Quatro anos depois do caos, Pizzamiglio projeta o último capítulo de uma gestão que reconstruiu o Juventude
Tem gestões que se medem em títulos e tem gestões que se medem em contas que deixam de assombrar à noite. A de Fábio Pizzamiglio no Juventude começou pelo segundo tipo. Em 18 de outubro de 2022, quando assumiu a presidência do clube após a licença de Walter Dal Zotto Jr., o Alviverde já sabia que cairia para a Série B. Faltava saber se sobreviveria à queda. Quatro anos depois, na véspera de completar o mandato, o Ju não só sobreviveu: tornou-se referência de gestão no futebol brasileiro, pagou dívidas antigas, lucrou nos dois últimos balanços e voltou a sonhar com competições internacionais. Falta só fechar a conta.
O início: herança pesada e um caixa curto
Pizzamiglio não era estranho ao clube. Desde 2019 ocupava a vice-presidência de Comunicação e Marketing, mas assumir o comando geral em plena crise de rebaixamento era outra história. O caixa deixado para 2023 era insuficiente até para tocar a temporada seguinte, e o clube ainda arrastava dívidas parceladas de anos anteriores.
— Nós tínhamos um pequeno caixa deixado de 2022 pra 2023 que era bem insuficiente para poder fazer o 2023. E tinham as dívidas parceladas, que hoje a gente terminou de pagar o parcelamento. Então, em termos de caixa, eu acho que evoluiu bastante. Eu acho que deve ter sido uns 30 milhões pagos em dívidas nesses anos aí.
A frase resume o tamanho do buraco. Em quatro anos, a diretoria quitou integralmente esse passivo e ainda conseguiu a Certidão Negativa de Débitos com a União — documento que atesta a regularidade fiscal do clube e que poucos clubes brasileiros conseguem exibir.
Os números que sustentam o discurso
O dinheiro que deixou de ir para dívidas voltou em forma de estrutura: melhorias no CT e no estádio Alfredo Jaconi, incluindo os primeiros passos do projeto da ferradura sul — obra que o próprio presidente admite não ter avançado tanto quanto gostaria.
Dentro das quatro linhas: do quase título ao rebaixamento e à reação
Se fora de campo a gestão colhe elogios quase unânimes, dentro dele a história tem mais altos e baixos. 2024 ficou marcado como um dos melhores Gauchões recentes do clube, com um time que chegou embalado à decisão contra o Grêmio — e que não levantou a taça por muito pouco.
— Foi 2024, um ano muito bom, o nosso Gauchão acho que foi um dos melhores que a gente fez nos últimos anos, tínhamos tudo pra ser campeões, e na final (com o Grêmio), lembro do Paulo (Stumpf, vice-presidente) chorando por a gente não ter conseguido. Eu disse pra ele que a gente ia ser no ano seguinte e daí nos garfearam, mas a gente está beliscando, vai acabar acontecendo.
No mesmo ano, o Brasileirão trouxe outra frustração de margem mínima: a vaga na Sul-Americana escapou por um lance de arbitragem no duelo contra o Cruzeiro, quando a árbitra Edina Alves encerrou a partida com apenas quatro dos onze minutos de acréscimo que haviam sido sinalizados.
— Eu gostaria de ter tido uma competição internacional e gostaria de ter feito uma melhora maior no Jaconi, especialmente o projeto ali da ferradura sul, pelo menos deixar o projeto encaminhado. E a Sul-Americana não veio por 11 minutos de acréscimo que viraram quatro.
O ano passado trouxe o momento mais duro da gestão: a queda para a Série B, reconhecida pelo próprio presidente como o principal ponto negativo do seu mandato. Mas a reação veio rápido, e o Ju chega a 2027 como forte candidato a um dos acessos à Série A.
O acesso contra o Ceará e a dor do Ypiranga
Entre as lembranças mais fortes do período, Pizzamiglio citou a classificação conquistada em Fortaleza, contra o Ceará, num jogo em que chegou a dar a situação por perdida.
— O acesso contra o Ceará em Fortaleza. Eu achei que estava tudo perdido. Eu falei pro Paulo (Stumpf), disse: "Se foi". E aí as coisas começam a dar certo. Realmente foi de chorar aquele jogo.
Do lado oposto da emoção, ficou a eliminação para o Ypiranga, decisiva para uma vaga na Copa do Brasil em um momento em que o clube ainda sofria para pagar as contas.
