Após fala de Renato sobre política, Grêmio reforça orientação a funcionários; suspeito de ato racista no Gre-Nal presta depoimento
O Gre-Nal 455 terminou há dois dias, mas os desdobramentos fora de campo seguem dominando a rotina do Grêmio. Entre um e-mail de cúpula reforçando limites institucionais e uma sala de interrogatório na Delegacia de Combate à Intolerância, o clube tricolor viveu, nesta quarta-feira, dois capítulos que nada têm a ver com escanteios ou substituições, mas que dizem muito sobre o momento do futebol gaúcho.
Direção conversa com Renato e reforça orientação sobre política
Depois da fala de Renato Portaluppi sobre política na coletiva seguinte ao clássico, a diretoria do Grêmio decidiu agir rápido. Na terça-feira, o presidente Odorico Roman esteve no CT Luiz Carvalho para conversar pessoalmente com o técnico e explicar a posição institucional do clube sobre o tema. Segundo apurado pela imprensa gaúcha, o assunto já é considerado encerrado internamente.
Na sequência da conversa, Odorico enviou, ainda na terça, uma mensagem a todos os funcionários e colaboradores do Grêmio reforçando as diretrizes sobre manifestações políticas dentro do ambiente do clube.
"A neutralidade política, no ambiente do Clube, é comportamento determinado tanto no Estatuto Social, quanto no Código de Ética, aos quais estão submetidos conselheiros, dirigentes, colaboradores e associados."
O comunicado não é um fato isolado. O setor de compliance do Grêmio já havia encaminhado orientações semelhantes em setembro, antes do período eleitoral, e o novo e-mail aprofunda o tema em sete tópicos, que vão da exigência de neutralidade institucional até regras para o uso da imagem do clube por parte de quem o representa.
Suspeito de racismo no Gre-Nal presta depoimento
Enquanto isso, em outro endereço de Porto Alegre, a Polícia Civil avançava em uma investigação mais grave. Na manhã desta quarta-feira, o torcedor identificado por um gesto de caráter racista durante o Gre-Nal 455 compareceu à Delegacia de Combate à Intolerância para prestar depoimento. Acompanhado de advogados, ele ficou no local por 35 minutos e deu sua versão sobre o episódio, registrado em vídeo e amplamente compartilhado nas redes sociais no domingo.
A reportagem apurou que se trata de Leonardo Soares Conceição, 29 anos, sócio-torcedor do Grêmio na modalidade Diamante. Ele tem antecedentes por homicídio, tráfico de drogas e brigas de torcida, mas afirmou à polícia não ter vínculo com torcidas organizadas. O inquérito deve ser concluído até esta quinta-feira.
Lucas Bianchi, advogado de defesa de Leonardo, buscou contextualizar o gesto como parte da rivalidade entre as torcidas, sem intenção racista:
"Parte da torcida do Inter se identifica com bandeiras e mascotes relacionados à questão de macaco, e outra parte se sente ofendida. Ele ficou consciente que tem que respeitar esse grupo que se sente ofendido. Ele não associou o gesto ao racismo e não teve o intuito de ser racista. Ele não teve essa capacidade de discernimento, é uma pessoa muito simples, muito humilde, tem dificuldade de se expressar."
Já o delegado Vinicius Nahan, titular da Delegacia de Combate à Intolerância, relatou que o torcedor admitiu o gesto, mas rejeitou a tese de que não houvesse intenção racista:
"Ele estava tranquilo. A principal alegação defensiva é que ele não teve a intenção de praticar racismo. Admitiu que imitou um macaco, mas, para ele, esse gesto é uma forma de provocação à torcida do Inter, dentro dessa rivalidade. Mas as teses defensivas trazidas no interrogatório, ao meu ver, não se sustentam. Há muito tempo não se admite que o termo macaco e o gestual sejam utilizados como provocação à torcida do Inter."
Antes de encerrar o inquérito, o delegado ainda vai analisar as imagens de câmeras de segurança enviadas pelo Grêmio na terça-feira, além de tentar ouvir torcedores que filmaram o episódio dentro da Arena.
Posição do clube
O Grêmio já havia se manifestado publicamente sobre o caso. Em nota, confirmou a identificação do sócio-torcedor, informou que ele foi suspenso preventivamente do Quadro Social e teve o cadastro bloqueado — ficando impedido de frequentar a Arena — e que o caso foi remetido ao Conselho Deliberativo, com abertura de processo na Comissão de Ética e Disciplina, além do encaminhamento às autoridades competentes.
"O Grêmio, enquanto Clube de Todos, reafirma seu compromisso antirracista e sua posição contrária a qualquer tipo de discriminação."
Os dois episódios reforçam uma semana delicada para o Grêmio fora das quatro linhas, justamente num momento em que o time busca reação dentro delas. O empate por 1 a 1 no Gre-Nal 455 manteve tricolores e colorados dentro do Z-4 do Brasileirão, e a tabela não dá espaço para distrações: o Inter encara o Mirassol na sexta-feira (16), enquanto o Grêmio recebe o Cruzeiro no domingo (18), de olho em deixar a zona de rebaixamento antes que a crise extracampo ganhe ainda mais capítulos.