Mirassol x Inter: Eduardo Baptista reencontra ex-clube em duelo direto contra o Z-4
Tem reencontros que carregam o peso de uma dívida e outros que carregam o peso de uma gratidão. O de Eduardo Baptista com o Mirassol é dos dois tipos ao mesmo tempo. Nesta sexta-feira (16), às 20h, no Estádio Maião, o técnico que ajudou a erguer o projeto do clube paulista a partir do zero volta ao interior de São Paulo agora do lado de fora, comandando o Inter em um jogo que vale muito mais do que três pontos: é confronto direto contra o Z-4 do Brasileirão, pela 31ª rodada, com o Colorado na 17ª posição, com 32 pontos, e o Mirassol logo acima, em 15º, com 33.
Um projeto que Baptista ajudou a nascer
A história começa em 2020, quando o Mirassol ainda disputava apenas o Campeonato Paulista e vivia a pior fase de sua trajetória recente, rebaixado até a quarta divisão nacional. O clube tinha acabado de embolsar cerca de R$ 9 milhões com a venda do atacante Luiz Araújo — hoje no Flamengo, formado na base mirassolense — ao Lille, da França, em 2017. Boa parte do dinheiro foi usada para construir um Centro de Treinamento moderno na zona rural da cidade, com quatro campos, academia e estrutura para até 40 jogadores. Faltava um nome para comandar o projeto dentro de campo.
Eduardo Baptista vinha de uma sequência de decepções. Depois de deixar a comissão técnica do pai, Nelsinho Baptista, para seguir carreira solo, passou por Sport, Palmeiras, Fluminense, Ponte Preta, Vila Nova e CSA sem engrenar. Foi demitido do CSA após uma derrota por 2 a 0 para o CRB, pela Série B. Na sequência, recebeu o telefonema que mudaria sua trajetória.
"Eu senti que precisava buscar um ponto, partir de algum lugar, e aí toca o telefone do Mirassol. O Juninho (Antunes, vice-presidente) me liga e fala em começar um projeto para o Campeonato Paulista. Eu só tinha jogado até então a Série A, mas ele me chamou para almoçar e conhecer o Centro de Treinamentos. Peguei meu carro e fui. Vi o projeto e pensei: 'Se eu rezei pedindo um sinal, ali era o sinal.'" — Eduardo Baptista, técnico do Inter, em entrevista ao canal oficial do clube
O próprio dirigente que fez a contratação lembra do episódio como uma aposta ousada, feita sem dinheiro no caixa e contra a opinião do próprio filho.
"Lembro como se fosse hoje. Eu estava sentado na sala assistindo a um jogo do CSA contra o CRB, pela Série B. O Eduardo treinava o CSA e nós estávamos sem treinador. Ele perdeu de 2 a 0 e foi demitido. Falei que ia trazê-lo e meu filho disse que eu estava louco. Não tínhamos dinheiro. Ofereci contrato de um ano. Começamos a conversar, perguntei quanto ele queria e, quando ouvi a resposta, disse: 'Está ótimo!'" — Juninho Antunes, vice-presidente do Mirassol, à TS Rádio Mirassol
Baptista acelerou o que parecia impossível: em três meses, o Mirassol foi campeão da Série D e subiu para a Série C. O ponto mais simbólico de sua passagem, porém, tem endereço gaúcho. Em março de 2022, já em seu último ato à frente do clube, o técnico comandou a virada por 3 a 2 sobre o Grêmio, então treinado por Roger Machado, na primeira fase da Copa do Brasil — a primeira grande aventura nacional da história mirassolense.
"A classificação contra o Grêmio foi a primeira grande aventura nacional do Mirassol. Pode se dizer que o Eduardo Baptista foi determinante para a mudança de patamar do clube." — Arcílio Neto, repórter da TV Tem (afiliada da Rede Globo)
Na despedida, Baptista resumiu o que havia alcançado em pouco mais de um ano e meio de trabalho.
