Cinco segundos que doeram: por dentro da eliminação turbulenta do Juventude na Copa do Brasil
Cinco segundos que doeram: por dentro da eliminação turbulenta do Juventude na Copa do Brasil
Gol nos acréscimos, nota oficial contra a arbitragem, expulsão de auxiliar técnico e diretor que xingou um repórter no estacionamento resumem a pior noite recente do Alfredo Jaconi. Agora o Verdão vira a chave para a Série B.
Tem derrota que dói só pelo placar, e tem derrota que dói pela forma. A do Juventude na terça-feira foi das segundas. Faltavam cinco segundos — cinco, não cinquenta — para o Alfredo Jaconi respirar aliviado rumo aos pênaltis diante do Atlético-MG. O árbitro já tinha o apito na boca. Aí a zaga alviverde bateu cabeça, a bola sobrou limpa para o equatoriano Minda, e o gol que fechou a eliminação nas oitavas de final da Copa do Brasil transformou uma noite de resistência em uma noite de revolta. O que veio depois — protesto oficial do clube, expulsão de um auxiliar técnico e um diretor xingando um repórter no estacionamento — fez o caso ultrapassar os 90 minutos de jogo.
O jogo que quase não acabou em derrota
Por mais de 10 mil torcedores lotaram o Jaconi para acompanhar o jogo de volta das oitavas, com o Juventude precisando reverter a igualdade da ida. E por 93 minutos e 55 segundos, o time de Maurício Barbieri fez exatamente o que precisava: segurou o investimento pesado do Galo mineiro com organização e um trio defensivo improvisado, formado por Gabriel Pinheiro, Titi e Marcos Paulo, montado às pressas pelas ausências de Rodrigo Sam e Messias.
O primeiro tempo foi de estudo tático, com a trave salvando o Verdão em cabeçada de Cuello e o goleiro Everson brilhando para negar Marcos Paulo e Gabriel Pinheiro na etapa final. A disputa por pênaltis parecia inevitável. Só que, no lance derradeiro, um erro de comunicação entre Gabriel Pinheiro e Nathan Santos deixou a bola livre para Minda bater sem marcação e decretar o 1 a 0 que classificou o Atlético-MG às quartas de final.
R$ 4 milhões a menos
Foi o valor que o Juventude deixou de receber em premiação ao cair nas oitavas. Mesmo assim, o clube fatura R$ 9,6 milhões líquidos com a campanha na Copa do Brasil 2026.
De Guaporé ao susto no Galo
O caminho passou por Guaporé, Tuna Luso, Águia de Marabá e a classificação heroica sobre o São Paulo nas oitavas, que sozinha rendeu R$ 3 milhões aos cofres alviverdes.
A fúria do clube com a arbitragem
Ainda na noite de terça, no estacionamento do Jaconi, o executivo de futebol Lucas Andrino foi até a van que levaria a equipe de arbitragem ao hotel para cobrar explicações do árbitro paulista Flávio Rodrigues de Souza. Um dia depois, o Juventude formalizou o desconforto em nota oficial, questionando os critérios usados nos acréscimos dos dois tempos — inclusive no momento em que a etapa inicial foi encerrada com o time alviverde em posse de bola no ataque adversário.
"O clube entende que houve clara falta de critério na condução dos acréscimos. É imprescindível que critérios sejam aplicados de forma uniforme durante toda a partida, garantindo isonomia e segurança às equipes envolvidas."
A tensão também custou uma expulsão. Diego de Almeida Favarin, auxiliar técnico de Maurício Barbieri e especialista em bolas paradas, foi expulso após protestar de forma exaltada contra o árbitro já no fim do jogo. Segundo a súmula, o profissional dirigiu palavras duras ao juiz da partida.
"Isso é uma vergonha, você roubou a gente hoje, vai tomar no..."
A dor de Barbieri e o discurso da reconstrução
Dentro de campo, o técnico Maurício Barbieri evitou entrar no discurso de injustiça e preferiu falar em aprendizado, mesmo reconhecendo o tamanho do golpe. Para ele, o desempenho da equipe diante de um adversário com orçamento muito superior já era, em si, um dado positivo a ser guardado para o resto da temporada.
"Pagamos caro por um erro bobo no final. Mas tivemos dois bons desempenhos, merecíamos mais do que obtivemos. São coisas do futebol. Não vou falar de justiça e injustiça, a vida nem sempre é justa. É levantar a cabeça, pois o principal objetivo do ano segue em pé: buscar o acesso à Série A."
O treinador ainda recorreu a uma metáfora para explicar a diferença de forças entre os dois clubes, um na Série A milionária, outro brigando pelo acesso na Série B.
"O leão, se entrar dentro do lago para enfrentar o crocodilo, vai ter problema. Com muito esforço, com muita organização, com muita dedicação, conseguimos encurtar e chegar próximo. Uma boa campanha que termina antes do que nós gostaríamos."
Personagens que saem fortalecidos da queda
Mesmo na eliminação, Barbieri encontrou motivos para elogiar peças que ganharam minutos raros nas duas partidas contra o Atlético-MG. O paraguaio Amarilla estreou com a camisa alviverde, Pablo Roberto voltou a atuar após lesão muscular e o zagueiro Titi, que tinha apenas quatro jogos pelo clube antes do mata-mata, aproveitou a chance para se firmar entre os titulares.
"Demonstramos que podemos contar com outras peças que entregaram, que têm condições de dar um rendimento positivo pra gente. É olhar pra essa história, que não teve o final que nós gostaríamos, mas que foi uma história bonita."
O que vem agora
Com a eliminação, o Juventude encerra oficialmente sua participação na Copa do Brasil 2026 e concentra 100% da energia na briga pelo acesso à Série A. Na vice-liderança da Série B com 35 pontos, o time volta a campo no domingo (9), às 16h, diante do Novorizontino, no interior paulista — separado do rival por apenas dois pontos na tabela. A boa notícia é o entrosamento ganho pelas peças reservas nas últimas semanas; a má é a lista de desfalques, com Mandaca fora por lesão muscular e Messias ainda em recuperação. Fica, também, a expectativa sobre eventual punição da CBF ao diretor Adão Marques pela confusão com a imprensa — caso que o clube ainda não se manifestou oficialmente sobre resolver.