— Uma derrota que eu lembro que foi realmente muito ruim foi lá contra o Ypiranga, aquele jogo das bolas. E valia a vaga na Copa do Brasil, né? E a gente sem ter como pagar as contas e tudo mais. No final, conseguimos a vaga, mas aquele jogo lá foi realmente complicado.
Os personagens da gestão
Nenhuma gestão se faz sozinha, e Pizzamiglio não disfarça o peso que a parceria com o vice-presidente Paulo Stumpf teve nesses quatro anos.
— É, realmente, ele é meu braço direito, a grande maioria das decisões a gente compartilha. Até no primeiro ano quando a gente divergia, saía do grupo, ia pra sala separada, brigávamos entre os dois, mas logo voltava porque realmente ele que me dá suporte em vários aspectos que eu não sou tão bom. Ele se tornou um amigo.
No departamento técnico, dois nomes marcaram períodos distintos. Thiago Carpini assumiu o time em penúltimo lugar na Série B de 2023 e terminou vice-campeão — resultado que o presidente classifica como o grande feito esportivo da gestão. Já o técnico Barbieri, no comando atual, tem a missão de repetir a régua e, se possível, superá-la com o título.
— A gente pode falar do Thiago Carpini, ele pegou o time em penúltimo e a gente acabou como vice-campeões; então em termos de campanha acho que a gente pode falar dele porque ele conseguiu o objetivo. O Barbieri também é outro estilo de trabalho e está vindo muito bem, a gente espera ter um resultado superior ao do Carpini, que é ter o título.
No departamento de contratações, o nome mais lembrado por Pizzamiglio foi o de Nenê, reforço que surpreendeu a própria torcida pelo contraste com o perfil costumeiro do elenco.
— Foi a contratação do Nenê, algo bem diferente e inesperado, eu acho, pra nossa torcida. Mas a gente teve realmente vários jogadores que despontaram, jogador que para um treinador era para ser dispensado depois vira o melhor do time.
O peso invisível do cargo
Fora das planilhas e das tabelas, Pizzamiglio também falou sobre o custo pessoal de presidir um clube de futebol. Ele contou que perdeu o cadastro facial na empresa que dirige, a Efficienza, de tanto tempo que passa fora dali.
— Cheguei ao ponto de não ter mais o meu cadastro facial na Efficienza. Agora eu tenho que tocar a campainha lá para entrar. E já faz alguns meses que está assim. Às vezes fico um mês inteiro sem aparecer na empresa. Na fase final de ano, a família acaba ficando mais distante, tem muita reunião, muitas idas à CBF ou à própria Liga, então acaba ficando mais complicado.
O dirigente também relatou episódios de tensão com arbitragem, incluindo um jogo contra o São Paulo pela Copa do Brasil em que foi pessoalmente reclamar com o quarto árbitro sobre o comportamento da equipe adversária durante o aquecimento.
— Teve um jogo que eu fiquei filmando o quarto árbitro, só pra fazer a porcentagem de quanto tempo ele ficava na nossa área e quanto ficava na área adversária. No jogo do Juventude e São Paulo eu desci, e no primeiro tempo, fui reclamar com o quarto árbitro com relação a isso, porque eles estavam aquecendo inclusive dentro de campo.
O que falta: o último ano
Com o mandato caminhando para o fim, Pizzamiglio já tem uma meta clara para encerrar a gestão: devolver o Juventude à Série A com o título da Série B debaixo do braço e deixar o clube em condições de brigar novamente por uma vaga internacional.
— Voltar aqui já com o título da Série B e ano que vem a gente ter um ótimo ano na Série A e, se Deus quiser, entregar o clube aí numa Sul-Americana ou até melhor.
Quatro anos depois de assumir um clube endividado e já condenado ao rebaixamento, Fábio Pizzamiglio se despede de seu penúltimo ano no cargo com um balanço raro no futebol brasileiro: contas em dia, torcida competitiva e um projeto que sobreviveu até a um novo rebaixamento sem perder credibilidade. Falta fechar o ciclo da forma como ele próprio definiu — com acesso, título e, quem sabe, uma competição internacional como broche final. O Juventude entra agora na reta decisiva de uma gestão que, pelos números, já é uma das mais bem avaliadas do Rio Grande do Sul.