Renato tem reunião tensa com diretoria do Grêmio após goleada do Cruzeiro e cobra contratações nos bastidores
O vestiário da Arena ainda guardava o silêncio pesado das derrotas que doem quando Renato Portaluppi sentou com a diretoria do Grêmio, na tarde deste domingo (18). Lá dentro, antes de qualquer microfone, o técnico colocou na mesa o desconforto de ver o time afundar cada vez mais na zona de rebaixamento — e, segundo relatos dos bastidores, chegou a mencionar a possibilidade de deixar o cargo. O motivo foi a derrota de virada por 4 a 2 para o Cruzeiro, resultado que empurra o Tricolor para o sétimo jogo seguido sem vencer no Brasileirão.
A partida, válida pela 31ª rodada da competição, começou com o Grêmio competindo de igual para igual. "Estávamos bem no primeiro tempo", resumiria Renato horas depois, já na entrevista coletiva. Mas o equilíbrio durou pouco depois do intervalo: o Cruzeiro buscou a virada e, logo aos dois minutos da etapa final, ampliou a vantagem, um golpe que abateu o time gaúcho.
A situação piorou na sequência. Kannemann foi expulso por fazer um gesto de protesto — simulando um roubo — contra a arbitragem, deixando o Grêmio com um jogador a menos para tentar reagir. Sem o zagueiro em campo, a equipe cedeu ainda mais espaço, e Kaio Jorge fechou a tarde com um hat-trick, enquanto João Marcelo também balançou as redes para os mineiros. Do lado tricolor, Carlos Vinícius, de pênalti, e Pavón descontaram, mas não evitaram o quarto revés seguido em casa.
Gustavo Martins vira alvo da torcida
Titular na vaga de Wallace, que passou por uma cirurgia no nariz e desfalcou a equipe, Gustavo Martins teve a tarde para esquecer. O zagueiro falhou nos três gols marcados por Kaio Jorge e foi vaiado pelos torcedores presentes na Arena, principalmente depois do terceiro tento do atacante do Cruzeiro. Nas redes sociais, a repercussão sobre o desempenho do defensor também foi dura.
Danilo Barbosa sai lesionado
Outro ponto que incomodou Renato foi a lesão de Danilo Barbosa. O volante, que fazia seu terceiro jogo seguido como titular sob o comando do treinador, sentiu a virilha ainda no primeiro tempo e precisou ser substituído. Para o técnico, o desgaste é consequência direta da forma como o jogador foi recolocado em campo pouco depois de retornar de um período parado.
A reunião no vestiário e o desabafo na coletiva
Depois da conversa reservada com os dirigentes, Renato chegou ao auditório da Arena com o semblante cabisbaixo. Mesmo assim, reafirmou que o Grêmio ainda tem chances de escapar do rebaixamento, embora admita que a missão fica mais difícil a cada rodada.
Ainda temos chance de escapar. Mas a cada rodada fica mais difícil. Estávamos bem no primeiro tempo. Infelizmente, tomamos o segundo gol com dois minutos. Tivemos o abatimento. Mesmo assim, continuamos lutando e brigando. Infelizmente, tomamos o terceiro gol e tivemos o Kannemann expulso.
Questionado sobre o que precisa ser feito nas sete rodadas finais do Brasileirão, o treinador foi direto: vencer. E apontou o fator psicológico como um dos principais obstáculos do elenco neste momento.
É vencer jogos. A cada rodada que passa fica mais difícil. O problema é a parte psicológica dos jogadores. Muitas vezes, pega os adversários, e eles estão tranquilos.
Críticas às contratações: "Um jogador chegou nove quilos acima do peso"
O momento mais forte da entrevista, no entanto, veio quando Renato foi perguntado sobre a parcela de culpa que terá em um eventual rebaixamento. O treinador assumiu que será responsabilizado caso a queda se confirme, mas insistiu em apontar falhas no planejamento do elenco feito antes da sua quinta passagem pelo cargo.
Um jogador veio para o Grêmio com nove quilos acima do peso. É possível isso? Não analisaram o jogador, que hoje está no peso e é bom jogador, diga-se de passagem. Mas aí eu te pergunto: ninguém olha quem vai contratar? Não vê o perfil do jogador?
No momento que você contrata um jogador, você tem que puxar a ficha dele.
Renato não revelou o nome do atleta, mas usou o próprio Danilo Barbosa como outro exemplo de contratação mal planejada, segundo ele.
Trouxeram o Danilo (Barbosa). Ele estava parado há três meses. Ele treinou dez dias e botaram ele para jogar. Você acha normal isso? A conta chega. Chegou para ele hoje.
Ao ser questionado sobre uma possível queda de rendimento da equipe desde que assumiu o comando, o treinador rebateu com outra pergunta, lembrando em que condições encontrou o clube.
Você sabe do jeito que eu encontrei o clube? Você sabe do jeito que deixaram o clube? Você sabe o quanto eu tive que corrigir nesses dias?
O Grêmio melhorou em todos os sentidos. Agora, varinha mágica ninguém tem.
Na sequência, Renato voltou a atacar o critério usado pela diretoria para trazer reforços ao longo do ano, reclamando de nomes pouco conhecidos pela torcida que acabaram chegando ao clube.
Você não pode escutar o nome do jogador e buscar, independente da qualidade técnica dele. Aí vem, outro "lero lero" no ouvido e "traz". Começaram a trazer. Estão aí muitos jogadores que ninguém tinha ouvido falar. Estão aí. É assim que se faz um grupo?
Restam sete rodadas até o fim do Brasileirão, e cada uma delas carrega um peso cada vez maior para o Grêmio. Se o Corinthians vencer o Vitória nesta segunda-feira (19), a distância do Tricolor para o primeiro time fora do Z-4 salta de um para quatro pontos, tornando a fuga do rebaixamento ainda mais urgente. Enquanto isso, a tensão nos bastidores — simbolizada pela conversa reservada de Renato com a diretoria — mostra que a crise gremista já não se limita ao campo.