Fora do Z-4: a reação do Inter de Eduardo Baptista e a ascensão improvável de Kauan Jesus
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Tem um tipo de alívio que não vem de uma vez. Vem em dois atos. O primeiro, Eduardo Baptista viveu ainda sorrindo na sala de entrevistas do Beira-Rio, depois de ver seu time fazer 3 a 0 no Botafogo. O segundo chegou minutos depois, longe das câmeras, quando o apito final em outro estádio confirmou que o Corinthians tinha perdido a virada para o Vasco e caído direto na zona de rebaixamento. Foi assim, entre um gol gaúcho e uma notícia que chegou pelo rádio do carro, que o Internacional deixou o Z-4 do Brasileirão neste sábado, 24 de outubro, pela primeira vez desde que o técnico assumiu o comando da equipe.
O resultado colocou o Inter na 16ª posição, com 35 pontos — dois a mais que o Corinthians, agora no 17º lugar, e quatro a mais que o Grêmio, 18º. A distância para cima também existe: o time está dois pontos atrás do 15º colocado, o Mirassol, e três pontos atrás de Vitória e Vasco, ainda que atrás nos critérios de desempate em caso de igualdade. A boa notícia, repetida por Baptista depois da partida, é que agora o destino do Inter não depende mais de favores externos.
Uma reação que já tem número
A amostra é pequena, mas os números não enganam. Em quatro jogos à frente do Inter, Eduardo Baptista já venceu duas vezes, empatou uma e perdeu outra. A vitória sobre o Botafogo elevou a campanha para sete pontos conquistados nos últimos 12 possíveis — um aproveitamento de 58%. Se o ritmo se mantiver até o fim, a conta fecha a favor do Colorado na briga contra o rebaixamento.
Pela frente, a reta final do Brasileirão reserva três jogos em casa — contra Coritiba, Vitória e Bragantino — e três fora, diante de Fluminense, Vasco e Cruzeiro. São seis rodadas em que o Inter precisa, na prática, confirmar o que vem demonstrando desde a chegada do técnico: intensidade, organização e aquela disposição física que Baptista chama, sem meio-termo, de característica do futebol gaúcho.
"Olhei para o grupo e busquei resgatar a confiança, aumentar a intensidade do time. Sou admirador do futebol gaúcho, da pegada. É nossa característica. Brigamos e jogamos. Criamos as chances e, mais importante, fizemos três gols." — Eduardo Baptista, técnico do Inter
O gol que ninguém esperava encontrar na área colorada
Nenhum manual de lançamento de jovens da base previa isso. Kauan Jesus entrou numa fogueira incrível ao assumir a titularidade do gol do Inter, justamente num momento em que o clube se debatia contra o descenso. A história recente do Beira-Rio está cheia de nomes que pareciam destinados a repetir a trajetória do ídolo Manga e não confirmaram — Daniel, Keiller, o próprio Anthoni. Mas Kauan Jesus vem construindo, atuação após atuação, o tipo de credibilidade que não se mede só pela idade.
Houve uma ironia na forma como ele chegou à titularidade: o Inter estava de olho em Matheus Cunha no mercado quando o garoto, que já estava no Beira-Rio, foi ganhando espaço por dentro. Contra o Botafogo, sem ele, dificilmente o 3 a 0 teria saído. Kauan fez duas intervenções decisivas enquanto o placar ainda estava 1 a 0 e, na segunda etapa, completou com uma defesa de cinema. Ao final da partida, chorou abraçado aos companheiros.
Como o Inter construiu a vitória
O gramado molhado do Beira-Rio definiu o estilo do confronto, e Baptista fez escolhas pensando nisso. Com desfalques por suspensão, o técnico optou por Ronaldo no lugar de Villagra — não por Bruno Henrique — e colocou Bernabei na vaga de Vitinho, deslocando Matheus Bahia para a lateral como forma de proteger o lado esquerdo. A estratégia simplificada funcionou: jogo pelos lados, cruzamento na área para Alerrandro, aposta no jogo aéreo, no rebote e na disputa da segunda e da terceira bola.
O número que resume o domínio físico da equipe é o de desarmes: 22 contra 10 do Botafogo, mais do que o dobro. O Inter não recuou depois de abrir 2 a 0 ainda no primeiro tempo — ao contrário, manteve a postura de pressão até o apito final, fechando a conta em 3 a 0.
"Ainda não resolvemos o nosso problema. Domingo já voltamos a pensar na próxima rodada e em tirar o Inter dessa situação." — Eduardo Baptista, técnico do Inter
O que falta para confirmar a fuga
A conta é direta: faltam dez pontos para o Inter chegar aos 45, marca historicamente associada à permanência na Série A. Isso equivale a três vitórias e um empate nos seis jogos restantes — uma meta exigente, mas longe de impossível para um time que vem de sete pontos nos últimos quatro compromissos. Se vencer os três jogos em casa — Coritiba, Vitória e Bragantino — o Inter dificilmente ficará de fora da meta.
O que muda, a partir deste sábado, é a natureza da disputa. Antes, o Inter dependia de resultados paralelos para sair do Z-4; agora, depende apenas de si mesmo. Ainda enfrentará Vitória e Vasco, os times que hoje o superam na tabela, o que torna esses confrontos decisivos tanto pela pontuação direta quanto pelo efeito psicológico de vencer concorrentes diretos.
O Inter sai do Beira-Rio neste fim de semana com uma sensação que não sentia desde a chegada de Eduardo Baptista: a de que o destino está nas próprias mãos. A campanha ainda é pequena para garantir qualquer coisa, e o próprio técnico já avisou que a cabeça do grupo precisa virar para a próxima rodada assim que o domingo terminar. Mas, entre a affirmação do estilo gaúcho que Baptista tenta implantar e a surpresa de um garoto criado no clube assumindo a camisa 1 em plena luta contra o descenso, o Inter encontrou, ao mesmo tempo, um caminho e um símbolo. Os próximos seis jogos — três em casa, três fora — vão dizer se um e o outro são suficientes.