Renato expõe crise com estrangeiros e falta de gol no Grêmio após o Gre-Nal
Três jogos. Foi esse o tempo que Renato Portaluppi precisou para destravar o que incomodava desde a volta ao Grêmio. Depois do Gre-Nal, numa coletiva explosiva, o técnico abriu o verbo sobre duas dores que andam juntas: um vestiário cheio de estrangeiros com quem ainda não conseguiu se entender por completo e um ataque que simplesmente não faz gol. Antes, em Belém, já havia deixado no ar que "é muita coisa para corrigir". Depois do clássico, não deixou mais dúvida sobre quem e o quê estavam na mira.
A fala que expôs a divergência interna
Renato citou o caso do atacante Amuzu, que chegou da Bélgica, para ilustrar a dificuldade de comunicação dentro do grupo. Segundo o técnico, a quantidade de nacionalidades diferentes convivendo no mesmo vestiário virou um obstáculo real para o trabalho diário.
"Chega num canto tem três, quatro falando uma língua. Chega em outro, tem outros três, quatro falando outra língua. Até os caras se entenderem...", disse Renato. "Ele está aqui há quanto tempo? Um ano e meio, um ano? Ele não fala o português, e aí? Tem que estar sempre o intérprete do lado dele. Você acha que é fácil?"
A fala reabriu uma ferida que já existia antes do retorno de Renato ao clube. O atual vice de futebol, Rafael Lima, foi crítico público do treinador em 2024, com publicações em redes sociais. Com o executivo Paulo Pelaipe não havia relação anterior, mas já se sabia que os dois não pensam da mesma forma sobre a formação do elenco. O único membro da cúpula que já havia trabalhado com Renato é o presidente Odorico Roman, o que ajuda a explicar por que foi ele quem contemporizou a situação.
"Esse grupo atual do Grêmio, os estrangeiros que vieram, têm alguns que vieram até antes da gestão que nós sucedemos. Então não é uma construção da nossa gestão. A manifestação do Renato é a opinião dele sobre a formação do grupo, as dificuldades que ele sente. Mas nós estamos trabalhando, o grupo é esse e vamos em frente", disse o presidente Odorico Roman.
Para o comentarista Leonardo Bertozzi, da ESPN, o episódio reflete um desafio novo para o futebol brasileiro, que não tem tradição de lidar com elencos tão plurais.
"Vejo como perigosa a questão cultural. Não há aqui vestiários multinacionais. Isso é algo novo e um desafio para clubes, treinadores e jogadores. É uma novidade para todo mundo o que é muito comum na Europa, com vestiários cheios de nacionalidades e culturas diferentes", opinou Bertozzi.
O ataque que Renato não reconhece
Se a questão cultural é um problema novo, a falta de gol é um desconforto que incomoda ainda mais o técnico. Em nenhuma de suas quatro passagens anteriores pelo Grêmio, Renato havia sentido tanta dificuldade para colocar a bola na rede adversária. O time soma apenas 31 gols no Brasileirão, o terceiro pior ataque da competição, atrás somente de Chapecoense e Corinthians.
Um terço dessa produção — dez gols — saiu dos pés do centroavante Carlos Vinícius. O segundo artilheiro é o zagueiro Gustavo Martins, com três, e na sequência aparecem, com dois gols cada, Gabriel Mec (que não está mais no clube), o reserva Tetê, o zagueiro recém-chegado Wallace e Pavón. Atacantes como Enamorado e Braithwaite ainda não balançaram as redes no campeonato, assim como Krovinovic.
Artilheiros do Grêmio no Brasileirão 2026
10 gols Centroavante
3 gols Zagueiro
2 gols cada Ataque/Meio
1 gol cada 11 marcadores
O recorte histórico ajuda a entender a dimensão do incômodo de Renato. Em 2010, só no Brasileirão, Jonas fez 23 gols e André Lima, sucessor de Borges, marcou 11. Em 2013, o trio Barcos, Vargas e Kléber somou 20 gols. Na fase de ouro entre 2016 e 2021, contando apenas os jogadores formados em casa, Pedro Rocha, Cebolinha, Pepê e Luan passaram juntos dos 200 gols. Em 2023, Suárez fez 17 dos seus 29 gols da temporada só no Brasileirão, com Bitello (4), Cristaldo (8) e até o lateral Galdino (6) dividindo a conta. Em 2024, Braithwaite marcou 8, Cristaldo 6 e Monsalve 3. Mesmo números considerados baixos para o padrão do clube, eram bem superiores aos de hoje.
Na Arena, no domingo, Renato cobrou publicamente os jogadores de frente, numa fala que soou como recado direto ao vestiário.
"Vocês são atacantes e têm que fazer gols. Só faz gol quem entra na área e se junta ao atacante. (...) Se não gosta de pisar na área e não gosta de fazer gol não pode ser atacante", desabafou o técnico.
O treinador foi além e citou, sem poupar nomes, o comportamento de um dos reforços mais recentes.
"Eu falei para ele que ele tem que pisar na área. Contrataram ele como meia e então ele tem que pisar na área. Não sou eu que tenho que falar para ele, olha você joga muito longe da área", revelou Renato.
A reclamação também passa pela forma como o time se posiciona em campo. Para o técnico, o excesso de jogadores abertos pelas pontas isola o centroavante.
"Os atacantes tinham o costume de jogar muito aberto e eu não gosto. Justamente porque o Vinícius fica sozinho na área", diagnosticou Renato. "No futebol, tudo é confiança."
Com o Grêmio na zona de rebaixamento do Brasileirão, Renato agora precisa administrar as consequências de um discurso forte, que respingou tanto no departamento de futebol quanto no próprio vestiário. Resolver a comunicação com os estrangeiros e destravar o ataque mais seco de suas passagens pelo clube são as duas urgências que o técnico colocou em público — e que vão definir se o time escapa do Z-4 nas próximas rodadas.