Do calor do Piauí ao frio da Serra: Klecivan Zaidan constrói no Recreio da Juventude o caminho para o topo do badminton mundial
Do calor do Piauí ao frio da Serra: a rota de Klecivan Zaidan rumo ao topo do badminton mundial
Instalado no Recreio da Juventude há pouco mais de um ano, o jovem piauiense já devolveu ao Brasil uma final que não se via desde 2021 e agora mira o Mundial Júnior, no Egito
Nem todo caminho até o topo do esporte passa por um gramado. Há pouco mais de um ano, um adolescente deixou para trás os 38°C do Piauí e desembarcou na Serra Gaúcha carregando raquete, malas e um ranking que já o colocava como número 1 do país na categoria sub-17. O nome é Klecivan Silva Zaidan, e a mudança, batizada de aposta calculada por quem o recebeu, vem rendendo ao badminton do Recreio da Juventude um capítulo que o clube caxiense ainda não tinha escrito.
Uma travessia de clima e de carreira
A chegada ao Sul, em agosto de 2025, não foi apenas geográfica. Klecivan trocou um clube que, segundo o head-coach da modalidade no Recreio, Noeslem Lima, vivia dificuldades estruturais, por uma equipe em plena ascensão e com espaço para absorver o talento recém-formado no Nordeste. A urgência, explica Lima, tinha nome e prazo: destravar a carreira internacional do atleta antes que o tempo jogasse contra ele.
— O clube deles lá estava meio ruim das pernas e a gente estava numa crescente muito boa. Eles queriam um lugar para expandir e, principalmente, dar continuidade na carreira. O grande problema do Klecivan era poder sair, ir para um sul-americano, ficar visível em uma seleção brasileira. Ele já estava começando a trilhar esse caminho e a gente sabia da condição que eles vinham — contou o treinador, em entrevista ao programa Show dos Esportes, da Rádio Gaúcha Serra.
A medalha que faltava desde 2021
O investimento começou a dar retorno rápido. No Pan-Americano Júnior de Badminton, Klecivan foi vice-campeão da chave de simples sub-17, resultado que devolveu ao país um lugar em final que não ocupava desde 2021. Antes disso, o próprio atleta soma uma sequência de 24 títulos nacionais consecutivos — números que, para ele, sempre pareceram insuficientes diante do verdadeiro objetivo.
É justamente fora das quadras que mora o desafio mais silencioso da adaptação. Sair do calor constante do Piauí para enfrentar temperaturas negativas na Serra, e ainda assim manter o corpo pronto para viajar logo em seguida a cidades quentes, virou rotina de ajustes finos.
É bem difícil, porque é muita competição, uma em cima da outra, eu tenho que me adaptar com climas diferentes, tentar não ficar gripado quando eu estiver aqui. Quando eu cheguei, fiquei quase um mês resfriado, e já tinha que ir para uma competição em uma cidade quente. Para mim, é muito difícil.
Klecivan Zaidan — atleta de badminton do Recreio da Juventude
Uma família, um mesmo sonho
A mudança para o Rio Grande do Sul não foi solitária. Os irmãos de Klecivan também competem na modalidade e acompanharam a família na virada de estado, dividindo treinos, resultados e a certeza de que a troca não foi em vão. Para o jovem, o Pan-Americano representou mais do que uma medalha pessoal: foi a confirmação de que o projeto migratório fazia sentido.
— É muito gratificante pra eles, de a gente não ter vindo em vão. Antes eu já tinha ganhado uns 24 nacionais seguidos, mas para mim o foco era mostrar desempenho em competições internacionais. E, desde 2021, o Brasil não ganhava nada no Pan-Americano. Vir essa final foi muito importante para o Brasil e para mim. Meu sonho no esporte é chegar no top 10 do mundo e ganhar um Mundial — projetou Klecivan.
O clube como plataforma
Para Noeslem Lima, o crescimento individual do atleta caminha junto com os planos coletivos do Recreio da Juventude, que enxerga no polo interiorano uma chance de se firmar como referência nacional do esporte.
— Eles sabem os objetivos do clube e também têm que ter os objetivos individuais deles. A gente sabe que, se performar bem no clube, os objetivos individuais vêm junto. É maravilhoso eles terem essa ambição. E a gente, do interior do Rio Grande do Sul, sendo referência para o Brasil — são feitos maravilhosos, e dá pra sonhar mais longe com certeza — finalizou o treinador.
Entre a saudade do calor nordestino e a resistência ao frio serrano, Klecivan Zaidan segue construindo, raquetada após raquetada, o argumento de que talento e determinação não reconhecem fronteiras climáticas. O próximo capítulo dessa trajetória já tem data e lugar marcados: o Mundial Júnior de Badminton, no Egito.