Jorge Jesus divulga 1ª convocação de Portugal sem Cristiano Ronaldo e rebate críticas: "Não mudaria nada, zero"
Tem coisa que o futebol não costuma fazer: virar a página rápido demais. Mas foi exatamente isso que Portugal precisou fazer nesta sexta-feira, menos de 24 horas depois de Cristiano Ronaldo anunciar, em vídeo nas redes sociais, que não vestiria mais a camisa da seleção. Jorge Jesus divulgou a primeira lista de convocados do pós-CR7 para os dois últimos compromissos de Portugal na fase de grupos da Liga das Nações, contra Dinamarca e País de Gales, e logo depois enfrentou uma coletiva dominada por perguntas sobre o camisa 7 — rebatendo, ponto por ponto, qualquer responsabilidade pela saída do astro de 41 anos.
A lista sem Cristiano
Portugal recebe a Dinamarca em casa no dia 14 de novembro, às 16h45 (de Brasília), pela quinta rodada do Grupo D. Três dias depois, no dia 17, a seleção visita o País de Gales no mesmo horário. Além de Cristiano Ronaldo, que ainda cumpre suspensão de 30 dias aplicada pela Federação Portuguesa de Futebol por ter deixado a concentração antes do duelo contra os dinamarqueses em outubro, Jesus também não pôde contar com Francisco Conceição, suspenso pela Uefa, e Nuno Mendes, fora por lesão.
Diogo Costa, Rui Silva, Samuel Soares
Cancelo, Dalot, Alberto Costa, Rúben Dias, Renato Veiga, Tomás Araújo, António Silva, Gonçalo Inácio, Nuno Tavares
Rúben Neves, Palhinha, Mateus Fernandes, João Neves, Vitinha, Bruno Fernandes, Bernardo Silva
Pedro Neto, Trincão, Rafael Leão, Quenda, Carlos Forbs, João Félix, Gonçalo Ramos, Fábio Silva, Gustavo Varela
Jesus nega culpa e descarta arrependimento
Logo depois de presenciar uma homenagem da Federação Portuguesa a Cristiano Ronaldo e de anunciar os convocados, Jorge Jesus foi bombardeado com pelo menos onze perguntas sobre o ex-camisa 7 em sua entrevista coletiva. O técnico revelou que soube da aposentadoria do craque pelas redes sociais, junto com o restante do público, e que planejava incluí-lo na lista caso o desempenho no Al-Nassr se mantivesse.
Não me sinto culpado de nada com relação à saída dele. Respeito a decisão dele, e a história dele não pode ser ignorada. E isso eu nunca vou fazer, porque ele será sempre um símbolo. Criei nesse um ano e meio uma amizade forte com ele. Agora, ele tomou uma decisão, e eu respeito muito.
Questionado se mudaria alguma atitude na relação com o atacante desde que os dois se reencontraram na seleção, o treinador foi direto.
Não mudava nada. Zero. Porque eu tomei uma decisão de treinador, pensando na minha equipe, na equipe portuguesa. Estou consciente de que não fiz nada para que isso pudesse ter acontecido.
Jesus também negou ter procurado Cristiano Ronaldo desde que o jogador abandonou a concentração em meio à Data Fifa de setembro e outubro.
Não falei com o Ronaldo porque estava pensando em convocá-lo, e a partir desse momento ia ter tempo para falar com ele. Portanto, não falei com ele.
Sobre convocar o craque enquanto ele quisesse seguir na seleção, o técnico disse contar com ele no projeto para a conquista da Liga das Nações.
Claro que eu pensava que ele voltaria. Claro que eu pensava em convocá-lo, pensava em conversar com ele. Mas tenho que respeitar. Ele decidiu que era hora de abandonar a seleção. Mais tarde ou mais cedo isso teria que acontecer. Tenho que respeitar, nunca ignorando aquilo que ele foi e é para Portugal, o símbolo que é para os jogadores mais jovens.
