Sabatina de Roberto Melo encerra série de entrevistas do Grupo RBS com candidatos à presidência do Inter
A sexta-feira terminou como começou a semana: com um candidato à frente de um microfone, tentando convencer o Conselho Deliberativo de que tem o caminho para tirar o Inter do buraco financeiro em que o clube se meteu. Roberto Melo foi o último dos três nomes a passar pela sabatina promovida pelo Grupo RBS, encerrando nesta sexta-feira (23) um ciclo que começou na quarta com José Amarante e seguiu na quinta com Leonardo Aquino. A conversa, transmitida pelo canal Gaúcha Esportes no YouTube e conduzida pelo jornalista Eduardo Gabardo com participação de Maurício Saraiva, Leonardo Oliveira, Nani Chemello, Tomás Hammes e Rafael Diverio, durou uma hora e meia e passou por praticamente todos os nós que travam o Inter hoje: dívida, SAF, departamento de futebol e o futuro do técnico Eduardo Baptista.
Integrante do movimento O Inter Para o Futuro, Melo chegou à entrevista sabendo que o tema mais sensível seria o financeiro. Com uma dívida estimada em torno de um bilhão de reais e uma sequência de transfer bans que já atrapalhou o planejamento do clube, o candidato defendeu que não existe solução mágica — e que o problema começou a se agravar justamente pela demora em tomar decisões difíceis.
Não existe fórmula mágica; o que o clube precisa é fazer o enfrentamento imediato do problema e tomar decisões difíceis. Se o Internacional tivesse tomado essas atitudes no início do ano, quando a consultoria contratada apontou o caminho, não estaria na situação atual.
Segundo Melo, o plano de transição passaria por três frentes simultâneas: organizar o caixa e priorizar pagamentos urgentes, como folha de funcionários e do elenco; escolher o modelo de reestruturação de dívida mais adequado após uma análise real dos números do clube; e romper com o que chamou de "modelo de gestão esgotado" de gastar mais do que se arrecada.
Recuperação judicial ainda em aberto
Questionado sobre recuperação judicial, o candidato evitou cravar uma posição antes de assumir o clube. Ele citou a regulação da ANRESF — a entidade que regula o sistema de pagamentos no futebol brasileiro — e o plano coletivo apresentado pelo Inter, que gerou um evento de insolvência e impôs restrições ao clube.
Não sabemos exatamente quais dívidas estão vencendo ou quais são concursais. [...] Precisamos analisar bilateralmente se o melhor caminho é a renegociação extrajudicial ou a recuperação judicial, avaliando as vantagens e as graves consequências financeiras e esportivas de cada escolha. Não vamos empurrar o problema com a barriga; tomaremos decisões duras rapidamente.
Melo citou ainda um dado de um relatório da consultoria Alvarez & Marsal: mesmo que o Inter opte pela recuperação judicial, o clube precisaria captar algo em torno de 100 milhões de reais no primeiro ano e 200 milhões no segundo apenas para cumprir o plano e manter a operação funcionando.
Sonda: ajuda para pagar dívida, não para contratar
Um dos pontos mais aguardados da sabatina era a relação do candidato com Delcir Sonda, histórico investidor do clube em contratações como D'Alessandro, Kléber e Aránguiz. Melo confirmou que esteve em São Paulo na semana anterior para reuniões presenciais e virtuais com o empresário e seu vice-presidente, e que o empresário tem interesse real em colaborar com uma eventual gestão sua — mas deixou claro qual seria o destino de qualquer novo aporte.
O Sonda vai participar, não precisa de cargo, mas ele vai participar. Ele quer ajudar. Neste momento, a ajuda que ele vai dar e de qualquer outro colorado, de qualquer outro investidor, vai ser para resolver o nosso principal problema que é o endividamento.
O candidato foi direto ao afirmar que não haverá novas dívidas para contratação de jogadores e que a prioridade será manter os salários em dia, já que atrasos recorrentes geram instabilidade semanal dentro do grupo, mesmo em um elenco que, segundo ele, vem demonstrando comprometimento dentro de campo.
A dívida de R$ 60 milhões e o "reconhecimento" que não saiu do papel
Melo também comentou a ação judicial recente de Sonda contra o Inter, que cobra um valor próximo de R$ 60 milhões referente a empréstimos antigos e à contratação de D'Alessandro. Segundo o candidato, o empresário nunca chegou a cobrar formalmente o clube por esses valores — mas pediu, em reunião com a presença do próprio Sonda, de D'Alessandro, de Alessandro Barcellos e de advogados, que a dívida fosse ao menos reconhecida contabilmente, para não prescrever.
"Eu não vou cobrar, eu nunca cobrei, mas eu preciso até para o meu compliance. Eu preciso que isso esteja registrado na minha contabilidade. Isso não pode desaparecer. Eu tenho prestação de contas, tenho o meu sócio." Era isso que ele queria. E isso foi combinado, vai ser reconhecido. Saiu dessa reunião que seria reconhecido. Quando chegou na hora de se assinar o reconhecimento, aí eu não sei o motivo, o Inter não fez esse reconhecimento.
