O dia em que um jornalista esportivo virou entrevistado: a conversa de Marco Matos com Luciano Potter
O dia em que um jornalista esportivo virou entrevistado: a conversa de Marco Matos com Luciano Potter
Acostumado a fazer perguntas nos gramados e nos vestiários, colunista relata como uma gravação de podcast se transformou em um raro momento de escuta sobre si mesmo
Há quase quinze anos, o jornalista Marco Matos vive do outro lado do microfone: é ele quem pergunta, quem escuta, quem garimpa nas respostas alheias a frase que vai render a manchete do dia seguinte. Foi assim em coletivas de técnicos, em entrevistas de vestiário e em incontáveis bastidores do esporte gaúcho. Mas, nas últimas semanas, essa lógica se inverteu, e o resultado surpreendeu até quem está acostumado a lidar com histórias.
Uma referência de infância do outro lado da mesa
O convite veio do podcast comandado por Luciano Potter, o Potter Entrevista, gravado no auditório Araújo Viana e disponível no YouTube. Para Matos, hoje com 35 anos, Potter não era apenas mais um comunicador: era a voz que acompanhava suas tardes de adolescente sintonizadas na Rádio Atlântida, nos tempos de programas que marcaram uma geração inteira de gaúchos. Apesar de dividirem corredores de emissora ao longo dos anos, os dois raramente haviam cruzado o caminho de perto — o suficiente para contar nos dedos de uma mão.
A expectativa, então, era de um papo leve, recheado de piadas e tiradas rápidas, moldado pela imagem pública que Potter construiu ao longo de décadas. Os primeiros minutos de gravação, no entanto, já indicavam outro tom.
Quando a entrevista vira espelho
Potter havia se preparado. Sabia de projetos pessoais que Matos ainda mantém em sigilo, como um livro em produção, e demonstrou interesse genuíno em explorar camadas da história do colega que raramente vêm à tona em conversas de trabalho. Diante dessa escuta atenta, algo se abriu.
Matos falou sobre escolhas que redesenharam sua trajetória, sobre a decisão de correr e de deixar o álcool para trás, e sobre um episódio que carregava havia anos sem verbalizar por completo: o bullying sofrido na escola por ser gay. Foram temas que, até aquele momento, ele só havia elaborado em sessões de terapia — e que, ali, ganharam voz pela primeira vez diante de um público maior.
Não houve busca por comoção, tampouco espaço para julgamento. O que ficou, segundo o próprio colunista relata, foi a sensação rara de ser ouvido de verdade — sem filtros profissionais, sem a pauta como escudo.
Cheguei a falar coisas que até então só tinham aparecido nas sessões de terapia.
Marco Matos — jornalista
O peso das dores que carregamos em silêncio
Ao deixar o auditório, ainda sob o efeito da conversa, Matos refletiu sobre como certas dores acompanham as pessoas por anos, às vezes décadas, sem que se perceba o quanto seguem pesando. A experiência reforçou algo que a rotina de entrevistador raramente lhe ensina na prática: o alívio de dizer em voz alta aquilo que insiste em incomodar por dentro.
A repercussão não tardou. Depois da gravação, uma carona para casa e uma enxurrada de mensagens de apoio nas redes sociais confirmaram que a sinceridade daquele bate-papo havia atravessado a tela e tocado quem assistiu.
Fica o registro de que, às vezes, é preciso trocar de lugar — sair da cadeira de quem pergunta para a de quem responde — para redescobrir o valor de ser simplesmente escutado.