Onde o Gauchão também nasce: o interior entra em campo pela Série A2
Onde o Gauchão também nasce: o interior entra em campo pela Série A2
Neste sábado e domingo, 16 clubes de sete cidades do interior gaúcho abrem a temporada 2026 em busca de duas vagas na elite — fruto de semanas de pré-temporada, jogos-treino e apostas na base longe dos holofotes da capital
Tem campeonato que cabe numa manchete e campeonato que cabe numa vida inteira de espera. É desse segundo tipo que volta a rodar neste fim de semana pelo interior do Rio Grande do Sul: neste sábado (1º) e domingo (2), 16 clubes — de Bento Gonçalves a Farroupilha, de Caxias do Sul a Passo Fundo — entram em campo na abertura da Série A2 do Gauchão 2026, a divisão que distribui duas vagas de volta à elite do futebol estadual em 2027. Enquanto os grandes times da capital brigam pelas manchetes nacionais, é nesses estádios menores, de arquibancada de concreto e gramado cuidado por quem também corta a grama do bairro, que se decide quem vai sonhar mais alto no ano que vem.
A fórmula da competição é conhecida: na primeira fase, os 16 clubes se enfrentam em turno único, e os oito melhores avançam ao mata-mata de quartas, semifinal e final, tudo em jogo de ida e volta. Os dois últimos colocados já garantem, de largada, vaga na Série B de 2027. No fim da linha, só dois nomes sobem: campeão e vice-campeão embarcam direto para o Gauchão A1. É um caminho longo — a primeira fase só termina em setembro —, mas para clubes como Farroupilha, Aimoré, Esportivo e Apafut, esse caminho começa exatamente neste fim de semana, e cada um chega com sua própria versão da mesma obsessão: voltar, ou chegar pela primeira vez, à elite.
Um sonho de 34 anos em Farroupilha
Em nenhum lugar essa obsessão é tão antiga quanto em Farroupilha. O Brasil de Farroupilha foi campeão da divisão de acesso em 1992 — três décadas e meia atrás — e nunca mais repetiu o feito de subir ao Gauchão A1. Para tentar de novo, o clube contratou Guilherme Bedin, técnico de 37 anos que ganha aqui seu primeiro comando de um time profissional, depois de anos como auxiliar e trabalhando nas categorias de base. Antes da estreia, o Rubro-Verde usou a Copa FGF como laboratório, mas parou ainda na fase classificatória, somando quatro empates em seis jogos — resultado modesto, mas que serviu para calibrar peças. A estreia na Série A2 chega já no domingo (2), às 15h, no Estádio das Castanheiras, diante do Aimoré.
Estamos ansiosos para começar os trabalhos. Vai ser um campeonato bastante acirrado, é um enfrentamento novo, em turno único. Buscamos a classificação, essa é a nossa meta. E aí, conquistada a classificação, por que não o acesso? — Guilherme Bedin, técnico do Brasil de Farroupilha
O planejamento silencioso do Aimoré
Do outro lado do primeiro duelo está o Aimoré, de São Leopoldo, que tratou a pré-temporada quase como um projeto científico. O trabalho começou em 22 de junho, sob comando do técnico Ariel Lanzini, e passou por três jogos-treino — duas vitórias e uma derrota justamente para o Esportivo — usados menos para o resultado em si e mais para medir a evolução física do grupo. O preparador Lucas Klein conduziu avaliações individuais de cada atleta antes de definir cargas de treino, e reforça que a real prova de fogo só chega agora, com os jogos valendo pontos.
Fizemos avaliações físicas para entender o nível de performance dos atletas. A partir desses dados, conseguimos direcionar melhor o trabalho e desenvolver capacidades como força, potência, velocidade e resistência, sempre integradas ao modelo de jogo proposto pela comissão técnica. — Lucas Klein, preparador físico do Aimoré
Klein é direto ao dizer que a pré-temporada tem limites — e que boa parte do que falta ao elenco só vai aparecer com o ritmo da competição.
