O gigante do interior: quando o Brasil de Pelotas de 85 parou o Flamengo de Zico e encantou o país
"Aquele jogo ninguém esqueceu até hoje. O Brasil fez uma partida impecável. Foi uma explosão de 22 mil almas no Bento Freitas."
— Artur Chagas, Jornalista e Xavante
A história do futebol gaúcho é frequentemente contada pelas glórias da dupla Grenal, mas em 1985, as cores que tingiram o mapa do Brasil foram o preto e o vermelho de Pelotas. O Grêmio Esportivo Brasil protagonizou uma epopeia que o levou à terceira colocação do Campeonato Brasileiro, superando 41 equipes. Sob o comando de Walmir Louruz, o Xavante desafiou a elite, culminando em uma tarde épica no Bento Freitas contra o Flamengo de Zico, Fillol e Bebeto.
O caminho até o quadrangular decisivo não foi simples. O Brasil avançou como a quarta força de seu grupo inicial, mas foi na segunda fase que o "espírito xavante" se manifestou. Na penúltima rodada, precisava bater o líder Flamengo para assumir a ponta. O cenário era de guerra: estádio superlotado e uma multidão ávida. O Flamengo, favorito absoluto e recheado de craques mundiais, sucumbiu diante da marcação implacável de Lívio e Andrezinho.
O primeiro gol nasceu de uma falha entre Fillol e Mozer. O centroavante Bira roubou a bola e estufou as redes. O Flamengo tentou reagir com a classe de Adílio e Andrade, mas a defesa pelotense suportou o sufoco. No apagar das luzes, Júnior Brasília marcou o segundo, selando o 2 a 0 e carimbando a classificação que seria ratificada em Salvador, contra o Bahia.
Após o triunfo, o desafio foi contra o Bangu. Devido às exigências da CBF, o Brasil mandou o jogo no Olímpico. Mais de 10 mil torcedores viajaram de Pelotas para a capital. Apesar da superioridade em campo, o time gaúcho parou no goleiro Gilmar e acabou derrotado. O sonho da final escapou, mas o reconhecimento nacional estava selado: o Brasil era a terceira força do país.
A campanha de 85 permanece como o padrão ouro para o interior. Bira resume: "A equipe se encaixou e fomos entendendo o campeonato jogo a jogo. Tudo deu muito certo". O Brasil de Pelotas mostrou que, com organização e mística, o interior pode olhar nos olhos dos gigantes sem abaixar a cabeça.
Mesmo décadas depois, o impacto ressoa. Foi um momento em que o futebol premiou a entrega absoluta. O Brasil de 1985 não foi apenas um semifinalista; foi a prova de que o futebol gaúcho é vasto e capaz de produzir capítulos que o tempo jamais apagará da memória do torcedor.
● Gols da vitória de 2 x 0 sobre o Flamengo no Bento Freitas