Como funciona uma SAF no futebol brasileiro: o guia completo, cinco anos depois da lei que mudou o jogo - FutebolRS
Carregando...

Como funciona uma SAF no futebol brasileiro: o guia completo, cinco anos depois da lei que mudou o jogo

Por: Redação FutebolRS 06/08/2026 Notícias
A Lei da SAF completa cinco anos com 117 clubes brasileiros convertidos ao modelo, mas os cinco grandes do Rio Grande do Sul seguem associativos. Entenda como funciona a lei, quem fica com as dívidas e por que o Caxias pode ser o primeiro gaúcho a mudar.
Como funciona uma SAF no futebol brasileiro: o guia completo, cinco anos depois da lei que mudou o jogo
Especial · Entenda

Como funciona uma SAF no futebol brasileiro: o guia completo, cinco anos depois da lei que mudou o jogo

A Lei 14.193/2021 completa hoje exatamente cinco anos e já transformou 117 clubes brasileiros em empresas. No Rio Grande do Sul, os cinco grandes seguem associativos — mas o Brasil de Pelotas já é SAF desde fevereiro, e o Caxias está mais perto do que nunca de ser o primeiro grande a seguir o mesmo caminho. Entenda o modelo de uma vez por todas.

📍 Rio Grande do Sul 🗓️ 6 de agosto de 2026 ✍️ Redação futebolrs.com.br

Hoje faz exatamente cinco anos. Em 6 de agosto de 2021, o então presidente Jair Bolsonaro sancionou a Lei 14.193, batizada de Lei da SAF, mudando para sempre a forma como o futebol brasileiro pode se organizar. Antes dela, um clube só podia existir como associação sem fins lucrativos — sem dono, sem acionista, sem a possibilidade de vender uma fatia do time para quem quisesse investir pesado. Cinco anos depois, o Brasil já soma 117 clubes convertidos ao novo modelo, entre eles gigantes como Botafogo, Cruzeiro e Vasco. No Rio Grande do Sul, os cinco grandes — Grêmio, Internacional, Juventude, Caxias e Ypiranga — seguem sendo associações tradicionais, com o Caxias mais perto do que nunca de virar exceção. Mas o estado já tem um pioneiro fora desse grupo: o Brasil de Pelotas, que desde fevereiro de 2026 já opera com CNPJ próprio de SAF registrado.

O problema que a lei tentou resolver

Até 2021, os clubes de futebol brasileiros só podiam existir juridicamente como associações civis sem fins lucrativos — a mesma categoria jurídica de um clube de bairro ou uma ONG. Esse modelo garantia isenções fiscais importantes, mas também travava o acesso a investimento externo: ninguém podia comprar uma fatia de um clube, receber lucro proporcional ou assumir o controle acionário de um departamento de futebol. Some a isso décadas de gestões amadoras, dívidas bilionárias acumuladas e pouca transparência na prestação de contas, e o resultado é conhecido — clubes historicamente grandes brigando contra o rebaixamento por falta de planejamento financeiro.

A Lei 14.193/2021 nasceu para destravar esse cenário, criando um novo tipo de sociedade anônima pensado especificamente para o futebol: a Sociedade Anônima do Futebol, a SAF. O objetivo declarado era permitir que clubes endividados regularizassem suas dívidas, atraíssem investidores e adotassem regras de governança mais próximas das de uma empresa comum — sem, no entanto, deixar o modelo obrigatório. A adesão à SAF é sempre uma escolha do clube, aprovada em assembleia.

Três caminhos para virar SAF

A lei prevê três formas distintas de constituir uma SAF, e a escolha do caminho muda bastante o resultado para o torcedor:

Caminho 1

Transformação direta

O próprio clube muda de roupagem jurídica: a associação vira sociedade anônima e os antigos sócios se tornam acionistas. Não nasce uma pessoa jurídica nova, só muda o registro — de cartório para Junta Comercial.

Caminho 2

Cisão do futebol

O modelo mais usado no Brasil até aqui. O departamento de futebol se separa do clube social, criando uma empresa nova só para o time profissional, enquanto a associação continua existindo e dona de parte das ações.

