Grêmio vive clima de fim de festa na Arena após vexame diante do Cruzeiro
- Renato nega pedido de demissão, confirma multa a Kannemann e garante volta de Wallace contra o Coritiba
- Grêmio avalia abandonar a Copa do Brasil e diretoria discute mudanças em meio à crise no Brasileirão
- Grêmio desperdiça vantagem dupla, leva 4 a 2 do Cruzeiro e mergulha ainda mais no Z-4
Tem tardes em que o apito final soa como ponto final de uma frase que já não tinha mais pra onde ir. Foi assim no domingo (18) na Arena: mais de 30 mil gremistas que entraram no estádio sonhando com a reação viraram, nos minutos finais, uma plateia de vaias, gritos de protesto e confusão nas arquibancadas. No gramado, o Grêmio perdeu de virada para o Cruzeiro por 4 a 2, sofreu uma expulsão, viu a defesa repetir os mesmos erros de sempre e fechou a 31ª rodada do Brasileirão na 18ª colocação, com 31 pontos — cada vez mais perto de confirmar o que já parece inevitável para boa parte da torcida: a queda para a Série B.
Uma tarde que prometia reação e terminou em crise
A semana tinha sido planejada para ser diferente. O clube promoveu uma mobilização interna, com direito a churrasco no CT Luiz Carvalho, numa tentativa de reaproximar o grupo e segurar o ambiente antes de um jogo tratado como decisivo. E, por uns 25 minutos, pareceu ter dado certo.
Aos 16 minutos, o ganês Amuzu brigou pela bola dentro da área, foi derrubado por Zé Lucas e converteu em pênalti, cobrado e convertido por Carlos Vinícius. O Grêmio abriu o placar e teve seis minutos de alívio — até Gustavo Martins errar a marcação em Kaio Jorge, que ficou cara a cara com Weverton e empatou. Ainda no primeiro tempo, Pavon arriscou de perna esquerda da entrada da área, contou com um desvio de João Marcelo e devolveu a vantagem ao Tricolor. Grêmio 2 a 1 no intervalo.
A segunda etapa foi onde a tarde desandou de vez. Com apenas dois minutos, nova falha da zaga — dessa vez de Diego Caito e Gustavo Martins — deixou Kaio Jorge livre outra vez para empatar. Aos 15 minutos, o mesmo atacante atropelou a marcação e virou o placar para o Cruzeiro. Aos 28, Kannemann foi expulso, e o Grêmio terminou o jogo com um a menos. Seis minutos depois, João Marcelo, aproveitando escanteio desviado por Gerson, fechou a contagem em 4 a 2.
Kaio Jorge (3x) e João Marcelo
Carlos Vinícius (pênalti) e Pavon
Weverton, o único poupado das vaias
Em meio ao time inteiro sendo cobrado, um nome escapou do coro de protestos: o goleiro Weverton, recém-chegado da Seleção Brasileira após a Copa do Mundo. Mesmo assim, terminou a rodada dentro da zona de rebaixamento — o que não aliviou o peso visível no rosto do goleiro.
De chinelos e cara fechada, ele deixou o vestiário e foi direto ao túnel atender dois torcedores que o esperavam. Entregou a camisa a duas crianças, mas não repetiu o gesto que vinha sendo tradição em outros momentos de tensão: levar os próprios filhos para brincar no gramado após o apito final. Só mais tarde reapareceu em campo, de mãos dadas com a esposa.
O suspiro de Renato antes da entrevista
Quem rompeu o silêncio dos corredores da Arena foi o técnico Renato Portaluppi. Antes de sentar na sala de entrevistas, soltou um suspiro longo — like quem sabe que carrega nas costas o peso das expectativas de milhões de gremistas. Na sequência, assim como fez após o último Grenal, voltou a disparar críticas, e poucos escaparam das farpas.
"Sabe como deixaram o clube? O quanto tive que corrigir nesses dias, mesmo sem tanto tempo. Coisas que não há tempo. E precisando do resultado. Eu tenho autocrítica. O Grêmio melhorou em todos os sentidos. Mas varinha mágica ninguém tem. Olha com quem jogamos, sem tempo. E a nossa tabela. Não vencemos, mas não estávamos perdendo. Levamos quatro gols em quatro falhas nossas. Não há quem aguente."
Entre os problemas que diz ter encontrado ao assumir o time — num mês de trabalho que já soma três empates e uma derrota —, Renato citou um jogador que chegou às suas mãos com mais de nove quilos acima do peso ideal, além da lesão de Danilo Barbosa, que ficou três meses parado antes mesmo de ser contratado pelo clube. Para o técnico, trata-se de reflexo direto de falhas no planejamento da direção, não de um problema criado em sua gestão.
Mesmo diante do cenário cada vez mais apertado na tabela, Renato evitou falar em desistência.
"Trabalhar, botar para cima. Sabemos que precisamos vencer para sonharmos em permanecer. Não há segredo. E nessas horas é difícil. Não adianta. É esse grupo que temos e que iremos até o final. Seguiremos lutando. Enquanto tivermos chances matemáticas, iremos lutar. Acreditar."
Da festa de setembro ao protesto de outubro
O contraste chama atenção por si só. No dia 17 de setembro, Renato foi recebido na Arena em clima de euforia, como quem chegava para resolver tudo. Um mês depois, o mesmo estádio reservou a ele e ao elenco a última vaia do dia, enquanto os jogadores se reuniam no meio do gramado. Gritos de "time sem vergonha", protestos direcionados aos dirigentes e confusão nas arquibancadas antecederam a cena. Nos corredores internos, dirigentes e funcionários caminhavam cabisbaixos, sem declarações — o silêncio só foi quebrado pela entrevista do técnico.
O pior em campo
Batido em três dos quatro gols sofridos pelo Grêmio, o zagueiro Gustavo Martins foi apontado como o jogador com pior atuação na avaliação da partida — reflexo direto das falhas que abriram espaço para Kaio Jorge brilhar na Arena.
O que vem pela frente
A matemática segue sendo o único fio de esperança do Grêmio. Restam sete rodadas no Brasileirão, e o resultado desta segunda-feira (19), entre Corinthians e Vitória, pode aumentar ainda mais a distância: se o Corinthians vencer, o Tricolor passa a ver o primeiro time fora do Z-4 quatro pontos à frente, ante os atuais quatro — a diferença salta de um ponto para quatro.
O time folga nesta segunda e retoma a preparação na terça-feira, no CT Luiz Carvalho, de olho na partida contra o Coritiba, no Couto Pereira, onde o Grêmio ainda busca sua primeira vitória como visitante no campeonato. A lista de desfalques preocupa: Kannemann está suspenso, com multa a pagar pela expulsão, e Wallace, que passou por cirurgia para corrigir fratura no nariz, é dúvida. Balbuena, Gustavo Martins e Wagner Leonardo seguem como opções disponíveis para a zaga.
O apito final em 4 a 2 fechou mais do que uma partida: fechou um mês em que a chegada de Renato Portaluppi, recebida com festa, deu lugar a protestos, uma expulsão e o pior cenário possível na tabela. Enquanto o técnico insiste que o grupo seguirá lutando "enquanto houver chance matemática", a Arena já deu seu recado na tarde de domingo — e o próximo capítulo dessa briga pela permanência será escrito longe de casa, em Curitiba.