Inter tem dívida de R$ 120 milhões, dois transfer bans ativos e precisa de R$ 140 milhões até dezembro
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Inter tem dívida de R$ 120 milhões, dois transfer bans ativos e precisa de R$ 140 milhões até dezembro
Conselho Deliberativo ouviu o balanço financeiro do clube na noite desta segunda-feira, no Beira-Rio, enquanto Alessandro Barcellos tenta, em Brasília, destravar uma linha de crédito bilionária para o futebol brasileiro.
O Beira-Rio amanheceu nesta terça-feira sob um peso que não se mede em pontos na tabela. Enquanto o time de Eduardo Baptista corre atrás do resultado dentro de campo para escapar do rebaixamento, a diretoria colorada enfrenta um adversário ainda mais difícil de driblar: uma dívida de R$ 120,3 milhões em transferências, dois transfer bans já em vigor pela Fifa e a urgência de encontrar R$ 140 milhões até o fim do ano só para manter as contas do clube minimamente em ordem. O cenário foi detalhado em duas reuniões realizadas entre domingo e segunda-feira — uma com os candidatos à presidência, outra com o Conselho Deliberativo, no Beira-Rio — e joga luz sobre o tamanho do buraco financeiro que o próximo mandato colorado vai herdar.
A dívida que sufoca o clube
Segundo balanço apresentado na reunião do Conselho Deliberativo desta segunda-feira, o Inter acumula R$ 120,3 milhões em débitos referentes a transferências realizadas desde 2021. Desse total, R$ 58,8 milhões já venceram e ainda não foram pagos, enquanto R$ 61,5 milhões têm vencimento previsto para os próximos meses. A gestão também expôs o histórico de dívidas anteriores a 2021, herdadas pela atual diretoria: eram R$ 192,4 milhões, dos quais R$ 184,1 milhões já foram quitados ao longo dos últimos anos, restando R$ 8,3 milhões em aberto.
Dois transfer bans ativos e mais cinco processos em risco
No campo esportivo, o problema mais imediato tem nome e endereço: Midtjylland, da Dinamarca, e Olympiacos, da Grécia. O Inter está atualmente impedido pela Fifa de inscrever novos jogadores por não ter quitado a contratação do zagueiro Juninho, junto ao clube dinamarquês, e do lateral-esquerdo Ramon, junto ao clube grego. As duas dívidas somam 700 mil euros, cerca de R$ 4,1 milhões na cotação atual.
A situação pode piorar. Há outros cinco processos em tramitação na entidade que rege o futebol mundial, envolvendo valores que somam aproximadamente 6,4 milhões de euros — algo em torno de R$ 38 milhões. Enquanto essas ações não são decididas, o clube corre o risco real de acumular novas punições antes do fim do ano, o que ampliaria ainda mais as restrições para contratar e registrar atletas.
R$ 140 milhões até dezembro: o número que assombra a gestão
O valor mais citado nos bastidores do Beira-Rio nos últimos dias foi revelado pelo presidente Alessandro Barcellos em um encontro informal com os três candidatos à sucessão, na noite de domingo. A reunião foi convocada pelo ex-presidente Fernando Carvalho e reuniu os postulantes Roberto Melo, José Alfredo Amarante e Leonardo Aquino, além do vice-presidente eleito Victor Grunberg, do vice de Finanças Leandro Bergmann e do presidente do Conselho Deliberativo, Gustavo Juchem.
Segundo relatado por Alessandro Barcellos aos três candidatos à presidência, o Inter precisa obter cerca de R$ 140 milhões até o fim do ano para conseguir manter as contas minimamente equacionadas, incluindo os compromissos com o elenco. Alessandro Barcellos, presidente do Inter — em reunião com os candidatos à sucessão
Parte do problema tem origem na ausência de um patrocinador máster desde o fim do ano passado. O contrato com a empresa de apostas que estampava a camisa colorada foi rescindido por inadimplência em janeiro, retirando dos cofres do clube uma receita de pelo menos R$ 50 milhões. Some-se a isso o desempenho abaixo do esperado no mercado de transferências: o orçamento da temporada previa R$ 204 milhões em vendas de jogadores, mas o Inter não atingiu sequer um terço desse valor até agora.
