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Como Renato resgatou a conexão entre Grêmio e a Arena — e abriu a porta para a décima final

Por: Redação FutebolRS 02/11/2026 Notícias
Em sete dias, o técnico tirou o Tricolor do Z-4, encheu o estádio e deixou o time a 180 minutos de uma decisão histórica da Copa do Brasil
Especial · Grêmio

02 de novembro de 2026 · Arena do Grêmio, Porto Alegre · Redação

Tem um som que só existe quando a Arena está cheia e o Grêmio está ganhando. Não é só gol, é mais do que isso: é o grito que sobe das quatro arquibancadas ao mesmo tempo, atravessa o Guaíba e vira grito só, uma palavra repetida até perder o sentido de tanto se repetir — "Queremos a Copa". Foi esse som que fechou a tarde de domingo (1º), depois de o Grêmio vencer o Atlético-MG por 2 a 0, com gols de Carlos Vinícius e Noriega, e abrir vantagem na semifinal da Copa do Brasil. Mas o resultado em si é só a ponta visível de uma reconstrução que Renato Portaluppi vem fazendo nos bastidores, jogo a jogo, conversa a conversa, desde que voltou ao clube.

Uma semana que mudou o rumo do ano

Até pouco tempo atrás, falar em Grêmio era falar em rebaixamento. A equipe flertava com o Z-4 do Brasileirão e a torcida vivia aquilo que os próprios colunistas da Rádio Gaúcha descreveram como "o pântano do desespero". Renato assumiu o time, e em sete dias virou o roteiro: duas vitórias seguidas no Brasileirão tiraram o Grêmio da zona de rebaixamento — algo que o antecessor, Luis Castro, não havia conseguido —, e uma terceira vitória, agora pela Copa do Brasil, deixou o clube a um passo de sua 10ª final no torneio.

O Grêmio foi campeão da primeira edição da Copa do Brasil e, desde então, acumulou mais quatro títulos. É o torneio da identidade tricolor, aquele em que a cultura competitiva do clube mais pesa. Se confirmar a vaga, será a décima final da história — e o apelido de Imortal, que a torcida carrega, ganha mais um capítulo.

Público 44 mil média de torcedores por jogo na Arena desde a volta de Renato
Domingo (1º) 50 mil torcedores na Arena contra o Atlético-MG, pela semifinal
Semana decisiva 3 vitórias duas pelo Brasileirão, uma pela Copa do Brasil
Histórico 10ª final se o Grêmio confirmar a vaga na Copa do Brasil

A Arena como fiadora

Desde que retornou ao comando do Grêmio, Renato comandou cinco jogos na Arena — contra Palmeiras, Internacional, Cruzeiro e Athletico-PR, pelo Brasileirão, além do duelo com o Atlético-MG, pela Copa do Brasil. Em todos eles, os portões praticamente se escancararam: a média de público nesse recorte chega a 44 mil torcedores por partida, um número que fala tanto sobre o momento esportivo quanto sobre a confiança que o técnico reconstruiu com quem paga ingresso.

Na entrevista coletiva depois do triunfo sobre o Atlético-MG, ao lado da filha Carol Portaluppi, o técnico fez questão de devolver o gesto à arquibancada.

— O nosso torcedor está satisfeito com essa entrega e dedicação do grupo.

É uma relação de mão dupla. Quanto mais a Arena enche, mais o time joga embalado; quanto mais o time entrega, mais a Arena enche. Renato entendeu isso rápido e tratou o apoio nas arquibancadas quase como um jogador extra — o fiador que reaproxima torcida e elenco depois de um período de desconfiança mútua.

O que mudou dentro de campo

A reconstrução não aconteceu só pela via emocional. Renato reorganizou a equipe taticamente, com uma linha de três zagueiros e um espírito solidário de marcação, em que Amuzu, Enamorado e Carlos Vinícius ajudam a compor a defesa quando o time não tem a bola. O resultado é um Grêmio que corre mais em bloco, se defende até com nove ou dez jogadores quando precisa, e ataca com objetividade, sem elaboração excessiva — mas com eficiência.

