Torcedor do Grêmio é indiciado por racismo e constrangimento de criança no Gre-Nal 455
O apito final do Gre-Nal 455 marcou só um empate por 1 a 1 no placar da Arena, mas o episódio que se seguiu, nos minutos finais daquele domingo, não terminou dentro das quatro linhas. Nesta sexta-feira, a Polícia Civil do Rio Grande do Sul concluiu o inquérito que indicia um torcedor gremista de 32 anos pelos crimes de racismo e de submissão de criança a vexame ou constrangimento, depois de um vídeo mostrar o homem fazendo gestos imitando um macaco em direção à torcida do Inter, com o próprio filho ao lado.
O gesto que virou inquérito
As imagens, que circularam nas redes sociais logo depois do clássico, mostram o torcedor se voltando para o setor ocupado pela torcida colorada e repetindo o gesto associado ao símbolo racista. O caso foi tratado pela Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância, sob responsabilidade do delegado Vinicius Nahan, que colheu o depoimento do investigado na última quarta-feira e fechou o inquérito na manhã desta sexta.
O homem foi identificado como Leonardo Soares Conceição. Em depoimento, ele admitiu ter feito o gesto, mas alegou que a intenção era apenas provocar a torcida rival — uma explicação que a polícia não aceitou como justificativa para o crime.
"A rivalidade esportiva entre as torcidas da dupla Gre-Nal não permite que condutas criminosas sejam praticadas. Atualmente, não se admite que sejam usadas expressões e gestos associando a torcida do Inter a animais, porque essa associação tem um histórico racista. A conclusão desse inquérito mostra que essas condutas, se forem praticadas no espaço público, no ambiente esportivo, serão investigadas e o praticante será responsabilizado criminalmente" — delegado Vinicius Nahan, titular da Delegacia de Combate à Intolerância.
Antecedentes e versão do torcedor
Segundo o apurado pela polícia, Conceição tem antecedentes por homicídio, tráfico de drogas e brigas de torcida. Ele negou qualquer vínculo com torcidas organizadas. O advogado do torcedor foi procurado pela imprensa, mas não respondeu aos questionamentos até a conclusão desta matéria.
Penas previstas e medida cautelar
Racismo em contexto esportivo (art. 20, §2º-A, da Lei nº 7.716/89): reclusão de 2 a 5 anos, além da proibição de frequentar locais destinados a práticas esportivas, artísticas ou culturais por 3 anos.
Submissão de criança a vexame ou constrangimento (art. 232 do Estatuto da Criança e do Adolescente): detenção de 6 meses a 2 anos, por o filho do torcedor estar sob sua guarda no momento do gesto.
O inquérito agora segue para o Poder Judiciário e para o Ministério Público, que vão decidir sobre o oferecimento de denúncia formal contra o torcedor.
A resposta do Grêmio
O clube já havia se movimentado antes da conclusão do inquérito. Na terça-feira, dois dias após o clássico, o Grêmio informou ter identificado o torcedor: ele é sócio da modalidade Diamante e foi suspenso preventivamente do Quadro Social, com o cadastro bloqueado — o que o impede de frequentar a Arena. O clube também abriu processo interno na Comissão de Ética e Disciplina do Conselho Deliberativo.
"O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense informa que concluiu o processo de identificação do torcedor acusado de cometer ato racista após o Grenal do último domingo. Trata-se de um sócio torcedor da modalidade diamante, que já foi suspenso preventivamente do Quadro Social e teve seu cadastro bloqueado, estando impossibilitado de frequentar a Arena do Grêmio. Além disso, suas informações foram remetidas ao Conselho Deliberativo, para abertura de processo junto à Comissão de Ética e Disciplina e às autoridades competentes para completa investigação do caso. O Grêmio, enquanto Clube de Todos, reafirma seu compromisso antirracista e sua posição contrária a qualquer tipo de discriminação" — nota oficial do Grêmio.
Com o inquérito concluído, a palavra final sobre uma eventual denúncia criminal passa a ser do Ministério Público. Nos bastidores do Gre-Nal, o episódio reforça um debate que já é antigo no futebol gaúcho: o limite entre provocação de rivalidade e crime de racismo, algo que a Delegacia de Combate à Intolerância tem tratado como linha vermelha nos clássicos de Porto Alegre.