CBF libera Seedorf para seguir no comando do Corinthians enquanto recurso contra a Conmebol é julgado
Enquanto o relógio corre contra o Corinthians na tabela do Brasileirão, um alívio burocrático chegou nesta terça-feira para aliviar a pressão sobre o banco de reservas. A CBF confirmou que Clarence Seedorf está apto a continuar comandando a equipe mesmo com o impasse sobre a validação da sua licença de treinador, ainda não resolvido pela Conmebol. A decisão garante que o holandês poderá estar à beira do campo no clássico contra o São Paulo, nesta quarta-feira, às 21h30, na Vila Belmiro, pela 34ª rodada do Campeonato Brasileiro.
O caso começou quando a Conmebol negou a homologação da licença UEFA Pro de Seedorf — a mais alta credencial de treinador da Europa — para validade na América do Sul. Segundo a entidade sul-americana, o holandês não completa os 36 meses de experiência exigidos como técnico, tendo acumulado 26 meses à frente de três clubes e da seleção de Camarões.
Corinthians recorre e aposta em experiência fora de campo
O Corinthians não aceitou a negativa e foi buscar reforço documental. O clube encaminhou à CBF registros enviados pela Federação Holandesa de Futebol que comprovariam a experiência necessária de Seedorf, somando o trabalho dele como membro do Conselho de Supervisão da federação e também como professor em cursos de formação de treinadores da Uefa durante três anos.
Para a diretoria, esse histórico deveria contar na hora de medir a trajetória do holandês como técnico, completando o tempo que falta para a validação plena da licença.
Até lá, Seedorf segue amparado pela licença provisória que já havia obtido para constar no Boletim Informativo Diário (BID), documento que regulariza a presença de treinadores e atletas nas partidas oficiais.
A nota oficial da CBF
"Seedorf hoje atua como uma licença provisória. O Corinthians encaminhou documentação enviada pela Federação Holandesa comprovando a experiência requerida, e pedindo à Conmebol reconsideração sobre a decisão da licença do treinador. Esta documentação será enviada para validação junto à Uefa, que retornará para a Conmebol. Enquanto a entidade Sul-Americana não se manifestar, Seedorf continua apto a atuar com a licença provisória."
Clima de crise e portas abertas no CT Joaquim Grava
A novidade sobre a licença chega em meio a um momento delicado no Corinthians, que ocupa a 17ª colocação do Brasileirão e briga diretamente contra o rebaixamento. O time chegou a passar dez jogos sem vencer, e episódios de tensão no vestiário — como a discussão entre Matheuzinho e Gustavo Henrique e o desconforto com a presença do presidente Osmar Stabile nos vestiários — vieram à tona nas últimas semanas.
Como resposta, o departamento de comunicação do clube optou por uma estratégia pouco comum no futebol brasileiro atual: abrir o dia a dia à imprensa, com entrevistas coletivas quase diárias de jogadores, do gerente Julio Cesar e do próprio Seedorf. A ideia é reduzir vazamentos e dar ao elenco a chance de se explicar diretamente, em vez de depender de notícias vazadas dos bastidores.
"Infelizmente, com todo o respeito à mídia, tem situações que acabam interpretando de uma forma que prejudica, em uma matéria ou outra. [...] Mostra o trabalho e a honestidade do que a gente vem fazendo no dia a dia. A gente não está aqui de brincadeira" — Matheus Bidu, lateral-esquerdo do Corinthians.
Seedorf, segundo o próprio clube, é entusiasta dessa transparência e defende que a imprensa acompanhe parte dos treinamentos para entender melhor o trabalho da comissão técnica.
"Foi uma escolha interna. Foi mais para ajudar vocês a fazer um trabalho um pouco melhor. Muitas vezes, vocês falam coisas que não têm a mínima ideia. Se vocês não veem, não sabem o que falar. Abri as portas por conta disso, estamos nos entregando 100%" — Clarence Seedorf, técnico do Corinthians.
Nem tudo correu sem atrito nesse processo de maior exposição. Em uma das coletivas, um repórter insistiu em pergunta sobre o comportamento do meio-campista Rodrigo Garro no vestiário, tema que Seedorf tentou evitar. O argentino acabou respondendo diretamente.
"Não vejo notícias. Fiquei sabendo porque cheguei no vestiário e os caras estavam brincando com isso. [...] É difícil falar se sou gente boa ou não. Eu acho que tem alguém dentro que está querendo o mal para mim ou minha família. O tempo vai falar a verdade sobre a minha personalidade" — Rodrigo Garro, meio-campista do Corinthians.
Mais uma saída no departamento feminino
O momento turbulento no clube não se limita ao time masculino. Também nesta terça-feira, o Corinthians anunciou o desligamento da técnica Emily Lima do comando da equipe feminina, junto com a auxiliar Jaqueline Ucella e a preparadora física Liliane Cruz. A saída ocorre dois dias depois da derrota nos pênaltis para o Cruzeiro na final da Libertadores Feminina, depois de o time chegar a abrir 3 a 0 no placar e sofrer a virada para 4 a 4.
Foi o segundo vice-campeonato de Emily Lima à frente das Brabas em pouco mais de um mês — antes, no início de outubro, o Corinthians já havia perdido o título brasileiro para o São Paulo. A própria treinadora, ainda em Quito, havia sinalizado que poderia deixar o cargo.
"A gente chega em duas finais, e eu tenho que fazer minha autoavaliação. Eu não acho que encaixo no Corinthians. [...] Só que estando no Corinthians você precisa ser campeão. Eu não quero ficar com essa marca" — Emily Lima, ex-técnica do Corinthians feminino.
Com a pendência da licença de Seedorf empurrada para a próxima Data Fifa, o Corinthians volta o foco para o gramado: o clássico contra o São Paulo, quarta-feira, na Vila Belmiro, é tratado internamente como oportunidade de deixar a zona de rebaixamento do Brasileirão. No feminino, o clube já projeta reconstrução: as Brabas ainda disputam o Campeonato Paulista, com início da fase de mata-mata previsto para a segunda quinzena de novembro, enfrentando o Bragantino na fase Play In.