Apesar do cenário apertado, os salários dos jogadores seguem em dia. Isso só foi possível graças a uma doação de R$ 20 milhões feita pelo empresário Delcir Sonda no mês passado, recurso usado para quitar pendências de direitos de imagem e parcelas de um acordo para pagamento do 13º salário de 2025. A necessidade de uma nova injeção de dinheiro, no entanto, segue em aberto para os últimos meses do ano. A possibilidade de recuperação judicial chegou a ser discutida no encontro com os candidatos, mas Barcellos mantém o entendimento de que essa não é, por ora, a melhor alternativa — a diretoria prefere seguir negociando, inclusive na esfera jurídica, para alongar prazos e aliviar o caixa.
Conselho Deliberativo mantém calendário eleitoral
A mesma reunião de segunda-feira, no Beira-Rio, serviu também para decidir uma disputa interna. Por 107 votos a 74, os conselheiros rejeitaram o pedido de Roberto Melo para antecipar em uma semana o segundo turno da eleição presidencial, hoje marcado para 12 de dezembro. O primeiro turno segue confirmado para 9 de novembro, com Melo enfrentando José Alfredo Amarante e Leonardo Aquino. Dos 337 conselheiros do clube, 195 participaram da votação.
A aposta de Barcellos em Brasília
Paralelamente à crise interna, o presidente colorado tenta destravar uma solução de fôlego mais longo. Barcellos é um dos principais articuladores de uma proposta que pede ao Governo Federal a criação de uma linha de crédito de até R$ 20 bilhões destinada exclusivamente à reestruturação de dívidas de clubes de futebol das quatro divisões nacionais. O mecanismo seria criado por Medida Provisória, com recursos do BNDES, prazo de pagamento de até 20 anos e possibilidade de dois anos de carência — sem poder ser usado para salários ou contratações.
A reunião que trataria do tema estava marcada para esta terça-feira, às 15h, em Brasília, com representantes dos ministérios da Fazenda, do Esporte, do Planejamento e das Comunicações. Mas o encontro acabou remarcado na noite de segunda-feira.
O ministro do Esporte, Paulo Henrique Cordeiro, comunicou ao presidente da CBF, Samir Xaud, que a reunião não poderia ocorrer na terça-feira em razão da proximidade da data e da disponibilidade de voos para o deslocamento dos participantes, informando que uma nova data e horário seriam definidos e comunicados com antecedência. Comunicado do Ministério do Esporte à CBF
A proposta ganhou força depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, na última sexta-feira, a Medida Provisória que proibiu a operação de casas de apostas no Brasil — medida que atinge em cheio clubes que tinham bets como patrocinadoras, embora o Inter, hoje, não tenha esse tipo de contrato. Ainda assim, o clube é um dos que mais pressionam pela aprovação da linha de crédito, defendida como forma de trocar dívidas caras e de curto prazo por financiamentos mais longos e baratos. Segundo balanços oficiais, a dívida total dos clubes das Séries A e B do Brasil somava R$ 17 bilhões em 2025 — número que deve crescer ainda mais quando forem fechados os balanços de 2026.
Com o segundo turno da eleição marcado para 12 de dezembro e o prazo para equacionar as contas terminando junto com o ano, o próximo mandato colorado vai começar exatamente onde o atual está travado: entre a necessidade urgente de R$ 140 milhões, o risco de novos transfer bans e a expectativa de que Brasília, mais cedo ou mais tarde, abra as portas para o crédito que o Inter — e boa parte do futebol brasileiro — diz precisar para respirar.