Contra o tempo: Grêmio tem sete rodadas para escapar do Z-4 depois de goleada sofrida em casa
A Arena ficou em silêncio antes de ficar brava. Foi nesse vazio que se ouviu, pela primeira vez em muito tempo, o coro que mais assusta um torcedor gremista: "time sem vergonha". O grito nasceu depois que o Grêmio, que chegou a estar na frente do placar duas vezes, viu o Cruzeiro virar o jogo e vencer por 4 a 2, neste domingo (18), pela 31ª rodada do Campeonato Brasileiro. Com o resultado, o Tricolor segue na 18ª posição, com 31 pontos, dentro da zona de rebaixamento, e agora tem apenas sete rodadas para tentar escapar do Z-4.
O que torna a derrota mais dolorosa não é só o placar. É o roteiro. O Grêmio abriu o placar, viu o rival igualar, foi novamente para a frente antes do intervalo e saiu vencendo para o vestiário. Depois, em pouco mais de trinta minutos de segundo tempo, assistiu ao próprio jogo desmoronar.
Como o Tricolor perdeu um jogo que esteve vencendo duas vezes
O primeiro tempo começou truncado, com as duas equipes com dificuldade de construir jogadas. Aos 16 minutos, Amuzu foi derrubado na área e Carlos Vinícius converteu a cobrança de pênalti para abrir o placar. A resposta do Cruzeiro veio rápido: seis minutos depois, Kaio Jorge empatou. A equipe mineira ainda assustou com um chute de Gerson que bateu na trave, mas foi o Grêmio que voltou a ficar na frente aos 40 minutos, com Pavon. O time gaúcho foi para o intervalo vencendo por 2 a 1, numa etapa inicial considerada uma das melhores do time em bastante tempo, com Krovinović pisando na área e a equipe disputando bola a bola com o rival.
A vantagem, porém, durou pouco depois do intervalo. Logo aos dois minutos do segundo tempo, Matheus Pereira encontrou espaço pelo meio e serviu Kaio Jorge, que empatou outra vez. Aos 15 minutos, o atacante voltou a aparecer, ganhou de Gustavo Martins na velocidade e tirou do goleiro Weverton para completar o hat-trick e colocar o Cruzeiro na frente pela primeira vez na partida.
A expulsão que fechou o caixão
Em desvantagem, Renato Portaluppi tentou reagir com a entrada de Braithwaite no lugar de Krovinović, mas a mudança não surtiu efeito. Aos 27 minutos da segunda etapa, Kannemann cometeu falta em Kaio Jorge e recebeu cartão amarelo. Inconformado com a marcação, o zagueiro fez um gesto imitando um roubo em direção ao árbitro e foi expulso. Com um jogador a menos, o Grêmio ainda teve uma chance de empate em contra-ataque puxado por Villasanti e finalizado por Pavon, que mandou para fora. Pouco depois, o Cruzeiro aproveitou uma cobrança de escanteio para ampliar com João Marcelo, fechando o placar em 4 a 2 e deixando o time de Artur Jorge apenas administrar o resultado até o apito final, sob vaias e o coro contra a própria equipe nas últimas jogadas.
Os nomes que marcaram a tarde
Kaio Jorge
Marcou três vezes e decidiu o jogo sozinho, explorando os espaços deixados pela zaga gremista no segundo tempo.
Kannemann
Levou amarelo por falta em Kaio Jorge e foi expulso ao reclamar com o árbitro, deixando o Grêmio com um a menos.
Krovinović
Teve atuação de destaque na etapa inicial, mas saiu de campo no intervalo da reação, substituído por Braithwaite.
A mística que não apareceu
Em coluna publicada na GZH, o jornalista Diogo Olivier classificou a derrota como uma "derrota com cara de rebaixamento" e foi direto ao ponto central do problema gremista: a arrancada esperada na reta final do campeonato simplesmente não decolou. Para o colunista, o retorno de Renato Portaluppi trouxe junto a expectativa de que a experiência e a mística do técnico seriam suficientes para reverter o quadro, mas isso não vem se confirmando dentro de campo.
A análise aponta um padrão que se repetiu outras vezes na temporada: o Grêmio apresenta um primeiro tempo competitivo e depois perde força física na segunda etapa. Contra o Cruzeiro, o desgaste apareceu de forma explícita — Villasanti passou a jogar em ritmo reduzido por cansaço e os zagueiros, Gustavo Martins e Kannemann, ficaram expostos à movimentação constante de Matheus Pereira e Kaio Jorge, sem que os volantes conseguissem conter o rival em nenhum momento da partida.
A matemática da fuga: o que falta para o Grêmio
Com a derrota, o Grêmio permanece na 18ª posição, com 31 pontos, e vê a distância para fora do Z-4 aumentar. Caso o Corinthians vença o Vitória nesta segunda-feira (19), o Tricolor pode passar a ter quatro pontos de desvantagem em relação ao primeiro time fora da zona de rebaixamento. Restam sete rodadas para o fim do Campeonato Brasileiro, e o Grêmio terá, nesse recorte final, confrontos diretos com rivais que também lutam contra o descenso e equipes que disputam posições mais altas da tabela.
Os dois próximos compromissos já são conhecidos e, segundo a análise da coluna da GZH, podem ser decisivos para o rumo da temporada: o Grêmio visita o Coritiba, fora de casa, e depois recebe o Athletico-PR na Arena. Se os resultados paralelos ajudarem, essas duas rodadas seriam suficientes, na teoria, para o time sair do Z-4 — mas a conta depende tanto do desempenho gremista quanto do que acontecer com os concorrentes diretos na tabela.
O Grêmio volta a campo na segunda-feira (26), diante do Coritiba, na capital paranaense, em um jogo que já nasce com status de decisão. Depois da goleada sofrida em casa e das vaias que fecharam a tarde deste domingo na Arena, o Tricolor entra nas sete rodadas finais do Brasileirão sabendo que o tempo para corrigir o que não funcionou — fisicamente e taticamente — está cada vez mais curto.