Quatro resgates, um século: a história que dá esperança a Grêmio e Inter na reta final de 2026
Tem um roteiro que Grêmio e Inter conhecem bem demais: a tabela apertando, a conta que só fecha na última rodada, a torcida dividida entre acreditar e se proteger da decepção. O Brasileirão 2026 coloca a Dupla Gre-Nal de novo nesse filme, mas a boa notícia é que ele já teve final feliz — duas vezes para cada lado, neste século. A história não garante nada, mas também não deixa mentir: quando o abismo parece perto, Grêmio e Inter têm o costume de recuar na última hora.
Um século, duas fugas de cada lado
Contar as fugas da Dupla do rebaixamento neste século é meio que contar a própria identidade dos dois clubes: grandes demais para cair, mas não imunes ao sufoco. O Inter escapou em 2002 e de novo em 2025. O Grêmio se salvou em 2003 e, mais recentemente, em 2024. Em todos os casos, o desenlace só veio na última rodada, com resultado paralelo pesando na balança.
Inter 2002: o gol que também foi uma despedida
O Campeonato Brasileiro ainda vivia seus últimos suspiros no formato de mata-mata, com 26 clubes na disputa e quatro rebaixados ao final. O Inter chegou à rodada decisiva precisando vencer o Paysandu, em Belém, e torcer por uma combinação específica de resultados em outros estados.
O Colorado fez a parte dele: 2 a 0, com gols de Fernando Baiano e Mahicon Librelato. Faltava o resto do tabuleiro se encaixar. O Figueirense precisava vencer o Paraná — venceu. O Palmeiras não podia perder para o Vitória — perdeu. O resultado alheio bateu com o que o Inter precisava, e foi o clube paulista que acabou caindo no lugar do time gaúcho, que terminou a competição na 21ª posição.
A vitória em Belém carrega um peso que vai além da tabela. Semanas depois daquela tarde de salvação, Mahicon Librelato morreu em um acidente de carro em Florianópolis. O gol que ajudou a manter o Inter na Série A ficou registrado também como um dos últimos grandes momentos de sua carreira.
Grêmio 2003: 22 rodadas de agonia e um Gre-Nal libertador
Era o ano do centenário do clube e também a primeira edição do Brasileirão disputada integralmente em pontos corridos, com 24 equipes. Para o Grêmio, o aniversário de cem anos quase coincidiu com a primeira queda de sua história: foram 22 rodadas inteiras dentro da zona de rebaixamento, sendo 16 delas seguidas na própria lanterna da tabela.
A virada de chave veio de onde o torcedor tricolor menos esperava sofrer, mas sempre gosta de comemorar: um clássico Gre-Nal. No Beira-Rio, o Grêmio venceu com gol de Christian e deu início à arrancada que o tirou do fundo da tabela. Sob o comando de Adilson Batista, o time chegou à última rodada precisando vencer — e venceu o Corinthians. Terminou a competição na 20ª posição, com 50 pontos, um a mais do que o primeiro time fora da zona de rebaixamento.
Grêmio 2024: enchente, viagem e a volta de Renato
Se 2003 foi sofrimento dentro de campo, 2024 somou sofrimento fora dele. As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul deixaram o Grêmio quatro meses sem jogar na Arena, obrigando o clube a atuar em Curitiba, Cariacica e Caxias do Sul. O desgaste logístico cobrou o preço: seis derrotas seguidas em determinado trecho do campeonato e o time mergulhado no Z-4.
A reação teve a volta de Renato Portaluppi ao comando técnico. Na 18ª rodada veio a retomada das vitórias; na 21ª, a saída provisória da zona de rebaixamento, ainda que com oscilações constantes até o fim. A permanência só foi confirmada de fato na 36ª rodada, e o Grêmio encerrou a temporada em 14º lugar.
Inter 2025: Abel Braga e a ajuda dos rivais cearenses
O ano colorado começou com taça — o título do Gauchão — mas terminou com o Inter sofrendo até a última rodada do Brasileirão, como manda a tradição recente da Dupla. A diretoria recorreu a Abel Braga, ídolo histórico do clube, para comandar a reta final da campanha.
Em casa, na 38ª e última rodada, o Inter bateu o Bragantino por 3 a 1. Ainda era preciso que Fortaleza e Ceará, concorrentes diretos, tropeçassem. E tropeçaram: o Fortaleza perdeu fora de casa para o Botafogo, e o Ceará foi derrotado em seus domínios pelo Palmeiras. O Colorado fechou a temporada na 16ª posição, com 44 pontos — um a mais do que cearenses e fortalezenses, que caíram juntos.
Vitória em Belém
2x0 no Paysandu, gols de Fernando Baiano e Librelato. Terminou 21º, salvo pela combinação Figueirense x Paraná e Palmeiras x Vitória.
22 rodadas no Z-4
Virada no Gre-Nal com gol de Christian, salvação na última rodada contra o Corinthians. 20º lugar, 50 pontos, sob Adilson Batista.
Seis derrotas seguidas
Enchentes, mandos fora de casa, retomada com Renato Portaluppi. Permanência confirmada na 36ª rodada, 14º lugar final.
Abel Braga de volta
3x1 no Bragantino na última rodada, com Fortaleza e Ceará tropeçando juntos. 16º lugar, 44 pontos.
Personagens que entraram para a história da salvação
Nenhuma das quatro fugas aconteceu por acaso de técnica apenas — cada uma teve um nome associado à virada. Adilson Batista, ainda jovem como treinador, assumiu o Grêmio afundado e o tirou do buraco em 2003; décadas depois, voltaria a comentar publicamente sobre aquela campanha, já como torcedor declarado do clube. Renato Portaluppi, auxiliado pelo vínculo histórico com a Arena, foi chamado de volta em 2024 para estancar a sangria gremista. E Abel Braga, ídolo máximo do Inter, aceitou o desafio de comandar os últimos jogos de 2025 justamente na hora em que o clube mais precisava de experiência e sangue frio.
Do lado dos gols, Christian entrou para a mitologia gremista com a bola na rede contra o Inter em pleno Beira-Rio — o tipo de gol que vale dobrado por ser dentro de um Gre-Nal. Já a dupla Fernando Baiano e Mahicon Librelato garantiu ao Inter o resultado em Belém, com Librelato deixando um capítulo trágico: morreu em acidente de carro poucas semanas depois daquela tarde de salvação.
O que isso diz sobre 2026
A reta final do Brasileirão 2026 repete o enredo: Grêmio e Inter novamente na briga para não cair, novamente dependendo de detalhes e de resultados paralelos para respirar mais tranquilos. A diferença é que, pela primeira vez neste século, as duas fugas de cada clube já aconteceram — o que não é garantia de nada, mas é um precedente e tanto para abastecer a esperança de quem segue na torcida até a última rodada.
Se o histórico ensina alguma coisa, é que o sufoco até a reta final não é sinônimo de queda certa. Falta, agora, escrever o quinto capítulo — ou o primeiro de uma história diferente.
Olho na tabela: com o Brasileirão 2026 caminhando para as rodadas decisivas, Grêmio e Inter seguem na briga direta contra o descenso. A Dupla Gre-Nal mede forças de novo pela permanência na Série A — e a torcida de ambos os lados vai lembrar, a cada rodada, que isso já deu certo antes.