Real Madrid pede desculpas oficiais à China após Mbappé brincar com meme de Mao Tsé-Tung
Tem piadas que cabem numa entrevista de poucos minutos e explodem meses depois, do outro lado do mundo, com um poder de destruição que ninguém via chegar. Foi o que aconteceu com Kylian Mbappé. Nesta quarta-feira, o Real Madrid publicou um comunicado oficial pedindo desculpas ao povo chinês por causa de uma brincadeira do atacante francês envolvendo um meme com o rosto dele sobreposto ao de Mao Tsé-Tung, fundador da República Popular da China. O caso, que começou como piada em um programa de YouTube, virou um problema diplomático que já custou patrocínios ao jogador e agora preocupa o próprio clube e a LaLiga pelo tamanho do prejuízo financeiro em jogo.
Uma entrevista de março que só explodiu agora
A origem de tudo está numa entrevista dada em março ao programa "The Bridge", do canal ESN no YouTube, na qual Mbappé foi entrevistado pelo companheiro de clube e de seleção francesa Aurélien Tchouaméni. Em uma brincadeira de perguntas rápidas, o atacante foi questionado sobre qual era seu meme favorito envolvendo ele mesmo. Rindo, Mbappé respondeu que gostava de uma montagem que colocava seu rosto no corpo do que ele chamou de "um ditador chinês". O homem da foto era Mao Tsé-Tung, que governou a China entre 1949 e 1976.
A entrevista passou meses praticamente ignorada, até ser resgatada e compartilhada em larga escala nas redes sociais chinesas nesta semana. A plataforma de notícias Dongqiudi, influente no país, classificou a fala de Mbappé como "inapropriada" e "ofensiva à China", acendendo o estopim de uma repercussão que cresceu rápido demais para o craque francês controlar.
Governo chinês entra no jogo e patrocínios caem
A reação não ficou restrita aos usuários da rede social chinesa Weibo. O Ministério das Relações Exteriores da China também se manifestou publicamente sobre o caso.
"Quaisquer palavras ou ações que ofendam os sentimentos do povo chinês naturalmente encontram ampla condenação em toda a sociedade chinesa."
— Guo Jiakun, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China
O boicote comercial veio na sequência. Mbappé perdeu pelo menos três contratos de patrocínio com empresas chinesas de peso:
Dongpeng
Bebida energética
Contrato rompidoMengniu
Maior produtora de laticínios do país
Contrato rompidoMilkground
Empresa de laticínios
Contrato rompidoAlém disso, vídeos e conteúdos com a imagem de Mbappé foram retirados de plataformas chinesas, e o jogador teve sua conta removida da rede social RedNote — onde tinha mais de um milhão de seguidores — sob a justificativa de "violação das diretrizes da comunidade".
Mbappé e Tebas tentam estancar o incêndio
Diante do tamanho da crise, Mbappé deu uma entrevista na terça-feira pedindo desculpas publicamente e reiterando respeito ao povo chinês, na tentativa de evitar que o problema continuasse crescendo. No mesmo dia, o presidente da LaLiga, Javier Tebas, também se manifestou, preocupado com o impacto da polêmica sobre todo o futebol espanhol — e não só sobre o Real Madrid.
"Não podemos permitir que um ato isolado manche essa relação ou prejudique os mais de vinte clubes de nossas ligas profissionais e os milhões de torcedores chineses."
— Javier Tebas, presidente da LaLiga
A resposta chinesa ao futebol espanhol, porém, já estava em andamento. A emissora estatal CCTV anunciou que vai suspender a transmissão de jogos da LaLiga envolvendo o Real Madrid, e o próprio canal chegou a repercutir o caso como assunto de Estado, segundo o jornal "Global Times".
Real Madrid assume o pedido de desculpas
Até a terça-feira, o Real Madrid tinha se mantido em silêncio sobre o episódio. Isso mudou nesta quarta-feira, quando o clube publicou em seu site oficial um comunicado se desculpando formalmente com o povo chinês e se somando ao pedido já feito pelo próprio jogador.
"O Real Madrid deseja expressar suas desculpas ao povo chinês pelo desconforto que as recentes palavras do nosso jogador Kylian Mbappé possam ter causado."
— Comunicado oficial do Real Madrid
"Nosso clube mantém um profundo respeito pela China, sua história, sua cultura e seus cidadãos, assim como pelos milhões de torcedores chineses que sentem carinho e admiração pelo Real Madrid."
— Comunicado oficial do Real Madrid
"O clube se soma às desculpas públicas expressadas por Kylian Mbappé, nas quais o próprio jogador manifestou seu arrependimento por suas palavras e reiterou seu respeito pelo povo chinês."
— Comunicado oficial do Real Madrid
O medo do prejuízo milionário
A preocupação do Real Madrid vai além da imagem. Segundo a imprensa espanhola, o contrato de Mbappé com o clube prevê o repasse de parte dos rendimentos do jogador com patrocínios pessoais para os cofres merengues. Com o fim dos acordos chineses, essa receita simplesmente desaparece.
Há ainda um risco maior em jogo: a relação do clube com os cerca de 100 milhões de torcedores que o Real Madrid tem na China, mercado estratégico para a venda de camisas e produtos oficiais. O clube mantém atualmente contratos com três marcas chinesas de peso — a fabricante de pneus Linglong Tire, a Roborock, de aspiradores robóticos, e a Hisense, fabricante de televisões —, parcerias que podem sentir o reflexo da crise se o desgaste com o público chinês persistir.
A visão de quem trabalha com imagem de atleta
Para especialistas em gestão de reputação, o episódio mostra como uma fala isolada, feita como brincadeira, pode se transformar em um problema de negócios de grandes proporções quando o protagonista é uma estrela global do futebol.
"É legítimo que qualquer pessoa pública fale de suas crenças religiosas ou políticas, mas jamais deve atacar a escolha de quem não pensa como ele, mesmo sob pretexto de brincadeira. O respeito à diversidade é um dever absoluto de quem é popular. Posturas intolerantes geram forte repercussão negativa e podem provocar danos severos à imagem pública e problemas enormes com os diversos stakeholders, como clubes, torcedores e patrocinadores. Ao mesmo tempo, o atleta deve ser autêntico, preservando sempre sua essência e a personalidade. Essa complexidade torna o treinamento de mídia e a gestão estratégica de comunicação pilares inegociáveis para a preservação de carreiras. Hoje, esse tipo de profissional deixou de ser apenas um esportista para se tornar uma empresa. Ele precisa ser gerido com o mesmo rigor, estratégia e governança de uma instituição de grande porte para mitigar riscos e maximizar seu valor de mercado."
— Fernando Mello, sócio-fundador da Press FC, agência especializada em imagem e reputação
Com o pedido de desculpas do clube somado ao do próprio jogador e ao da LaLiga, Real Madrid e Mbappé tentam agora reconstruir uma ponte que levou décadas para ser erguida com o mercado chinês. O desfecho, porém, não depende só das palavras: passa pela decisão da CCTV de voltar ou não a transmitir os jogos do clube e pela reação do consumidor chinês nas próximas semanas — o verdadeiro termômetro de quanto esse episódio vai custar, de fato, aos cofres merengues.