Eletrochoque até dormir, Kannemann como "alma do grupo" e o aviso de Renato: os bastidores da vaga do Grêmio na final
Enquanto a torcida gremista ainda cantava do lado de fora da Arena MRV, dentro do vestiário da Arena do Galo um lateral mancava sem reclamar. Marlon tinha acabado de deixar o campo no intervalo, sentindo dores que vinham sendo tratadas desde a noite anterior, e mesmo assim seria lembrado pelos companheiros como símbolo da entrega que levou o Grêmio à 10ª final de Copa do Brasil da sua história. O empate em 1 a 1 com o Atlético-MG, neste sábado (7), na Arena MRV, foi suficiente para confirmar a vaga na decisão, já que o Tricolor tinha vencido o jogo de ida por 2 a 0 na Arena. O adversário na final, marcada para 6 de dezembro no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, será conhecido neste domingo (8), quando Vasco e Palmeiras decidem a outra vaga em São Januário.
O sacrifício de Marlon
A história por trás da escalação de Marlon é o retrato mais forte dessa classificação. Na noite de sexta-feira, véspera da partida, o lateral-esquerdo fez um tratamento de eletrochoque por microagulhamento na perna direita que se estendeu até a hora de dormir. No sábado, já na Arena do Galo, o departamento médico aplicou duas injeções extras na tentativa de deixá-lo em condições de entrar em campo.
Mesmo assim, a dúvida sobre sua presença seguiu até o aquecimento. Marlon avisou à comissão técnica que estava em condições de jogar e foi confirmado como titular. Resistiu ao primeiro tempo, mas, na volta do intervalo, não suportou mais as dores e precisou ser substituído por Caio Paulista — que entraria minutos depois para também entrar na história da festa gremista.
A dedicação não passou batida pelo grupo. Mesmo com a saída precoce, Marlon recebeu o carinho dos companheiros e da comissão técnica, e o próprio lateral, já nos bastidores, fez questão de valorizar o nível de entrega dos colegas em um momento decisivo da temporada.
"A gente não joga o futebol mais vistoso, mas fazemos o necessário. Com coração e muita vontade." — Marlon
Renato e os jogadores "desacreditados"
Se Marlon representou o sacrifício físico, outros dois nomes foram escolhidos por Renato Portaluppi para simbolizar a recuperação de jogadores que não vinham sendo aproveitados. O primeiro foi o zagueiro Kannemann, tratado pelo treinador como liderança histórica do elenco.
"Um vitorioso. O Kannemann é um guerreiro. O grupo adora ele, eu adoro o Kannemann. Não é por nada que eu já trabalho com ele há alguns anos. Tem alguns títulos, então ele é a alma do grupo. É um jogador de decisão, um jogador que se entrega totalmente, como os outros jogadores também se entregaram, mas a liderança dele é muito importante." — Renato Portaluppi
O outro nome foi o lateral João Pedro, que havia sido liberado para procurar outro clube e voltou a ganhar espaço depois da lesão de Diego Caito. Renato usou o caso para explicar como vem trabalhando a cabeça do grupo desde que assumiu o comando do Grêmio pela quinta vez.
"Alguns jogadores quando eu cheguei aqui estavam desacreditados. Eu conheço todos eles, e os que eu não conhecia, sabia da capacidade deles. Eu costumo trabalhar assim, juntando o grupo todo, dando moral, passando confiança, falando pra eles as coisas que eles precisam ouvir. Não só o João Pedro, outros jogadores também estavam desacreditados, e hoje estão aí." — Renato Portaluppi
"Isso é Grêmio": o clima no vestiário
Depois do apito final, Renato reuniu o grupo na Arena do Galo com um copo plástico na mão e um recado direto, resumindo o momento em uma frase que correu o vestiário.
