Marlon e Carlos Vinícius assumem culpa pela crise e blindam Renato, mas repercussão política segue pesando sobre o Grêmio
Tem momento em que o discurso vira escudo. Foi assim na tarde de sexta-feira (23), quando a Arena se transformou em palco de defesa pública: Marlon e Carlos Vinícius, duas das principais lideranças do vestiário gremista, se colocaram diante dos microfones para blindar o técnico Renato Gaúcho das críticas que se acumulam depois de seis jogos sem vitória, e assumiram, em nome do grupo, parte da culpa pelo momento ruim do Grêmio no Campeonato Brasileiro. A sete rodadas do fim, o time soma menos de 18% de chances de permanência na Série A e embarca neste domingo (25) para Curitiba, onde encara o Coritiba na segunda-feira (26) em mais uma decisão na luta contra o quarto rebaixamento da história do clube.
Coletiva marcada, discurso combinado
A entrevista havia sido convocada pelo clube apenas para os dois atletas, mas, pouco antes do início, a assessoria avisou a imprensa que o próprio Renato Portaluppi também falaria. Não foi uma coletiva formal do treinador, e sim uma manifestação direcionada ao torcedor, ao lado dos líderes do elenco. O recado foi único: pedir união em um momento que o próprio comandante classificou como delicado.
“A gente sabe que o momento não é dos melhores, mas somente nós podemos nos tirar dessa situação. Essa é a mensagem que vim passar para o nosso torcedor. Nos abracem. Podem ter certeza que no dia a dia nós estamos trabalhando bastante. Diferente do que muita gente anda falando, nosso grupo está muito unido”, disse Renato Portaluppi.
O técnico relembrou o ano de 2024, quando o Grêmio também lutou contra a queda, e destacou que hoje o clube conta com a Arena como aliada — fator que, segundo ele, não existia naquela temporada. A fala teve ainda um gesto concreto por trás: a diretoria confirmou a chamada Operação Curitiba, com 27 ônibus fretados para levar cerca de mil gremistas à capital paranaense. Somando outros grupos organizados e torcedores que vivem no Paraná, o clube já garantiu 4 mil ingressos para o setor visitante.
Carlos Vinícius compara Renato a Mourinho
Na sequência, o centroavante assumiu o papel de principal defensor do técnico. Para o jogador, as críticas após uma sequência curta de jogos são desproporcionais, e a gestão de grupo de Renato Gaúcho segue entre as melhores que já viveu na carreira.
“Ele é de uma gestão de grupo top. Tirando ele e o Mourinho, não vejo outro treinador para a gestão. Talvez no calor de um pós-jogo, falou coisas além do ponto, mas nós sabemos de tudo. Nós que estamos dentro do clube assinamos embaixo, porque ele não falou só da boca para fora. Há coisas que acontecem que realmente não concordamos. Agora, o que eu não concordo é meter o Renato na cruz com seis, sete jogos”, afirmou Carlos Vinícius.
Marlon é mais autocrítico
Se o discurso de Carlos Vinícius foi de defesa direta ao técnico, o do lateral teve outro tom. Marlon reconheceu que o próprio elenco demorou a corrigir erros ao longo da temporada e que o grupo, em mais de uma ocasião, escondeu problemas internos enquanto os resultados não vinham.
“Se analisarmos os últimos anos, a briga para escapar foi apertada até o final. Estamos nas cordas, não temos para onde correr. Ou aguentamos os socos e nocauteamos o adversário ou vamos para a lona. Não temos opção. Temos sete jogos. Precisamos vencer. Lavamos a roupa suja internamente algumas vezes durante a temporada, mas tapamos o sol com a peneira muitas vezes quando as vitórias não aconteciam. Deixamos a coisa acontecer e quando vimos estamos nessa situação de hoje”, avaliou Marlon.
O lateral também destacou o investimento da diretoria na folha salarial do elenco como argumento para reforçar que a responsabilidade pelo momento ruim não pode ser jogada só nas costas da comissão técnica.
“O treinador está aqui porque é um cara que compra muito pelo Grêmio, sempre deu a cara pelo Grêmio. Durante a temporada inteira disse que treinador não entra em campo pra chutar bola. Temos que entender que a responsabilidade também é dos jogadores”, pontuou Marlon.
A polêmica do bônus por escapar da queda
Na mesma entrevista, Marlon abriu uma porta que não ajudou no discurso de unidade. Questionado sobre premiação especial em caso de permanência na Série A, o lateral disse que não houve conversa formal com a diretoria até o momento, mas deixou claro que o assunto pode mudar de figura se houver proposta concreta por parte do clube.
A fala gerou repercussão negativa na imprensa gaúcha, que cobrou do grupo um discurso mais focado na honra de defender a camisa do que em bonificação financeira para evitar o rebaixamento — justamente no momento em que o clube tenta vender a narrativa de entrega total e união irrestrita.
Declarações políticas do técnico também pesam
Enquanto o vestiário tenta blindar Renato Gaúcho das críticas técnicas, outra frente de desgaste segue aberta: a repercussão de declarações políticas feitas pelo treinador em entrevistas coletivas. A avaliação da imprensa é de que, ao usar o espaço de técnico do Grêmio para manifestar preferências eleitorais, Renato mistura convicções pessoais com uma instituição que reúne torcedores de todos os espectros políticos.
O episódio ganhou ainda mais destaque depois que veio à tona um áudio do empresário Celso Rigo, apoiador do clube, no qual a suposta posição política de esquerda do técnico Tite teria sido citada como obstáculo para sua contratação pelo Grêmio em um momento anterior. A situação reforçou a crítica de que decisões dentro do clube estariam sendo influenciadas por viés ideológico, e não apenas por critérios técnicos.
Desfalques e retornos para o duelo com o Coritiba
Em campo, o Grêmio tenta transformar discurso em resultado. Para a decisão em Curitiba, o técnico não vai poder contar com o zagueiro Kannemann, suspenso, nem com o volante Danilo Barbosa, lesionado. Como resposta, Wallace deve voltar à zaga e Noriega ganha vaga no meio-campo. A definição da escalação sai do treino deste sábado (24), véspera do embarque da equipe para o Paraná.
O Grêmio embarca no domingo (25) para Curitiba, onde encara o Coritiba na segunda-feira (26), em jogo que o próprio elenco já trata como decisivo na briga contra o rebaixamento. Com sete rodadas pela frente e uma arquibancada que promete lotar o setor visitante com 4 mil gremistas, o discurso de união criado na Arena nesta semana só vai se sustentar se vier acompanhado de pontos dentro de campo — e de um recuo nas polêmicas que, dentro e fora do vestiário, continuam ofuscando a reta final de temporada tricolor.