"Quando vim para cá, tracei como objetivo na minha vida voltar para a Série A. E o Mirassol me proporcionou isso, me dando estrutura, condições de trabalho, carinho e paciência. [...] Hoje consigo atingir meu objetivo e também deixar o Mirassol com o nome marcado nacionalmente como um time, uma cidade que joga futebol. Só tenho a agradecer." — Eduardo Baptista, em sua despedida do Mirassol, em 2022
Depois dele, o clube só cresceu: acesso à Série B ainda em 2022, chegada à Série A em 2024 e, nesta temporada, a inédita classificação à Libertadores. Baptista, por sua vez, seguiu rodando por Juventude, Atlético-GO, pelo rival local Novorizontino e, mais recentemente, Criciúma, até assumir o Inter.
Mirassol: também na corda bamba
O adversário desta sexta-feira não está livre de pressão. Apesar da trajetória meteórica dos últimos anos, o Mirassol ocupa a 15ª colocação do Brasileirão, com 33 pontos — apenas um ponto acima do Inter. A equipe que surpreendeu o Brasil ao se classificar para a Libertadores também corre risco na briga contra o rebaixamento, o que transforma o duelo do Maião em um confronto direto de sobrevivência.
Inter: tabu a ser quebrado
Para o Colorado, o jogo é uma chance concreta de deixar o Z-4 — mas também carrega um incômodo histórico recente. O Inter ainda não venceu o Mirassol nos últimos confrontos entre as equipes. Em 2025, foram um empate por 1 a 1 em Porto Alegre e uma derrota por 3 a 1 no interior paulista. Já nesta edição do Brasileirão, no primeiro turno, o próprio Mirassol venceu por 2 a 1 no Beira-Rio.
É exatamente esse cenário que torna a missão delicada, segundo a análise do colunista Guerrinha, da GZH.
"Mais um desafio. Logo mais, longe de casa, o Inter, invicto nas mãos do técnico Eduardo Baptista, enfrenta o também ameaçado Mirassol. Nesse jogo, tem a obrigação de evitar a derrota para seguir atrás do objetivo de escapar do rebaixamento. Claro que não é nada fácil, mas pelos progressos apresentados nas mãos do novo comandante, um bom resultado contra um inimigo direto está longe de ser inviável para a turma do Beira-Rio." — Guerrinha, colunista da GZH
Alerrandro busca confirmar fase melhor
Um dos nomes a observar em campo é o centroavante Alerrandro, contratado no início da temporada para resolver o ataque colorado e que, até aqui, soma apenas quatro gols em 32 partidas pelo Inter. Os gols ainda não vieram desde a chegada de Eduardo Baptista, mas os números físicos levantados pela reportagem de GZH mostram evolução: nos dois primeiros jogos sob o novo técnico, o atacante teve 71 ações de alta intensidade, percorreu 800 metros nessas ações, somou 205 metros em sprints e atingiu velocidade máxima de 30 km/h.
Alerrandro também participou diretamente de dois dos três gols marcados pelo Inter na era Baptista: deu assistência para o gol de Vitinho contra o Corinthians e, no Gre-Nal 455, pressionou o volante Villasanti e provocou o erro que resultou no gol de cobertura sobre o goleiro Weverton. Contra o Mirassol, o centroavante deve iniciar seu terceiro jogo seguido como titular.
Mirassol e Inter entram em campo nesta sexta-feira (16), às 20h, no Estádio Maião, pela 31ª rodada do Brasileirão. Enquanto o Colorado tenta deixar o Z-4 e, de quebra, superar um histórico recente desfavorável diante do próprio adversário, o Mirassol de Eduardo Baptista — hoje comandado por outro técnico — tenta se afastar da parte de baixo da tabela sem perder a identidade que o levou, em poucos anos, da quarta divisão à Libertadores. No mesmo domingo (18), o Grêmio recebe o Cruzeiro na Arena e o Corinthians enfrenta o Vitória em São Paulo, resultados que também vão pesar na briga do Inter contra o rebaixamento.