Pablo Isnardi assume a presidência do Brasil de Pelotas com promessa de gestão profissional e diagnóstico financeiro
Tem presidente novo na Boca do Lobo. Na noite desta quarta-feira, Pablo Isnardi subiu à tribuna da Assembleia Geral do Brasil de Pelotas e recebeu dos sócios a faixa que vai carregar pelo biênio 2027/2028. Arquiteto e urbanista, ele chega à cadeira mais alta do clube com discurso sem rodeios: antes de prometer títulos, promete números. O plano inicial da nova gestão é abrir as contas do clube, entender o tamanho real do buraco financeiro e só depois decidir o que é possível planejar dentro de campo.
Isnardi não é estranho à casa. Ocupava a vice-presidência do Conselho Deliberativo e integrou os grupos de trabalho que estudaram a transformação do clube em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) e as alternativas de aproveitamento do entorno da Boca do Lobo. Foi essa vivência interna que o levou a disputar a sucessão, diante da ausência de um candidato natural dentro da própria gestão que termina.
— Nos últimos meses, eu entendi que era um momento onde eu podia contribuir um pouco mais. Quando abriu o processo eleitoral e vi que não havia movimentação da atual executiva para uma sucessão, entendi que era o momento de colocar meu nome.
O novo presidente tem Leonardo Almeida e Darci Fernandes como vices e assume depois do ciclo de Rodrigo Brito, que esteve à frente do Brasil de Pelotas desde 2022.
Diagnóstico antes do pontapé inicial
A primeira tarefa da nova diretoria é mapear a situação real do clube, com foco nas finanças. Em vez de começar do zero, a ideia é aproveitar a due diligence que a KOR Sports Group já conduz sobre a proposta de SAF, cruzando esse material com um levantamento próprio.
A gestão anterior, segundo Isnardi, se colocou à disposição para ajudar na transição e repassar informações. A partir desse raio-x, o plano é definir prioridades e montar um planejamento de curto, médio e longo prazo — além de melhorar a comunicação com a torcida, hoje marcada pela desconfiança gerada pela falta de informações claras e pelos resultados ruins dentro de campo.
Os pilares da nova gestão
Executivo de futebol e gestão administrativa
Contratação de um executivo para tocar o planejamento esportivo e de um profissional para as áreas comercial, financeira e operacional.
Raio-x das contas do clube
Levantamento próprio somado à auditoria já feita pela KOR Sports Group para entender o passivo real do Brasil de Pelotas.
Transparência com sócios e torcida
Informações mais claras sobre desafios financeiros e decisões administrativas, para reduzir a desconfiança acumulada.
Imóveis ociosos como fonte de receita
Reforma de apartamentos e negociação de terreno próprio, condicionadas ao avanço do diagnóstico financeiro.
A composição final da diretoria, com um profissional técnico para cada pasta, ainda depende desse diagnóstico inicial. Por ora, o único nome confirmado é o de Giuseppe Bachini na direção jurídica, com previsão de contratação de uma assessoria especializada para reforçar a área.
Calendário, base e o elo com o profissional
No futebol, a meta imediata é manter o Brasil de Pelotas em atividade pelo maior tempo possível durante a temporada. Mas o planejamento efetivo para 2027 só será fechado depois que o clube souber o tamanho do orçamento disponível, o passivo financeiro herdado e o calendário das competições estaduais — que a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) deve divulgar em dezembro.
— O nosso intuito é jogar todas as competições profissionais que estejam ao nosso alcance. O que vai ser o grande ponto para nós? A gente entender o nosso orçamento do ano que vem.
A intenção declarada é disputar todas as competições possíveis, cenário que pode incluir a Copa FGF e a Divisão de Acesso. A partir da definição de recursos, o clube pretende estruturar o departamento de futebol, fixar um modelo de jogo e buscar profissionais alinhados a esse projeto.
Outra frente é aproximar o elenco principal das categorias de base. O Brasil de Pelotas disputa o Gauchão Sub-20 em 2027, e a nova gestão quer usar a competição como vitrine para observar atletas com condições de subir ao profissional. Hoje, Daniel Carvalho e Klécio Santos comandam as equipes sub-20 e sub-17 do clube.
— A gente tem que ter uma pessoa que faça esse elo entre as categorias de base e o futebol profissional. Eles têm que estar em constante conexão e contato com a executiva, trabalhando juntos.
Patrimônio ocioso, receita em potencial
Um dos projetos em estudo é a reforma dos apartamentos localizados abaixo da arquibancada da Avenida Bento Gonçalves. Hoje usados sobretudo para hospedar jogadores durante competições, os espaços ficam ociosos boa parte do ano — e a ideia é transformá-los em alojamento permanente de atletas ou em fonte de locação temporária, gerando receita recorrente para o clube.
Há ainda um terreno desocupado na esquina das ruas Doutor Amarante e Padre Anchieta, onde funcionava um posto de combustíveis. O espaço está dentro das tratativas com a KOR Sports Group, responsável pela proposta de SAF que prevê empreendimentos imobiliários no entorno da Boca do Lobo. Isnardi prefere esperar o avanço desses estudos antes de fechar qualquer contrato de locação que possa comprometer um negócio maior no futuro.
A proposta de SAF e os números da KOR Sports Group
A transformação do Brasil de Pelotas em Sociedade Anônima do Futebol é um dos temas centrais para o futuro do clube, mas Isnardi deixa claro que a decisão não é exclusiva da nova diretoria: cabe ao Conselho Deliberativo avaliar a proposta e decidir sobre a mudança de modelo de gestão.
Segundo Isnardi, os documentos solicitados pelos responsáveis pela proposta já foram entregues pelo clube durante o período em que Gabriel Ribeiro esteve na presidência interina. A expectativa é de que a KOR apresente, nas próximas semanas, um primeiro escopo do projeto, com detalhes sobre investidores e garantias envolvidas. O novo presidente pretende continuar participando da comissão que analisa a SAF e defende que o processo avance sem pressa.
Isnardi é categórico ao afirmar que a gestão não ficará condicionada à aprovação da SAF: se o projeto avançar, a diretoria pretende colaborar com a implementação do novo modelo; se não avançar, o clube seguirá um planejamento próprio para os dois anos de mandato. Entre o diagnóstico financeiro que começa agora e a definição do calendário da FGF em dezembro, o Brasil de Pelotas entra em uma fase de transição que vai dizer, nos próximos meses, qual futebol — e qual orçamento — a torcida pode esperar para 2027.