos de "assassino" vindos da arquibancada — cena que se repetiu, de forma ainda mais dura, nos comentários que passou a receber nas redes sociais. Por causa da enxurrada de ataques, o goleiro decidiu desativar sua conta no Instagram.
Quem é Jesús Owono, o goleiro no centro da tragédia
Jesús Lázaro Ferrer Owono Ngua Akeng tem 25 anos e nasceu em 1º de março de 2001, em Bata, na Guiné Equatorial. Ainda criança, se mudou com a família para a Espanha e cresceu em San Sebastián, no País Basco, onde começou a jogar futebol e logo descobriu a vocação para o gol.
Das categorias de base ao profissional
Começou no Antiguoko, foi contratado pela Real Sociedad aos 12 anos, onde ficou quatro temporadas, e se transferiu para o Alavés aos 16, clube pelo qual estreou na LaLiga em 2022, contra a própria Real Sociedad.
Titular pelo Andorra
Chegou ao FC Andorra por empréstimo na temporada passada. No meio de 2026, o clube decidiu investir no goleiro e assinou contrato por duas temporadas, com opção de mais duas. Vinha como titular sob o comando do técnico Carles Manso.
Camisa da Guiné Equatorial
Defende a seleção principal da Guiné Equatorial desde 2019, já tendo disputado amistosos internacionais e a Copa das Nações Africanas.
Marvel, afrobeat e Beethoven
Fã declarado da Marvel, coleciona bonecos de personagens da franquia. Ouve afrobeat no dia a dia e usa música clássica, sobretudo obras de Beethoven, para estudar e se concentrar.
Religioso, Owono mantinha em sua bio do Instagram, antes de desativar a conta, um trecho do livro de Eclesiastes (3:1-8), que fala sobre haver um tempo determinado para cada acontecimento na vida — um detalhe que ganhou novo peso diante do momento que o goleiro atravessa.
"Ele não é um assassino", diz esposa de Valverde
A onda de ataques contra Owono motivou uma manifestação pública de Mina Bonino, jornalista argentina e mulher do meio-campista Federico Valverde, do Real Madrid. Em publicação nas redes sociais, ela pediu o fim do julgamento coletivo contra o goleiro e defendeu que não houve intenção de matar no lance que resultou na morte de De Miguel.
Owono carregará por toda a vida sua própria cruz por ter cometido um erro. Uma saída imprudente que custou a vida de seu companheiro e possivelmente arruinará a sua também, mas ele não é um assassino.
Mina também criticou a forma como o caso vem sendo tratado nas redes sociais, insistindo que cabe à Justiça, e não aos internautas, julgar a conduta do goleiro.
Não somos ninguém para julgar uma pessoa que não teve intenção de matar. Ele cumprirá sua sanção e carregará uma condenação social que o condicionará por toda a vida, mas ainda estamos a tempo de parar e evitar outra morte.
Por fim, a jornalista estendeu solidariedade à família de Jesús de Miguel e fez um alerta mais amplo sobre os efeitos do ódio nas redes.
Vivemos em uma sociedade cheia de ódio. As redes sociais, em vez de serem uma janela para conhecer pessoas, se tornaram o pior lugar do mundo, onde todos são juízes que condenam para sempre. Depois choramos quando alguém se suicida, mas está em nossas mãos mudar isso.
Tenerife se une em homenagem ao atacante
Enquanto o caso do goleiro repercute, a torcida do Tenerife também vive seu próprio momento de luto. Torcedores se reuniram em diferentes pontos para prestar homenagem a Jesús de Miguel, e o portão 9 do estádio do clube foi transformado em memorial, recebendo flores, camisas e mensagens em tributo ao atacante morto aos 30 anos.
Em nota, o Tenerife manifestou solidariedade à família, aos amigos e aos torcedores de De Miguel, confirmando a morte do jogador na manhã de terça-feira após a piora no quadro neurológico registrada durante a madrugada.
Investigação em curso
A polícia espanhola apura as circunstâncias da morte de Jesús de Miguel, e a imprensa do país já questiona se o lance pode ter repercussão jurídica para o goleiro. Até o momento, nenhuma acusação formal foi divulgada — e o próprio episódio, pela forma como aconteceu dentro de uma disputa normal de jogo, alimenta o debate sobre até onde vai a responsabilidade de um atleta por um acidente em campo.
A partida entre Tenerife e FC Andorra, suspensa após a parada cardíaca de De Miguel, segue sem data definida de conclusão ou retomada do calendário da dupla na Segunda Divisão do Campeonato Espanhol. Enquanto isso, o caso expõe duas faces da mesma tragédia: o luto de uma torcida que perdeu um dos seus em campo, e o isolamento de um goleiro que, mesmo sem intenção, carrega agora o peso de uma fatalidade — e de um julgamento que, para pessoas como Mina Bonino, já foi longe demais.