Corinthians afunda no Z-4 do Brasileirão e ainda enfrenta chuva de processos por dívidas do eSports
Tem time que corre contra o adversário e tem time que corre contra o calendário. O Corinthians, neste fim de outubro, corre contra os dois ao mesmo tempo: na tabela do Brasileirão, onde a derrota para o Vasco, no último sábado, em São Januário, jogou a equipe de Clarence Seedorf dentro do Z-4; e nos tribunais, onde uma enxurrada de ações trabalhistas por dívidas de uma divisão de eSports que o clube nem administrava diretamente já soma mais de R$ 2,8 milhões em condenações.
As contas do rebaixamento
Com 33 pontos em 32 jogos, o Corinthians ocupa a 17ª colocação do Campeonato Brasileiro. A derrota em São Januário tirou a equipe da zona de tranquilidade justamente na reta final da competição, quando a maioria dos concorrentes tem apenas seis rodadas pela frente.
A briga contra a queda tem vizinhos conhecidos. O Mirassol, com 37 pontos, aparece em 15º lugar, e o Internacional, com 35, está na 16ª posição — ambos com o mesmo número de jogos disputados que o Corinthians. Um pouco mais abaixo na tabela, Remo e Chapecoense ocupam a 19ª e a 20ª posições, ainda sem atingir os 30 pontos. Botafogo, Coritiba, Vasco e Vitória completam o grupo de equipes que seguem na parte de baixo da tabela, nenhuma delas tendo passado dos 40 pontos.
O Grêmio, outro concorrente direto do Corinthians nessa disputa, entra em campo nesta própria segunda-feira, contra o Coritiba, para a 32ª rodada — resultado que pode mexer ainda mais na organização da tabela antes mesmo de a rodada do Corinthians ser disputada.
Mirassol 15º
37 pontos · 32 jogos
Internacional 16º
35 pontos · 32 jogos
Corinthians 17º · Z-4
33 pontos · 32 jogos
Grêmio Joga hoje
31 jogos · recebe o Coritiba na 32ª rodada
Remo 19º
Menos de 30 pontos
Chapecoense 20º
Menos de 30 pontos
Os próximos passos de cada um
Pelas seis rodadas finais, o Corinthians enfrenta Mirassol (casa), São Paulo (fora), Botafogo (casa), Atlético-MG (fora), Grêmio (casa) e Remo (fora). Já o Internacional tem pela frente Fluminense (fora), Coritiba (casa), Vasco (casa), Vitória (casa), Red Bull Bragantino (casa) e Cruzeiro (fora). O Mirassol, por sua vez, visita o Corinthians, recebe a Chapecoense, pega o Atlético-MG em casa, visita o Fluminense, recebe o Athletico e fecha contra o Grêmio, fora de casa.
O próprio Grêmio ainda cruza com o Corinthians na 37ª rodada, em jogo que pode ter peso direto nas contas de ambos os lados da tabela.
A crise paralela: processos pela extinta divisão de eSports
Enquanto tenta se reorganizar dentro de campo, o Corinthians lida nos bastidores com um problema que nada tem a ver com futebol, mas que já custa milhões ao clube. O time é réu — e vem sendo condenado — em dezenas de ações trabalhistas relacionadas à extinta divisão de esportes eletrônicos, mesmo tendo licenciado a operação para uma empresa terceirizada, a CDS E-Sports e Entretenimento.
A CDS assumiu em 2022 a gestão da equipe de eSports do Corinthians, usando a marca do clube em competições de games. O contrato foi rescindido pelo Corinthians em setembro de 2025, em meio a denúncias de atraso de salários, irregularidades administrativas e exclusão de competições.
O entendimento que vem prevalecendo na Justiça é de que o Corinthians se beneficiou do trabalho dos atletas de eSports, ainda que não os tenha contratado diretamente.
"Os atletas prestavam serviços dentro de uma operação que utilizava a marca, a estrutura e o projeto de eSports do Corinthians, ainda que a contratação formal fosse feita por uma empresa intermediária. O entendimento que tem prevalecido é de que o clube se beneficiou diretamente daquele trabalho e, por isso, pode responder subsidiariamente pelas obrigações trabalhistas não cumpridas pela empresa contratada." — Helio Tadeu Brogna Coelho, advogado de ex-funcionários da divisão de eSports
Em um dos casos julgados em segunda instância, a desembargadora responsável deixou claro o raciocínio por trás das condenações.
"É inequívoco nos autos não ter a reclamada CDS cumprido com as suas integrais obrigações trabalhistas, o que resultou na condenação imposta pelo juízo de origem. Assim, tendo o reclamado Sport Club Corinthians contratado empresa prestadora de serviços sem idoneidade para honrar seus compromissos trabalhistas, deve arcar com o risco inerente a tal pactuação, responsabilizando-se subsidiariamente pelos direitos dos empregados." — Jane Granzoto Torres da Silva, desembargadora
Os valores individuais das ações costumam ser pequenos para o porte financeiro do clube — a maioria das causas fica entre R$ 30 mil e R$ 100 mil, reflexo dos salários bem menores praticados no universo dos eSports. Mas há exceções: uma ex-coordenadora da divisão entrou com uma ação de R$ 460.257,32, a de maior valor encontrada pela reportagem, e já teve parte dos pedidos atendidos em condenação que soma cerca de R$ 200 mil. Em outro processo, o Corinthians precisou pagar R$ 42,9 mil depois que a CDS não honrou nem R$ 21 mil de um acordo de R$ 58 mil fechado com uma ex-jogadora.
"O valor de cada ação é pequeno para o porte do Corinthians, e o impacto financeiro isolado é limitado. O problema é o efeito acumulado: muitas ações do mesmo tipo, com o clube respondendo por uma dívida que não administrou." — Wagner Dias, advogado que representa atletas de eSports
Em nota, o Corinthians afirma que a CDS assumiu contratualmente toda a gestão, contratação e encargos trabalhistas da operação, obrigando-se a manter o clube isento dessas responsabilidades e a ressarcir eventuais condenações. O clube diz ainda ter cobrado formalmente R$ 439,7 mil da empresa e reforça que as condenações recebidas não afastam o direito de buscar o ressarcimento integral dos prejuízos.
"O Corinthians considera particularmente grave que sua marca e sua credibilidade sejam associadas às consequências de uma operação cuja gestão administrativa, financeira e trabalhista havia sido expressamente confiada a terceiros." — Nota oficial do Sport Club Corinthians Paulista
Os dois problemas do Corinthians correm em paralelo e em velocidades diferentes: na tabela, a resposta vem rápido, rodada a rodada, a partir da visita ao Mirassol pela 33ª rodada. Nos tribunais, o processo é mais lento — ainda há 17 ações sem sentença — mas o efeito acumulado das condenações já pesa no caixa do clube, mesmo com os valores individuais considerados baixos para o porte do Corinthians. Para o Internacional e o Grêmio, que disputam a mesma briga contra o rebaixamento, cada tropeço do rival paulista nas próximas rodadas pode valer tanto quanto um resultado dentro de campo.