Contra o Atlético-MG, essa fórmula funcionou de novo: o primeiro gol saiu de um lançamento longo do goleiro, finalizado por Carlos Vinícius; o segundo, já na etapa final, nasceu de jogada mais trabalhada, com participação de Enamorado, assistência de João Pedro e finalização de Noriega. Depois dos dois gols, o time se postou atrás para administrar o resultado — e resistiu à pressão mineira sem sofrer.

O resgate dos "esquecidos"

Parte do trabalho de Renato também passou por recuperar nomes que estavam fora de prioridade ou contestados pela torcida — casos de João Pedro, Balbuena e Caio Paulista, hoje peças mais presentes no time. E passou por entender o peso emocional de cada jogador, como relatou o próprio técnico.

— É treinar, fazer o jogador correr menos e ser mais produtivo. Tenho muitas conversas com eles. Sei o que podem entregar, o que eles gostam e o que não gostam. Passo confiança a eles. Escuto. O que não tem negociação comigo é a entrega em campo. Ainda vamos brigar contra o rebaixamento. O importante é seguir o objetivo de permanecer.

Um dos nomes que mais sentiu essa mudança foi o peruano Noriega, autor do segundo gol contra o Atlético-MG e hoje mais confiante dentro de campo.

— Agora que estamos vencendo, todos estão mais confiantes. Renato nos ajuda com o que nos fala. Passamos por muitas dificuldades. O ambiente está muito bom. Como grupo, sempre estivemos bem. Agora mudaram coisas dentro do campo. Ele nos ajuda com a questão dos jogos. A confiança volta com as vitórias.

Nada está garantido

Mesmo com a boa vantagem construída — 2 a 0 no jogo de ida da semifinal —, Renato tratou de baixar a euforia depois da partida. A classificação à final ainda não está escrita, e o próprio técnico lembrou que a decisão soma 180 minutos, não 90.

— Conseguimos um bom resultado e não temos nada ganho. É uma decisão de 180 minutos. Sabemos da qualidade do adversário. Eles têm todo o nosso respeito. Valeu pela entrega de novo. Sofremos em alguns momentos, mas não demos oportunidades. Soubemos nos defender. Comemorar hoje e recuperar bem os jogadores. Temos outra final na quarta, agora pelo Brasileirão.
O que está em jogo: além da vaga na final da Copa do Brasil, o Grêmio briga por uma premiação que pode superar R$ 30 milhões e por um lugar direto na próxima Libertadores — sem contar que o time ainda precisa se afastar de vez do Z-4 no Brasileirão.

A semana que não dá descanso

Depois da festa na Arena, o desafio de Renato passa a ser administrar o desgaste físico de um elenco que já está com a lista de lesionados e desfalques crescendo. Marlon sentiu uma pancada na panturrilha e será reavaliado; Pavon, Nardoni, Jovane Cabral e Danilo Barbosa também não ficam à disposição para o próximo compromisso. Para completar, Carlos Vinícius e o goleiro Weverton — dois dos principais nomes da sequência positiva — também serão ausência no duelo contra o líder do Brasileirão.

A conta é complicada: o Grêmio enfrenta o Flamengo, na quarta-feira, no Maracanã, pelo Brasileirão, antes de voltar a campo no sábado (7) para o jogo de volta da semifinal da Copa do Brasil, na casa do Atlético-MG. Dois jogos de risco máximo, times desfalcados nos dois lados da história recente e uma torcida que, pela primeira vez em meses, volta a sonhar.

A Arena ainda vai receber o Grêmio mais duas vezes neste ano — contra Bahia e Mirassol, pelo Brasileirão —, e a aposta é que a conexão recuperada nas últimas semanas continue enchendo as arquibancadas. Mas antes disso vêm os dois jogos mais difíceis da temporada: o líder do Brasileirão no Maracanã e a vaga na final da Copa do Brasil em Belo Horizonte. Nada está garantido, como repete Renato. Mas, depois de uma semana em que o time saiu do pântano do desespero para sonhar com o hexa da Copa do Brasil, o torcedor gremista aprendeu a confiar de novo — e a Arena, lotada, é a prova mais sonora disso.

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