O candidato evitou prometer um eventual perdão da dívida por parte de Sonda, mas disse acreditar em uma solução que beneficie as duas partes.
Eu não estou aqui para prometer que ele vai perdoar essa dívida [...], não tenho esse poder de fazer, mas eu acho que isso no seu tempo a gente vai conseguir resolver de uma maneira que vai ser boa para o Sonda e para o Inter.
SAF: "não é vilã, mas também não é solução mágica"
Sobre a possibilidade de o Inter se transformar em Sociedade Anônima do Futebol, Melo foi cauteloso: disse que, se eleito, levaria o tema ao Conselho Deliberativo para debate aberto, sem empurrar uma posição pronta. Mas deixou clara sua visão sobre o modelo.
Eu acho que SAF não é uma solução mágica, ela também não é uma vilã e não é sinônimo de boa gestão, assim como o clube associação também não é. A gente tem modelos de SAFs aí que são bons e muitos que são ruins.
Para o candidato, existe uma tendência no futebol brasileiro de que a maioria dos clubes acabe migrando para o modelo de SAF — mas, no caso do Inter, essa conversa só faria sentido depois de o clube se reorganizar financeiramente, de modo a poder escolher o investidor certo em vez de aceitar a primeira oferta disponível.
O Inter primeiro precisa se reestruturar para que quando aparecer interessado, seja realmente oferta decente. Uma proposta de investidor sério, não de um especulador que vai vir aqui dizer que vai investir e daqui a pouco vai embora e deixa o clube numa situação pior do que está.
Departamento de futebol e o papel do CEO
Melo detalhou ainda como pretende estruturar o departamento de futebol caso seja eleito. A ideia é ter um CEO com papel central de integração entre o departamento de futebol e o orçamento do clube, com poder de veto em contratações que ultrapassem o teto financeiro definido. Abaixo dele, haveria diretor executivo, coordenador técnico, área de scout e um setor de performance e saúde — este último com responsabilidade formal de assinar laudos de aptidão antes da chegada de qualquer reforço, para evitar a contratação de atletas com histórico recorrente de lesões.
O candidato também citou a ideia de aproximar fisicamente as categorias de base do time profissional, com a construção de dois campos e estrutura de alojamento na área do estacionamento do Beira-Rio, próximo às estátuas de Fernandão e Abel, para abrigar os times Sub-17 e Sub-20.
Nossa diretriz não é apenas gastar menos, mas sim gastar melhor o recurso disponível. Pretendemos implementar um método próprio e uma identidade clara de futebol: um time competitivo, intenso, organizado e que dê espaço e protagonismo aos atletas formados em casa.
Baptista e Abel Braga: decisão só depois do dia 2 de dezembro
Como os outros dois candidatos sabatinados nesta semana, Melo evitou prometer qualquer mudança no comando técnico antes do fim do Brasileirão, por entender que especulações neste momento podem prejudicar o ambiente do time na luta contra o rebaixamento.
Fazer especulações sobre a permanência de profissionais agora em nada contribui para o ambiente do clube. [...] Anunciar desligamentos neste momento seria irresponsável e desmotivaria os profissionais que estão trabalhando.
Ainda assim, deu sinais de que gostaria de manter Eduardo Baptista no cargo em caso de permanência na Série A, e reservou um tratamento especial para Abel Braga, por quem disse ter relação de proximidade.
O Abel é diferente. A gente tem uma relação diferente, é um ídolo do clube, na outra eleição a intenção era de ele trabalhar, se a gente tivesse ganho a eleição.
Ele aceitou um grande desafio. Se o Inter permanecer na Série A, ele se valoriza, tem de ser reconhecido. Agora, é uma decisão já tomada? Não, acho que a gente tem que esperar o momento certo, tem que conversar, tem que apresentar o nosso projeto para ele ou para qualquer outro treinador.
Melo também defendeu que a eleição deveria ter sido antecipada, argumentando que o intervalo entre o fim do Brasileirão, em 2 de dezembro, e uma eventual votação no pátio, em 12 de dezembro, representa prejuízo real no planejamento esportivo — período em que jogadores, técnicos e empresários já movimentam o mercado sem esperar o Inter definir seu novo mandatário.
Com a sabatina de Melo, o Grupo RBS encerra a rodada de entrevistas com os três candidatos à presidência do Inter — José Amarante, ouvido na quarta-feira, e Leonardo Aquino, na quinta, completam o ciclo. Agora, a disputa segue para a fase decisiva: o Conselho Deliberativo vota em 9 de novembro, e o clube só saberá o nome do próximo presidente a tempo de iniciar o planejamento para 2027 depois da última rodada do Brasileirão, em 2 de dezembro.