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Rivais unidos no silêncio: Grêmio e Inter se despedem de Guerrinha

Por: Redação FutebolRS 28/10/2026 Notícias
Inter entra em campo com tarja preta no Maracanã contra o Fluminense nesta quarta-feira, enquanto o Grêmio pede à CBF um minuto de silêncio para o duelo com o Athletico-PR. As duas torcidas se unem para homenagear o jornalista morto aos 70 anos.
Especial · Luto no futebol gaúcho

Porto Alegre e Rio de Janeiro · 28 de outubro de 2026 · Redação

Tem silêncio que pesa mais que qualquer gol, qualquer gritaria, qualquer rivalidade. Nesta quarta-feira, 28 de outubro de 2026, o futebol gaúcho parou por um instante para ouvir essa ausência: Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, morreu de madrugada aos 70 anos, vítima de uma infecção pulmonar que evoluiu para um quadro generalizado. Ele estava internado desde domingo (25) no Instituto de Cardiologia de Porto Alegre. Em resposta, Grêmio e Inter — adversários históricos que raramente concordam em qualquer coisa — se movimentaram no mesmo dia para prestar a mesma homenagem a um homem que, segundo quem o conheceu, falava para as duas torcidas com a mesma seriedade.

Uma voz que atravessava a rivalidade

Guerrinha construiu sua trajetória na Rádio Gaúcha a partir de 1999, quando passou a dividir o microfone com Paulo Roberto Falcão no programa "Falcão na Gaúcha" — atração que teve Romário como primeiro grande entrevistado e que marcou época no jornalismo esportivo do Rio Grande do Sul. Ao longo de quase três décadas, Guerrinha se tornou sinônimo de uma análise direta, irônica e, ao mesmo tempo, respeitosa com o trabalho dos atletas e técnicos que cobria.

Colorado declarado, ele nunca escondeu sua paixão pelo Inter, mas construiu algo raro no futebol gaúcho: o respeito de gremistas e colorados ao mesmo tempo. Uma de suas frases mais lembradas nasceu justamente em um Gre-Nal indireto — em 2018, quando o Inter goleou o Juventude por 3 a 1 e assumiu a liderança do Gauchão, Guerrinha escreveu sobre o desempenho de D'Alessandro que "pifou até o pipoqueiro", expressão que entrou para a história das colunas esportivas do estado.

O adeus de quem trabalhou com ele

Nomes centrais do futebol gaúcho vieram a público lamentar a perda. O técnico Renato Portaluppi destacou o convívio e o profissionalismo do comunicador ao longo dos anos.

"Quero deixar aqui meu abraço a toda a família do Guerrinha, aos seus colegas e a quem sentirá sua falta nos pequenos momentos do dia a dia e também na audiência da Rádio Gaúcha. Ele conquistou o carinho de todos os gaúchos com bom humor, leveza e uma capacidade rara de comunicar. Suas análises diretas e inteligentes farão muita falta. Obrigado, Guerrinha, pelo respeito em nossa convivência. Vai em paz."
— Renato Portaluppi, técnico do Grêmio

O presidente gremista Odorico Roman Júnior também se manifestou, reforçando que Guerrinha soube equilibrar sua torcida pessoal com a isenção profissional.

"Quero manifestar meu pesar pelo Guerrinha, um colorado que era uma pessoa muito afável e muito querida. Falava para as torcidas de Grêmio e de Inter da mesma forma, com a mesma seriedade. E que infelizmente nos deixa. Meus sentimentos aos familiares e aos colegas."
— Odorico Roman Júnior, presidente do Grêmio

Do lado colorado, ídolos históricos relembraram a convivência direta com o jornalista. D'Alessandro, um dos jogadores mais marcados pelas colunas de Guerrinha, falou sobre o tipo de crítica que recebia dele.

"Ele era muito diferente, por isso eu tinha um respeito muito grande por ele. Muitas vezes conversamos em off. Eu tinha uma relação de respeito, porque ele era diferente como jornalista. Criticava, mas de forma construtiva, porque tinha fundamentos e conhecimento demais para falar de um atleta. É um dia triste, porque perdemos um valor importantíssimo no jornalismo gaúcho. É uma perda grande e importante, para o nosso Rio Grande e para o futebol também."
— D'Alessandro, ídolo do Inter

Paulo Roberto Falcão, parceiro de microfone por anos, lembrou do bom humor do amigo e imaginou como Guerrinha gostaria de ser lembrado neste dia.

"Ele dava a piada e ria. Uma figura que deixa uma história que será lembrada para sempre. O fato de ser colorado não impedia que gremistas gostassem dele. Fiquei imaginando o que ele iria dizer sobre hoje. Não é um dia para ser triste, evidentemente para os familiares sim, mas o Guerrinha iria dizer: 'vamos dar risada e falar em coisas boas'."
— Paulo Roberto Falcão, ídolo do Inter

As homenagens em campo

A resposta dos dois clubes veio rápido. O Inter, time do coração de Guerrinha, foi o primeiro a se posicionar: os jogadores que entraram em campo nesta noite de quarta-feira no Maracanã, contra o Fluminense, usam tarja preta no braço. Antes da bola rolar, a partida é aberta com um minuto de silêncio em memória do jornalista.

O Grêmio, por sua vez, formalizou um pedido à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para que também seja feito um minuto de silêncio antes do confronto com o Athletico-PR, marcado para esta quinta-feira (29). O clube aguarda a confirmação da entidade.

"Esse pedido já foi feito e estamos aguardando a decisão da CBF. O Guerrinha era um jornalista respeitado pelas duas partidas. Eram posicionamentos com humor, mas fazia a crítica justa e o elogio também."
— Odorico Roman Júnior, presidente do Grêmio
Inter

Maracanã, contra o Fluminense

Tarja preta no braço dos jogadores e minuto de silêncio antes da partida desta quarta-feira (28/10).

Grêmio

Contra o Athletico-PR

Pedido formal à CBF por um minuto de silêncio antes do jogo desta quinta-feira (29/10).

Segundo a coluna de Diogo Olivier, publicada na GZH, novas homenagens também devem ocorrer no próximo compromisso do Inter no Beira-Rio, contra o Coritiba.

Uma despedida sem lado de campo

O velório de Adroaldo Guerra Filho começou às 14h desta quarta-feira no Crematório Metropolitano, na avenida Oscar Pereira, na Azenha, em Porto Alegre, com cerimônia de despedida prevista para as 19h. Guerrinha deixa a esposa, Kathia, as filhas Michelle e Karine e três netos.

No fim das contas, o que Grêmio e Inter fazem nesta quarta e nesta quinta-feira não é só protocolo. É o reconhecimento de que, por quase 30 anos, um homem conseguiu narrar o Gre-Nal sem nunca deixar de ser ouvido pelos dois lados da arquibancada. A tarja preta no Maracanã e o pedido de silêncio para o jogo contra o Athletico-PR são, talvez, a última crônica escrita sobre Guerrinha — e ele teria, com certeza, achado graça em ser o assunto que uniu rivais por um minuto.

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