One Fan notifica Corinthians e ameaça Justiça por rompimento unilateral após acordo com a Fever
Tem contrato que vira dívida de confiança antes de virar dívida na Justiça. Foi nesse tom que a One Fan, atual gestora da bilheteria e do Fiel Torcedor do Corinthians, enviou nesta sexta-feira (30) uma notificação extrajudicial ao clube do Parque São Jorge. O aviso é direto: se o Timão romper o contrato de forma unilateral para fechar com a Fever, nova empresa que negocia a entrada na tiqueteira corinthiana, a resposta virá nos tribunais.
A notificação foi protocolada no mesmo dia em que o Corinthians formalizou um memorando de entendimento (MOU) com a Fever, movimento que destrava um adiantamento de R$ 50 milhões ao clube e symboliza a tentativa da diretoria de trocar de fornecedor de tecnologia de ingressos. A One Fan, no entanto, alega que tem exclusividade garantida até o fim de 2032 e que foi pega de surpresa — segundo o documento, a empresa só soube da negociação com a concorrente por meio da imprensa.
O que diz a notificação da One Fan
O documento foi endereçado ao presidente Osmar Stábile e a Romeu Tuma Júnior, presidente do Conselho Deliberativo. Nele, a empresa cobra formalmente que o clube não avance com a rescisão do vínculo fora dos termos contratuais, sob risco de consequências jurídicas e até criminais, além de uma possível denúncia à agência reguladora do futebol brasileiro.
A One Fan notifica vossas senhorias e as adverte para que se abstenham de promover a rescisão irregular do contrato, que causaria sérios prejuízos aos milhares de torcedores-consumidores do Corinthians, sob pena de adoção de todas as medidas cabíveis, incluindo o ajuizamento de ação judicial, a fim de manter o contrato em vigor pelo prazo nele estabelecido e as suas disposições, bem como medidas na esfera criminal; a apresentação de reclamação fundamentada perante a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade ao Futebol, e a reparação integral de prejuízos porventura causados. Trecho da notificação extrajudicial enviada pela One Fan ao Corinthians
A empresa ainda afirma que o Corinthians tem valores em aberto há meses, referentes ao reembolso de servidores e à operação de jogos, e diz que vinha sendo tolerante com os atrasos — chegando, inclusive, a ajudar o clube a buscar novos parceiros comerciais para aliviar o caixa.
O acordo que motivou a notificação
Por trás do racha está um negócio robusto. O Corinthians assinou o MOU com a Fever prevendo um contrato de 15 anos de duração, com R$ 50 milhões de adiantamento imediato e linhas de antecipação de recebíveis que podem chegar a R$ 250 milhões, com juros de CDI mais 4% ao ano. A parceria também contempla patrocínio na camisa do clube e um empréstimo subsidiado pela empresa. A indicação da Fever à diretoria partiu de Marcelo Paz, ex-executivo de futebol.
Se o contrato final for assinado, o dinheiro tem destino certo: o clube pretende quitar três meses de direitos de imagem, férias e premiações devidas ao elenco masculino profissional, além de regularizar pouco mais de R$ 19 milhões em débitos com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e duas parcelas atrasadas junto à Câmara Nacional de Resolução de Disputas da CBF. Caso o acordo definitivo não saia do papel, porém, o Corinthians terá de devolver os R$ 50 milhões adiantados.
A busca por uma nova tiqueteira não é novidade. Nos últimos meses, a diretoria corintiana já havia conversado com Ticketmaster e Ingresse sem fechar negócio — a troca de fornecedor é tratada internamente como uma demanda antiga da atual gestão, que avalia que a margem de ganho financeiro com a Fever seria superior à atual parceria com a One Fan.
Os dois lados da disputa
O que a empresa alega
- Contrato de exclusividade válido até dezembro de 2032
- Soube da negociação com a Fever pela imprensa
- Diz ter tolerado atrasos de pagamento do clube
- Avalia multa rescisória em R$ 30 milhões
O que o clube busca
- MOU assinado com a Fever nesta sexta-feira
- R$ 50 milhões de adiantamento imediato
- Considera a multa da One Fan menor que os R$ 30 milhões
- Diretoria se prepara para batalha jurídica
O que vem a seguir: com a notificação formalizada, a tendência é que o impasse entre One Fan e Corinthians caminhe para uma disputa judicial caso o clube decida seguir adiante com a Fever sem um acordo de rescisão amigável. Enquanto isso, a diretoria corintiana segue tentando destravar o caixa do clube — pressionado por dívidas com a PGFN e com a CBF — justamente com o dinheiro que esse novo contrato de tiqueteira prometeria liberar.