Os jogos oficiais trazem exigências difíceis de reproduzir completamente no treinamento. O ritmo competitivo, a intensidade e a repetição de esforços fazem com que os atletas evoluam física e tecnicamente, alcançando uma condição cada vez mais próxima do ideal. — Lucas Klein, preparador físico do Aimoré
Recordes e números que contam a história antes da bola rolar
Antes mesmo da primeira rodada, os números já desenham o retrato de cada clube — quem espera há mais tempo, quem está mais perto e quem chega como novidade completa.
Brasil de Farroupilha
Único título de acesso do clube foi em 1992. Estreia como mandante contra o Aimoré, buscando repetir a façanha depois de mais de três décadas.
Esportivo
Desde a queda do Gauchão em 2023, o Tivo segue tentando o retorno. Em 2025, parou na primeira fase com 11 pontos em 14 jogos.
Apafut
Com apenas dois anos como clube profissional, a Apafut é a grande novidade da divisão — chega vice-campeã da Terceirona 2025.
Aimoré
Pré-temporada iniciada em 22 de junho, com três jogos-treino e avaliação física individualizada de todo o elenco antes da estreia.
Da Terceirona pro profissional: a ousadia da Apafut
Se tem um nome que resume a imprevisibilidade do futebol de interior, é o da Apafut. Fundada há apenas dois anos como clube profissional, a equipe de Caxias do Sul surpreendeu em 2025 ao avançar na Terceirona Gaúcha, eliminar clubes tradicionais do estado e chegar ao vice-campeonato, garantindo vaga direta na Série A2 de 2026. Para a estreia — fora de casa, diante do Passo Fundo, também no domingo (2), às 15h —, o clube manteve a aposta na base jovem da região e reforçou o elenco com contratações pontuais ligadas à estrutura de uma universidade parceira.
A gente tem o objetivo muito claro de se consolidar na divisão. Mas nosso departamento acredita na criatividade, e isso traz nomes que têm um perfil interessante, uma estrutura, da universidade, que dá condições de trabalho. Uma fórmula com bons ingredientes pode trazer efeitos muito positivos. — Hellen Telles, CEO da Apafut
Esportivo: a mesma luta, um novo treinador emprestado da rival
Em Bento Gonçalves, o Esportivo carrega o peso mais antigo entre os quatro: são três anos tentando encontrar o caminho de volta desde a queda de 2023, sempre apostando em atletas da base alviazul reforçados por peças pontuais mais experientes. A curiosidade da rodada de abertura é que o técnico Márcio Ebert comandou o Esportivo em quatro amistosos de pré-temporada — com direito a vitória sobre o próprio Aimoré e empate com o Farroupilha — antes de assumir também o comando do Brasil de Farroupilha, tecendo um fio de bastidor que conecta três dos quatro clubes desta reportagem. Na estreia, sábado (1º), às 17h, no Montanha dos Vinhedos, o Tivo recebe o Guarani-VA, atual campeão da Terceirona Gaúcha — ou seja, quem tenta voltar recebe quem acabou de chegar embalado.
Os jogadores foram chegando durante a pré-temporada. Nessa última semana faremos os ajustes necessários para chegar o mais preparado possível, mas ainda temos um desenvolvimento para acontecer durante o campeonato. — Márcio Ebert, técnico do Esportivo
No fim de semana em que o Beira-Rio e a Arena ainda respiram os resultados do Brasileirão e da Sul-Americana, é no interior que o futebol gaúcho também recomeça — mais silencioso, mais artesanal, mas não menos ambicioso. Farroupilha tenta reviver 1992. Aimoré aposta na ciência da preparação física. Apafut, com dois anos de vida, quer provar que o profissionalismo recente não é obstáculo. E o Esportivo, teimoso há três anos, recebe o time mais badalado da rodada de estreia. Sábado e domingo têm bola rolando em sete cidades — e o torcedor gaúcho já pode escolher qual dessas histórias quer acompanhar de perto até a decisão, lá em outubro.