Existe ainda um terceiro caminho, mais raro: a constituição de uma SAF do zero, por iniciativa de um investidor ou fundo, sem vínculo direto com uma associação já existente — útil para quem quer entrar no futebol brasileiro criando um clube-empresa novo. Na prática, porém, quase todos os casos brasileiros seguiram o modelo da cisão: o departamento de futebol vira uma empresa separada, o patrimônio físico e o nome social continuam com a associação civil, e o escudo, as cores e a história seguem sob controle do clube-mãe, que costuma manter poder de veto sobre qualquer mudança nesses símbolos.

O que não muda, em qualquer caminho: a lei garante à associação original direito de veto sobre alterações no nome, no escudo, no hino e nas cores do clube — mesmo depois de vendida a maioria das ações da SAF a um investidor externo.

Quem fica com a dívida?

Esse costuma ser o ponto que mais interessa ao torcedor: as dívidas acumuladas pelo clube antes da SAF continuam sendo responsabilidade da associação civil, não da nova empresa. É esse mecanismo que torna o modelo atrativo para clubes endividados — a SAF nasce "limpa", sem herdar automaticamente passivos judiciais e trabalhistas antigos, o que facilita o desbloqueio de ativos financeiros que antes ficavam presos em disputas na Justiça.

Do lado tributário, a lei também criou um regime especial: nos primeiros cinco anos após a constituição, a SAF paga um tributo unificado limitado a 5% sobre a receita mensal (exceto em transferências de atletas). A partir do sexto ano, essa alíquota cai para 4%. É uma simplificação bem diferente da carga tributária normal de uma empresa comum — um dos principais incentivos para os clubes migrarem.


O tamanho do movimento, em números

Nacional

117 clubes-SAF

É o total de clubes brasileiros já convertidos ao modelo até 2026, segundo levantamento do IBESAF — salto em relação aos 99 registrados em fevereiro de 2025.

Série A 2026

6 SAFs entre 20 clubes

Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Coritiba, Cruzeiro e Vasco disputam a elite do Brasileirão já como clubes-empresa — 30% do total da competição.

O crescimento, porém, perdeu ritmo em 2026. Depois de uma verdadeira corrida entre 2022 e 2025, este ano trouxe uma postura mais cautelosa das equipes tradicionais, com poucos negócios realmente concluídos. Um levantamento recente do Migalhas/IBESAF mapeou 38 dos 60 clubes das três primeiras divisões do Brasileirão que ainda não se tornaram SAF — e o Rio Grande do Sul é o segundo estado com mais clubes fora do modelo, atrás só de São Paulo: cinco equipes gaúchas de expressão nacional (Grêmio, Internacional, Juventude, Caxias e Ypiranga) seguem 100% associativas.

Correção de rota: esse levantamento considera só os clubes das três primeiras divisões nacionais. Fora desse recorte, o Rio Grande do Sul já tem, sim, um pioneiro — veja abaixo o caso do Brasil de Pelotas.

Os cases que viraram referência — e também alerta

Nenhum caso ilustra melhor o poder de fogo do modelo do que o Cruzeiro. Endividado em cerca de R$ 1 bilhão, o clube mineiro teve sua SAF comprada por Ronaldo Fenômeno em 2022, que assumiu 90% do controle acionário e absorveu boa parte do passivo histórico. Em 2024, Ronaldo negociou a venda ao empresário Pedro Lourenço, dono da rede Supermercados BH, em um negócio avaliado em R$ 600 milhões — hoje o Cruzeiro é avaliado em quase R$ 1 bilhão, um salto de valorização puxado diretamente pelo aporte de capital privado.

O Botafogo seguiu caminho parecido: o empresário americano John Textor comprou 90% da SAF alvinegra e bancou contratações pesadas que resultaram no título brasileiro e na Libertadores de 2024 — o auge do modelo. Mas o caso também virou um alerta sobre os riscos: Textor acabou afastado do comando por decisão arbitral em 2026, travou disputa judicial pelo controle das ações e o clube fechou acordo para vender a SAF por R$ 503 milhões em meio à turbulência. É a prova de que o mesmo mecanismo que acelera investimentos pode, sem as salvaguardas certas, gerar instabilidade jurídica para o torcedor acompanhar de fora.

