Injúria racial interrompe jogo da semifinal e leva à identificação de quatro menores em Frederico Westphalen
Faltavam poucos minutos para o fim de um confronto equilibrado quando o futebol parou. Na tarde de domingo (18), na Arena União, em Frederico Westphalen, o jogo de ida da semifinal da Divisão de Acesso entre União Frederiquense e Brasil de Pelotas foi interrompido por seis minutos depois que o volante Denis Germano, do time visitante, denunciou ter sido alvo de ofensas racistas vindas da torcida mandante. A partida, que terminou empatada em 1 a 1, ficou em segundo plano diante da gravidade do episódio: quatro torcedores menores de idade foram identificados e, horas depois, levados à delegacia para o registro de boletim de ocorrência.
Como aconteceu
O lance que mudou o rumo da tarde se deu aos 41 minutos do segundo tempo. Denis Germano, que estava no banco de reservas do Brasil de Pelotas, relatou ao árbitro Wagner Silveira Echevarria ter sido ofendido com insultos racistas partindo do setor coberto do estádio. Diante da denúncia, o árbitro paralisou imediatamente o jogo e aplicou a primeira etapa do Protocolo Antirracismo da Federação Gaúcha de Futebol (FGF), cruzando os braços para sinalizar oficialmente a ocorrência.
Durante os seis minutos de paralisação, a diretoria e a equipe de segurança do União Frederiquense, com apoio da Brigada Militar, trabalharam na identificação dos responsáveis. Quatro adolescentes foram apontados como autores das ofensas. Um deles chegou a fugir do local, mas acabou identificado pouco depois. Cumpridas as etapas do protocolo, a bola voltou a rolar e a partida seguiu até o apito final, com o 1 a 1 no placar.
O jogador e os quatro adolescentes na delegacia
Encerrada a partida, Denis Germano se dirigiu à delegacia para formalizar a denúncia. Os quatro menores também foram conduzidos ao local, acompanhados pelo Conselho Tutelar e pela Brigada Militar, para o devido registro do boletim de ocorrência. O delegado responsável pelo acompanhamento da partida, Edelar Milani, explicou qual será o próximo passo do caso.
"Nós só vamos entregar os relatórios que vêm aqui do campo e a situação será encaminhada para os responsáveis cabíveis."
A reação do clube mandante
Ainda no estádio, em coletiva após o jogo, o vice-presidente do União Frederiquense, Edison Cantarelli, admitiu que o caso é inédito na história do clube e assumiu a responsabilidade pela segurança do setor onde ocorreram as ofensas.
"Nunca na história do clube tinha acontecido um caso de racismo ou injúria racial. Nós tomamos muito cuidado quanto a isso, infelizmente aconteceu. Nós identificamos que os torcedores estavam muito próximos ao banco. De maneira nenhuma a gente vai se eximir da responsabilidade do clube."
"Um deles fugiu do local, mas todos foram identificados, na medida do possível. Fizemos todo o protocolo antirracismo. A gente lamenta esse acontecido, porque foi um belo espetáculo, um belo jogo, duas grandes equipes."
O que disseram os clubes e a Federação
Horas depois do jogo, União Frederiquense, Brasil de Pelotas e a FGF divulgaram notas oficiais repudiando o episódio. O clube mandante reafirmou que colaborou ativamente na identificação dos envolvidos e prometeu adotar medidas administrativas e legais caso os fatos sejam confirmados.
O Brasil de Pelotas, clube de Denis Germano, também se posicionou em defesa do atleta e classificou o episódio como uma conduta que não pode ser confundida com rivalidade esportiva.
A Federação Gaúcha de Futebol confirmou que acompanha o caso e que atua em conjunto com a Odabá – Associação de Afroempreendedorismo, prestando suporte ao atleta.
Aos 41 min do 2º tempo
Denis Germano relata ofensas racistas ao árbitro Wagner Silveira Echevarria.
6 minutos parados
Protocolo antirracismo é acionado e jogo fica suspenso para identificação.
4 menores de idade
Um deles tentou fugir, mas foi localizado logo depois.
B.O. registrado
Jogador e adolescentes foram ouvidos com Conselho Tutelar e Brigada Militar.
O jogo
Apesar de todo o episódio em torno da denúncia, a partida seguiu em campo com o 1 a 1 no placar final, resultado que mantém a decisão da vaga na final da Divisão de Acesso em aberto. As fichas de escalação e os detalhes dos gols da partida não foram divulgados até a publicação desta matéria.
O caso adiciona um capítulo pesado à disputa do acesso ao Gauchão: Brasil de Pelotas e União Frederiquense ainda vão decidir a vaga na final em jogo de volta da semifinal, cuja data não foi confirmada pela organização até esta publicação. Enquanto isso, o episódio em Frederico Westphalen segue sendo tratado pela FGF e pela Odabá, que prometem acompanhar os desdobramentos jurídicos e de proteção ao atleta nas próximas semanas.