Dez anos do golaço de Luan: Grêmio reencontra o Cruzeiro em situação inversa, na luta contra o Z-4
Dez anos é tempo suficiente para uma criança virar adulto, para um treinador trocar de time uma dúzia de vezes e para uma torcida deixar os detalhes de uma noite de glória se misturarem na memória. Mas existem jogadas que o tempo não apaga: a bola batendo na trave e morrendo no fundo da rede, o camisa 7 erguendo os braços, o banco gremista explodindo em festa dentro do Mineirão. Em 26 de outubro de 2016, Luan marcou um dos gols mais bonitos de sua carreira e ajudou a encaminhar o Grêmio para a final da Copa do Brasil daquele ano. Dez anos depois, o Tricolor volta a cruzar o caminho do Cruzeiro — só que agora não é mais para erguer taça, e sim para tentar escapar do fantasma do rebaixamento no Brasileirão.
A noite em que o Grêmio silenciou o Mineirão
O jogo de ida das semifinais da Copa do Brasil de 2016 reunia duas histórias opostas. O Cruzeiro, dono da casa, vinha de 15 anos sem conquistas de peso e carregava a ansiedade de reverter esse jejum. O Grêmio, recém-bicampeão do Brasileirão, chegava a Belo Horizonte sem Renato Portaluppi no banco — o técnico estava suspenso — mas com uma estratégia clara: forçar o time de Mano Menezes ao erro e aproveitar as individualidades para decidir a partida.
O plano funcionou à perfeição. No primeiro tempo, aos 19 minutos, veio o gol que entraria para a galeria do clube. Marcelo Oliveira tabelou com Pedro Rocha pelo lado esquerdo e tocou na entrada da área, onde a bola chegou a Luan. O camisa 7 precisou de apenas dois toques: domínio com o pé esquerdo, ajuste do corpo e finalização de direita, mesmo com três marcadores na frente. A bola bateu na trave e morreu dentro do gol.
No segundo tempo, aos 17 minutos, o Grêmio ampliou. Marcelo Oliveira interceptou um lançamento e acionou Ramiro, que avançou livre pelo meio, viu Douglas passar entre dois marcadores e devolveu a bola para o próprio companheiro concluir a jogada: com categoria, o meia esperou a aproximação do zagueiro Bruno Rodrigo e, de um toque só, encontrou o canto do goleiro Rafael. Grêmio 2 a 0, e o Cruzeiro, sem saber como reagir à tranquilidade do adversário, naufragou em erros.
O início de uma era de ouro — e a queda que veio depois
O título de 2016 não foi um ponto isolado, mas a porta de entrada para o período mais vitorioso da história recente do clube. No ano seguinte, veio a terceira conquista da Libertadores, somada ao bicampeonato da Recopa Sul-Americana e a sete títulos estaduais consecutivos. O Grêmio de Renato Portaluppi, com Luan como principal estrela — ele seria eleito Rei da América em 2017 —, parecia ter resolvido de vez a relação do clube com os troféus.
Mas o futebol não garante linearidade. Em 2021, o mesmo Grêmio que vivera a glória máxima amargou o rebaixamento para a Série B. E é justamente esse fantasma — o da queda — que volta a rondar o clube em 2026, dez anos depois daquela noite mágica no Mineirão.
Grêmio na Copa do Brasil
Bicampeão brasileiro recente, eliminou o Cruzeiro nas semifinais e venceu o Atlético-MG na final, encerrando jejum de 15 anos sem títulos de peso.
Grêmio no Brasileirão
18º colocado, com 31 pontos, a apenas um ponto do primeiro time fora do Z-4. Precisa somar pelo menos mais 12 pontos para se sentir seguro.
Protagonistas de uma noite que não se repete
O autor do golaço
Marcou aos 19 minutos do primeiro tempo com uma finalização de categoria que bateu na trave e morreu no gol. No ano seguinte, seria eleito o melhor jogador da América.
Ausente em 2016, presente em 2026
Estava suspenso para o jogo de ida da semifinal, mas colheu os frutos do título na sequência. Dez anos depois, é o mesmo nome no comando do Grêmio na reta final do Brasileirão.
O Cruzeiro do outro lado da tabela
Se o Grêmio vive a aflição da parte de baixo, o Cruzeiro está em situação oposta. Atual sexto colocado do Brasileirão, o time mineiro tem 48% de chances de conquistar uma vaga na Libertadores de 2027, segundo projeções estatísticas. A Raposa chega para o confronto com o terceiro melhor aproveitamento do returno e como o quinto melhor visitante da competição — fora de casa, somou 6 vitórias, 2 empates e 7 derrotas em 15 jogos. Na temporada passada, inclusive, o Cruzeiro já havia vencido o Grêmio dentro da própria Arena.
Apesar dos números favoráveis, o time de Belo Horizonte também chega pressionado: perdeu para o Bragantino na última rodada e tenta reencontrar o caminho das vitórias justamente diante de um Grêmio que não tem outra opção além de pontuar.
Dez anos depois daquela noite de categoria no Mineirão, o reencontro entre Grêmio e Cruzeiro acontece em um contexto que inverte completamente os papéis de 2016. Se antes o Tricolor era quem impunha o ritmo e caminhava para mais um título de expressão, agora o time gaúcho entra em campo precisando de pontos simplesmente para continuar na Série A. O confronto deste domingo, na Arena, pela 31ª rodada do Brasileirão, não vai decidir taça nenhuma — mas, para o torcedor gremista, carrega um peso que lembra, de forma amarga, o quanto a distância entre a gloria e a aflição pode ser curta no futebol.