"Um clube sem base não tem alma": vice de futebol do Caxias revela prazo e cobranças para 2027
Tem um tipo de frio que só quem pegou ônibus de madrugada rumo a um campo de terra conhece. Ranielli Cechinato conhece esse frio. Carrega ele desde os tempos de atleta, quando enfrentava barro e chuva a caminho da Linha 80, em Flores da Cunha, para treinar sem nem academia de apoio na volta. Hoje, aos 55 anos, o ex-jogador troca a bota pela cadeira de dirigente e assume a vice-presidência de futebol do Caxias com uma missão de prazo curto e cobrança alta: montar, até 15 de novembro, o elenco que vai defender o Grená no Campeonato Gaúcho de 2027.
O anúncio marca o fechamento de um ciclo de reorganização que o clube vinha conduzindo fora de campo. Com a contratação do executivo Fernando Leite e a confirmação do retorno do técnico Thiago Gomes ao comando técnico, a diretoria centenariana volta agora as atenções para a etapa mais decisiva da temporada: a formação do grupo de jogadores que vai disputar o estadual, com pré-temporada projetada para começar justamente na data-limite de 15 de novembro. O Gauchão 2027, segundo a previsão do clube, deve abrir na rodada do fim de semana de 9 e 10 de janeiro.
A chegada do novo dirigente
Em entrevista à Rádio Gaúcha Serra, Ranielli Cechinato contou os bastidores de sua chegada ao Estádio Centenário. Torcedor declarado do clube, ele já tinha recebido um convite do presidente Junior Santolin em março, mas recusou na época por avaliar que não conseguiria contribuir no meio do processo em andamento. A situação mudou em uma nova conversa, quando o projeto apresentado pela diretoria o convenceu — principalmente pelo compromisso com a reativação das categorias de base, a começar pela equipe sub-20.
— Eu sempre acompanhei o Caxias como torcedor e como profissional. O presidente Junior Santolin já havia me feito um convite em março, mas naquele momento julguei que não conseguiria ajudar o clube no meio do processo. Agora, em uma nova reunião, o projeto me convenceu. Um ponto determinante foi o desejo da diretoria em reativar as categorias de base, a começar pela equipe sub-20. Até falei para o presidente: "um clube que não tem base não tem alma" — Ranielli Cechinato, vice-presidente de futebol do Caxias
Cobrança de postura profissional
Com passagem marcante nos gramados nos anos 1990 e 2000 — período que inclui uma negociação histórica do Grená com o Palmeiras —, Ranielli promete transformar a vivência de vestiário em régua de exigência dentro do departamento de futebol. A proposta é acompanhar de perto o dia a dia da delegação, inclusive em viagens, e não tolerar falta de empenho dentro de campo.
— Quero estar no dia a dia, viajar com a delegação e acompanhar cada detalhe de perto. Pela minha experiência no futebol, não vou aceitar de forma alguma jogador de corpo mole. O torcedor grená pode ficar extremamente tranquilo, pois terá na diretoria um representante que estará no processo do início ao fim, cobrará empenho e fará o melhor pelo clube — Ranielli Cechinato
Do barro da Linha 80 ao celular no vestiário
Ao comparar sua época de atleta com o futebol atual, o dirigente reconheceu que a estrutura física evoluiu — o Caxias hoje conta com campo suplementar ao lado do Centenário, algo impensável nos tempos em que ele enfrentava frio e barro para treinar. Mas, na visão dele, um novo tipo de obstáculo tomou o lugar das dificuldades estruturais: a distração digital.
— Na minha época, as dificuldades de estrutura física eram gigantescas. A gente pegava ônibus para ir treinar na Linha 80, em Flores da Cunha, enfrentando frio, barro e chuva, e não tínhamos nem academia na volta. Hoje o Caxias evoluiu muito com o campo suplementar ao lado do Centenário. No entanto, hoje a dificuldade é outra: a distração com as redes sociais. O jogador chega ao vestiário com o celular na mão e muitas vezes não entra focado na partida. Quero resgatar a essência do comprometimento. Vou exigir postura profissional, consistência, cumprimento de horários e dedicação diária — Ranielli Cechinato
De agente de jogadores a dirigente
A trajetória de Ranielli fora dos gramados também ajuda a explicar a chegada ao cargo. Ele encerrou a carreira de atleta aos 31 anos, em 2002, depois de passar pela quarta cirurgia no joelho e decidir parar após 14 temporadas como profissional. Na sequência, atuou como agente de futebol até 2016, representando atletas e técnicos, até optar por mudar de área diante do desgaste da função. Nos anos seguintes, investiu em cursos de gestão esportiva para se preparar caso surgisse uma oportunidade de peso — que agora se concretiza no Caxias.
— Encerrei minha carreira como atleta aos 31 anos, em 2002, quando precisei encarar a quarta cirurgia no joelho e optei por parar após 14 anos como profissional. Depois, atuei como agente de futebol até 2016. Representei diversos atletas e técnicos, mas me desgastei e resolvi mudar de área. Passei a fazer cursos de gestão para me preparar caso surgisse uma oportunidade real no futebol. Ela chegou agora no Caxias, e estamos trabalhando forte para montar um time que honre o nosso torcedor — Ranielli Cechinato
Fernando Leite
Executivo contratado para estruturar a gestão fora das quatro linhas.
Thiago Gomes
Técnico confirmado para o retorno ao Caxias em 2027.
Com a parte estrutural resolvida — executivo contratado, técnico confirmado e um novo vice de futebol com discurso de cobrança e memória afetiva do clube —, o Caxias entra agora na fase mais sensível do planejamento: tirar nomes do papel e formar um grupo competitivo em pouco mais de três semanas. O Gauchão, previsto para abrir no fim de semana de 9 e 10 de janeiro, vai ser o primeiro teste de quanto esse discurso de profissionalismo e reativação da base se traduz em resultado dentro de campo.