"Eu particularmente não gostaria que o Grêmio virasse SAF, porque eu sou sócio do Grêmio há muito tempo e eu penso que a SAF tira um pouco desse espírito da ideia do associado de o clube pertencer a ele."
— Odorico Roman, presidente do Grêmio

O pioneiro gaúcho: o caso do Brasil de Pelotas

Enquanto os cinco grandes ainda discutem o assunto internamente, quem já atravessou a linha de chegada — pelo menos no papel — foi o Brasil de Pelotas. Em outubro de 2025, os sócios do Xavante aprovaram a transformação em SAF por 193 votos a 1, dando aval ao Consórcio Xavante — formado pelo ex-jogador Emerson Ferreira da Rosa e pelas gestoras Greenfield Partners e VEX Capital — para assumir 90% da nova empresa, batizada Grêmio Esportivo Brasil SAF. Os 10% restantes ficam com o clube associativo, na forma da golden share prevista em lei, que garante poder de veto sobre nome, escudo, cores e hino.

O CNPJ da SAF foi formalizado em 3 de fevereiro de 2026, e o registro foi homologado pela Federação Gaúcha de Futebol e pela CBF em junho — hoje a equipe já aparece oficialmente como "Brasil SAF" nas tabelas de competições oficiais. Só que a história tem um porém: até o fim de julho de 2026, o controle acionário da empresa seguia, na prática, 100% nas mãos do clube associativo, com o Consórcio Xavante operando o futebol via procuração enquanto pendências contratuais não se resolvem. É um retrato realista de como a burocracia da transição pode se estender bem além da assinatura de um contrato inicial — mesmo depois do CNPJ formalizado e do registro homologado, o "dono" de fato da SAF ainda pode não ter assumido as rédeas.

E os gaúchos, afinal?

É justamente esse "espírito do associado" que move o discurso oficial dos grandes clubes do Rio Grande do Sul. O presidente do Grêmio, Odorico Roman, já deixou pública sua preferência por manter o modelo associativo, priorizando o equilíbrio financeiro dentro da estrutura atual em vez de vender o controle a um investidor — embora o clube não descarte formalmente a possibilidade caso a situação financeira mude. No Internacional, no Juventude e no Ypiranga, o tema também é discutido nos bastidores, mas nenhum dos três avançou publicamente com um processo formal até agora.

O Caxias é a exceção que confirma a regra. Como o futebolrs.com.br mostrou recentemente, o clube de Caxias do Sul já contratou uma empresa especializada em auditoria e projeta concluir todo o processo legal de transformação em SAF dentro de 90 a 100 dias — o presidente Roberto de Vargas fala em ter investidores estruturados já em 2027. Se o cronograma se confirmar, o Caxias pode se tornar o primeiro entre os cinco grandes clubes gaúchos a sair da lista de associações tradicionais, abrindo um precedente que o resto do estado vai observar de perto.

O que fica desse retrato, cinco anos depois

A Lei da SAF não obriga ninguém a virar empresa — e os cinco grandes do Rio Grande do Sul seguem, por ora, resistindo ao modelo. Mas o estado já não está mais totalmente de fora do movimento: o Brasil de Pelotas abriu o caminho, ainda que sua transição mostre como o processo pode ficar pela metade mesmo depois do CNPJ formalizado. A experiência nacional expõe os dois lados da mesma moeda: de um lado, capital que pode acelerar décadas de reconstrução financeira em poucas temporadas, como fez o Cruzeiro; de outro, o risco de disputas de controle acionário que ultrapassam os limites do campo, como o Botafogo aprendeu da forma mais dura e como o próprio Brasil de Pelotas ainda tenta resolver. Enquanto Grêmio e Inter seguem apostando no modelo associativo e o Caxias caminha para ser o primeiro dos grandes a testar o outro lado, resta ao torcedor acompanhar se a tradição vai continuar vencendo o apelo do investimento — ou se 2027 vai começar a reescrever essa história.

Compartilhe:

Notícias Relacionadas