Evitando especular sobre os motivos reais da decisão, Jesus preferiu remeter a resposta ao próprio Cristiano Ronaldo.
Tem que perguntar a ele. A certeza absoluta que tenho é que o Cris trabalhou comigo um ano. Fomos felizes, fomos campeões. Eu respeito a decisão dele. Não sei responder o porquê da decisão dele. O que eu sei é que sabia que o momento dele estava próximo, ele que ia escolher. Ele escolheu, então ele pode responder melhor do que eu.
Da homenagem à crise em poucos dias
A relação entre os dois começou com elogios públicos. Cristiano Ronaldo foi titular na estreia de Jorge Jesus no comando de Portugal, na vitória sobre o País de Gales, e chegou a ser chamado de "símbolo de Portugal" pelo técnico em coletiva. O clima virou no jogo seguinte, contra a Noruega: reserva, o camisa 7 fez aquecimento no intervalo, mas não entrou na reta final da partida, vendo Gonçalo Ramos marcar o gol da vitória fora de casa. Irritado, Cristiano deixou o campo assim que o árbitro apitou o fim de jogo.
A situação ganhou contornos de crise com a ausência do atacante no treino seguinte. O presidente da Federação Portuguesa foi até a concentração da seleção para tentar aparar arestas entre jogador e treinador — um encontro que, segundo relatos da imprensa portuguesa, teria sido positivo a princípio. Mas a tensão voltou à tona na coletiva seguinte de Jesus, marcada pelo tema, até a aposentadoria ser anunciada por Cristiano Ronaldo na última quinta-feira, após 23 anos de seleção, 234 jogos e 146 gols — o maior artilheiro da história entre todas as seleções masculinas.
Novo ataque, nova liderança
Com a saída do maior ídolo da seleção, Portugal já esboça uma reorganização de hierarquia. Gonçalo Ramos aproveitou as brechas abertas na última Data Fifa para se afirmar como titular no ataque, com participações diretas em gol nas três partidas em que entrou como titular. Em entrevista no fim de outubro, o atacante de 25 anos não escondeu a ambição.
Quero ser titular na seleção. Passei a mensagem de que se há alguém que deve jogar... sou eu. O Mister e o país inteiro conseguem entender. O importante para mim é que eu jogue.
A camisa 7, símbolo histórico do craque aposentado, já tem dono: Rafael Leão a vestiu na goleada por 4 a 2 sobre a Dinamarca. Na braçadeira de capitão, Bruno Fernandes surge como favorito ao posto de "01", tendo liderado a equipe em duas das últimas quatro partidas, enquanto João Félix — outro discípulo de Jorge Jesus, vindo do período em que os dois trabalharam juntos no Al-Nassr — se consolida como referência ofensiva ao lado de Gonçalo Ramos.
O sonho do milésimo gol muda de endereço
Em setembro, Cristiano Ronaldo havia declarado que gostaria de marcar o milésimo gol da carreira pela seleção portuguesa, chamando o feito de "cereja do bolo" de sua trajetória. Com a aposentadoria antecipada e 985 gols no currículo, a marca histórica deve ocorrer agora pelo Al-Nassr, clube saudita onde o atacante ainda disputa quatro competições na temporada 2026/27 — Campeonato Saudita, Champions League Asiática, Copa do Rei e Supercopa sauditas. A Federação Portuguesa, por sua vez, afirmou ter "firme e enorme vontade" de organizar um jogo de homenagem ao craque, mas sem confirmação de data até o momento.
Com o capítulo Cristiano Ronaldo oficialmente encerrado na seleção, Portugal entra em campo contra a Dinamarca no dia 14 de novembro, em casa, já líder isolado do Grupo D da Liga das Nações com 100% de aproveitamento. Três dias depois, a equipe visita o País de Gales em busca da classificação direta às quartas de final, disputada pelos dois primeiros colocados do grupo.