"Se vocês ainda não sabiam, isso é Grêmio." — Renato Portaluppi
"A gente sabe a força do grupo quando quer. Tenho conversado bastante com eles, tenho dado bastante moral pra eles, bastante confiança pra eles. Sempre falo que são capacitados de conseguir as vitórias, de conseguir os resultados que nos interessam." — Renato Portaluppi
Quem acompanha a rotina do grupo já havia notado, antes da partida, uma calma fora do comum entre os jogadores. Essa postura serena, que se manteve mesmo sob pressão do Atlético-MG em casa, foi um dos pontos mais elogiados nos bastidores: o entendimento geral é de que a equipe soube executar a estratégia traçada por Renato, e que repetir esse padrão pode ser o caminho para os próximos desafios da temporada.
A tensão acumulada durante os 90 minutos explodiu em festa logo depois do apito final. Os jogadores celebraram com a torcida presente em Minas Gerais, cantaram juntos e se abraçaram em pleno gramado. Caio Paulista, que havia entrado justamente na vaga de Marlon, foi o mais efusivo.
"Rei de Copas!" — Caio Paulista, gritando para a torcida gremista
A comemoração seguiu dentro do vestiário, registrada em vídeos publicados pelo próprio clube, misturando goles de cerveja, abraços e o alívio de quem varou um ano inteiro ameaçado pelo rebaixamento para garantir uma final nacional.
Como foi o jogo que valeu a vaga
Favorito no papel, o Atlético-MG precisava vencer por dois gols de diferença para buscar a vaga nos pênaltis, e por isso pressionou o Grêmio desde o início. A pressão até atrasou alguns minutos o começo da partida, por conta da festa da torcida mineira nas arquibancadas.
O Galo chegou ao gol aos 25 minutos, em chute de fora da área de Renan Lodi. Mas o Tricolor respondeu rápido: aos 37, em cruzamento de Noriega, Carlos Vinícius subiu mais alto que a marcação e cabeceou para empatar, mantendo a vantagem construída na Arena.
No segundo tempo, com a entrada de Fred, o Atlético-MG insistiu em busca do segundo gol, mas encontrou uma marcação gremista mais sólida. Quando conseguiu finalizar com perigo, foi Weverton quem apareceu para salvar o resultado. Nos minutos finais, o zagueiro Vitão foi expulso após falta dura em Braithwaite, selando o 1 a 1 que mandou o Grêmio à decisão.
Carlos Vinícius
Autor do gol do empate, voltou a decidir na Copa do Brasil e foi o destaque da partida segundo a avaliação da própria torcida e imprensa.
Weverton
Decisivo em defesas na pressão do Atlético-MG no segundo tempo, segurando a vantagem construída na ida.
Balbuena e Wallace
Dupla de zaga sustentou a marcação gremista diante da pressão mineira pelos dois gols de diferença.
Noriega
Deu o cruzamento que originou o gol de Carlos Vinícius e teve atuação segura na lateral.
O que vem depois da festa
A classificação para a decisão não apaga o principal desafio do Grêmio em 2026: a luta contra o rebaixamento no Brasileirão. O time ocupa a 18ª posição, com 37 pontos, e tem apenas quatro rodadas para garantir a permanência na Série A antes de voltar a pensar na Copa do Brasil.
A ordem de Renato ao elenco foi clara: descansar, comemorar e voltar pronto para o que o próprio grupo já vem chamando de "último fôlego" da temporada. O técnico aproveitará a folga até terça-feira para também descansar, e a reapresentação do elenco está marcada para quarta-feira, no CT Luiz Carvalho, quando começa a preparação para a sequência decisiva.
Entre eletrochoques, injeções e uma liderança que Renato chama de "alma do grupo", o Grêmio garantiu sua 10ª final de Copa do Brasil carregando no corpo o preço de uma temporada inteira de pressão. Agora, o grupo tem o fim de semana para comemorar — mas a cobrança recomeça já na quarta-feira, quando o foco volta a ser o Bahia, pela permanência na Série A, antes de qualquer pensamento sobre o Mané Garrincha.