Renato amplia crise com a diretoria do Grêmio e cobra departamento de futebol após Gre-Nal
O apito final do Gre-Nal 455 marcou só o começo do barulho. Dentro de campo, o 1 a 1 deixou o Grêmio exatamente onde estava: preso na zona de rebaixamento, sem vencer há seis rodadas. Fora dele, a entrevista coletiva de Renato Portaluppi virou o verdadeiro resultado da noite de domingo — e, 24 horas depois, ainda é o assunto que mais pesa no ambiente tricolor.
O Grêmio terminou o clássico empatado com o Inter na Arena, graças a um gol do zagueiro Wallace no segundo tempo, depois de sair perdendo. Com 31 pontos, a equipe ocupa a 18ª colocação do Campeonato Brasileiro, dentro do grupo que ameaça o rebaixamento à Série B. A sequência sem vitórias já soma seis jogos.
O lance do pênalti que não veio
Ainda no primeiro tempo, aos 20 minutos, o lateral Diego Caito caiu dentro da área após disputa com Bernabei. Para Renato, a marcação deveria ter sido pênalti — e o fato de o VAR nem chamar o árbitro Rodrigo José Pereira de Lima para revisão o irritou ainda mais.
"Não é fácil apitar um Gre-Nal. Ele foi muito bem, porém o VAR mais uma vez apitou o jogo. Não estou puxando a sardinha para o lado do Grêmio. Hoje, o Bernabei dá o braço e derruba o Diego. Até um leigo sabe que foi pênalti. Se for na minha área, é pênalti. Não é possível que em um lance desses ele não chame o árbitro para analisar. Ninguém vai me dizer que não foi pênalti."
A visão, porém, não foi unânime. Para o analista de arbitragem da Rádio Gaúcha, Diori Vasconcelos, o árbitro acertou ao não marcar a penalidade.
"O jogador do Grêmio pega a bola e disputa espaço com Bernabei. O lance é normal."
A cobrança que foi além do juiz
Mas o pênalti perdido foi só o aquecimento. O principal alvo de Renato depois do clássico foi o próprio departamento de futebol do Grêmio — e a forma como o elenco foi montado para esta temporada, com destaque para a quantidade de estrangeiros contratados.
"Você vai contratar um jogador, independente da posição, você tem que pegar a ficha desse jogador. Não pode simplesmente trazer aquele estrangeiro e botar ele aqui no grupo. Aí tem que chegar um treinador aqui com a varinha mágica. Não é assim que se trabalha. Aí trazem e não era o jogador certo. Então tem que cobrar de quem trouxe. Estoura em quem está na beira do campo."
O técnico foi direto ao ponto sobre quem deveria responder pelas escolhas de mercado, pedindo que o foco das críticas deixe de recair só sobre o trabalho na beira do campo.
"Vai cobrar de quem trouxe. Não dá para ensinar o beabá toda hora. Busca o cara certo. O futebol é simples. Parem de só criticar o treinador. Sempre ele. Cada um tem sua parcela de culpa e onde errou. Se vou ao mercado para fazer o churrasco, sei o que quero. Até o jogador se adaptar, fica difícil."
Renato também soltou a frase que resumiu o tom da entrevista, numa espécie de aviso para dentro do clube.
"É bem simples o futebol, porque eu costumo falar, a conta chega, ela pode demorar um pouco, mas chega. A conta vai chegar se fizer a coisa errada."
Gre-Nal 455 — 1 a 1
Grêmio buscou o empate com gol de Wallace no 2º tempo, depois de sair perdendo.
18º lugar, 31 pontos
Tricolor está sem vencer há seis rodadas e segue na zona de rebaixamento.
Odorico Roman responde
Ainda no domingo, o presidente do Grêmio, Odorico Roman, fez questão de comentar as declarações do treinador, deixando claro que parte do elenco criticado não foi montada pela atual gestão.
"Esse grupo atual do Grêmio, os estrangeiros que vieram, tem alguns que vieram até antes da gestão que nós sucedemos. Então não é uma construção da nossa gestão. A manifestação do Renato é a opinião dele sobre a formação do grupo, as dificuldades que ele sente. Mas nós estamos trabalhando, o grupo é esse e vamos em frente."
Como ficou o ambiente, um dia depois
Apesar do tom duro da entrevista, a avaliação dentro do clube nesta segunda-feira é de que a fala de Renato não chega a ser uma surpresa — e tampouco deve virar um problema grave no curto prazo. Segundo apuração da coluna de Eduardo Gabardo (GZH), dirigentes já esperavam esse tipo de manifestação em algum momento, por conhecerem bem o perfil do técnico e sua visão sobre a montagem do elenco neste ano.
Os jogadores, por sua vez, reconhecem o peso histórico de Renato dentro do clube e sua capacidade de administrar o vestiário mesmo em momentos de tensão. A impressão geral é de que a entrevista não deve gerar ruído interno até o fim da temporada — mas o cenário pode mudar em 2027. Caso Renato continue no comando, é provável que ele exija influência direta sobre decisões de estrutura e sobre quem permanece ou sai do elenco.
Wallace vira baixa confirmada
Um efeito direto do Gre-Nal já está definido para a próxima rodada: o zagueiro Wallace, autor do gol de empate, recebeu o terceiro cartão amarelo e está suspenso contra o Cruzeiro. A situação tem um agravante — o jogador está com fratura no nariz e passa por cirurgia nesta segunda-feira.
"Conversei com o Wallace. Falamos na sexta. Ele precisa operar. Marcaram a cirurgia para segunda pela manhã. Por estar pendurado, tomou o amarelo. Até poderia jogar. Pedi para tomar o amarelo para ter mais tempo. Ele ficará à disposição em breve. Temos bons zagueiros. Ele insistiu e pediu muito. Teve atitude. É a atitude de um profissional que quer jogar."
Na leitura de Renato, o problema do time neste momento não é só de contratação ou de peças no elenco — passa também pela cabeça do grupo. Contra o Remo e agora contra o Inter, erros em momentos decisivos custaram pontos importantes.
"Um pouco de tranquilidade, principalmente nas finalizações. No futebol, tudo é confiança. Via os jogos. O Grêmio criava pouco, finalizava pouco e corria pouco. Olha a nossa tabela. Os dois pontos que deixamos de ganhar é contra o Remo. O time está brigando. Eu não faço ninguém jogar mais. Futebol não se compra. Só se aperfeiçoa. Falei que iriam se entregar e isso está acontecendo."