Guerrinha, o colorado que o Rio Grande do Sul inteiro chorou perder - FutebolRS
Carregando...

Guerrinha, o colorado que o Rio Grande do Sul inteiro chorou perder

Por: Redação FutebolRS 28/10/2026 Notícias
Adroaldo Guerra Filho morreu aos 70 anos na madrugada desta quarta-feira, deixando um legado raro no futebol gaúcho: a admiração de colorados e gremistas por igual.
Especial
📅 28 de outubro de 2026 📍 Porto Alegre ✍️ Redação

Tem gente que atravessa a rivalidade mais dura do futebol brasileiro sem nunca precisar escolher entre ser querido e ser verdadeiro. Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, foi uma dessas raridades. Colorado assumido desde sempre, morreu na madrugada desta quarta-feira (28), aos 70 anos, no Instituto de Cardiologia de Porto Alegre, onde estava internado desde domingo (25) por uma infecção pulmonar que evoluiu para um quadro de comprometimento geral. A notícia chegou cedo e pegou duro em dois lados que raramente choram juntos: gremistas e colorados.

Comentarista do Grupo RBS, Guerrinha construiu mais de cinco décadas de jornalismo e 27 anos de rádio sem jamais esconder para quem torcia. E, ainda assim, foi um dos poucos nomes do futebol gaúcho capazes de caminhar pela Arena do Grêmio com o mesmo carinho que recebia no Beira-Rio.

Do turfe às redações: uma carreira que começou de lado

A ligação de Guerrinha com o microfone vinha de berço. Filho da funcionária pública Ieda e do rádio-ator Adroaldo Guerra — o Vovô Guerra, apresentador de um programa infantil na Rádio Gaúcha —, ele cresceu perto dos estúdios, mas não imaginava seguir o mesmo caminho do pai. O que o atraía, na verdade, eram as corridas de cavalo.

Foi por essa porta que voltou ao Grupo RBS em 1983, convidado por Emmanuel Mattos para escrever sobre turfe na Zero Hora. Ele próprio contava, com a ironia que marcou toda a carreira, que ganhou a vaga porque ninguém mais queria tocar no assunto. O espaço foi encolhendo até a cobertura hípica acabar, em 1993, e foi então que Guerrinha migrou para o futebol — passando a cobrir o Internacional na Zero Hora e, a partir de 1999, estreando no rádio, onde ficaria por 27 anos.

Idade 70 anos Morreu nesta quarta-feira, após internação desde domingo.
Carreira + de 50 anos De jornalista, entre redações e rádio.
Rádio 27 anos No ar desde a estreia, em 1999.
Origem 1983 Volta ao Grupo RBS, cobrindo turfe.

A voz de "Não me acordem" e do Beira-Rio reconstruído

Guerrinha não ficou só nas transmissões do dia a dia. Em dois momentos, prestou a voz a marcos simbólicos do colorado. Foi ele quem deu vida à crônica "Não me acordem", escrita por Luis Fernando Verissimo para celebrar o título Mundial de 2006 do Internacional — um dos textos mais emocionantes já produzidos sobre o clube. Anos depois, também integrou o espetáculo "Os Protagonistas", que marcou a reinauguração do Beira-Rio.

Fora dos grandes palcos, ficou conhecido pelas frases que viravam repertório popular quase instantaneamente. "Restaurante com ventilador de teto não serve farofa" é uma das mais lembradas pelos ouvintes nos últimos dias. Outra, sobre times badalados: "Ah, eles estão motivados? Então são ruins e vão perder motivados."

O colorado que o Grêmio também amava

O que torna a trajetória de Guerrinha ainda mais rara é justamente o que ele nunca precisou fingir: a torcida pelo Inter era pública, inegociável, repetida em toda análise. E, mesmo assim, ele se tornou figura querida também do lado tricolor — algo raro num estado onde, como lembraram colegas, a rivalidade às vezes separa famílias inteiras.

O comunicador Antônio Carlos Macedo, da Rádio Gaúcha, resumiu essa característica ao lamentar a perda do colega.

"Todo mundo sabia que ele era colorado, mas ele soube transitar tão bem entre gremistas e colorados que era querido e admirado por todos. É uma coisa rara num estado onde a rivalidade muitas vezes separa até famílias." — Antônio Carlos Macedo, Rádio Gaúcha
"Muita gente me diz: 'Sou gremista, mas o que eu gosto lá na rádio é o Guerrinha. Para esse não tem time, ele fala o que vê.'" — Antônio Carlos Macedo

O narrador e colunista Pedro Ernesto Denardin, companheiro de Guerrinha no Sala de Redação, reforçou que a imparcialidade dele não era discurso — era prática, mesmo quando o assunto era o próprio Inter.

"Ele não secava o Grêmio, não falava mal do Grêmio. Fazia uma análise daquilo que via. O time do Grêmio é ruim, o time do Internacional é ruim. Ele fez muita oposição a esta direção do Internacional. Na hora de torcer, sempre torceu pelo Internacional, mas via futebol por ver futebol." — Pedro Ernesto Denardin
"O público ama o Guerrinha. Ele tinha um trânsito completamente normal e muito carinhoso, tanto no Beira-Rio quanto na Arena. Não tinha essa de ele ser colorado e ser hostilizado pelos gremistas. Pelo contrário: ele tirava foto, dava autógrafo, as pessoas se abraçavam nele." — Pedro Ernesto Denardin

Quando Felipão parava o treino

O comentarista Diogo Olivier, parceiro de Guerrinha na Zero Hora e no Sala de Redação, lembrou cenas que mostram o alcance do carisma do colega até dentro do próprio Grêmio. No auge do time tricolor sob o comando de Luiz Felipe Scolari, bastava Guerrinha aparecer para que o treino parasse.

"O Filipão no auge, com o Grêmio campeão de tudo, parando o treino para falar com o Guerrinha. Ninguém entendia isso. Ele era irresistível." — Diogo Olivier

Segundo Diogo, nomes como D'Alessandro, Leão e Dunga tinham reação parecida: interrompiam o que estavam fazendo para trocar uma palavra com o jornalista.

"Um poeta popular"

Mais do que resultados e escalações, o que Guerrinha entregava era síntese. Diogo Olivier definiu essa habilidade como a marca registrada do colega.

"Eu dizia que o Guerrinha, primeiro, era um poeta popular. Ele tinha uma capacidade de perceber a essência de qualquer assunto, não só de futebol, e resumir tudo numa palavra, às vezes até sem vírgula. No dia seguinte, era a frase repetida, o que as pessoas diziam na rua. Era meio encantador." — Diogo Olivier
"Não entra numa discussão com o Guerrinha, porque, mesmo que tu tenhas razão, tu vais perder. Ele vai ter uma frase que todo mundo vai achar com mais humor, com mais graça. Na simplicidade, na beleza de uma frase, ele te liquida. Era um cara irresistível." — Diogo Olivier

Pedro Ernesto resumiu o impacto da perda para o jornalismo esportivo do estado — e deixou um recado sobre quem deve dar sequência ao nome na profissão.

"O Guerrinha foi, sem dúvida nenhuma, uma figura simplesmente extraordinária. Vai deixar uma saudade muito grande. O jornalismo esportivo do Rio Grande do Sul e do Brasil vai perder muito com a ausência dele." — Pedro Ernesto Denardin
"Tem sido um menino realmente espetacular e será, tenho certeza, dentro de pouco tempo, aquilo que o avô dele foi durante tanto tempo no jornalismo da RBS." — Pedro Ernesto Denardin, sobre o neto de Guerrinha, que também trabalha na empresa
Na terça-feira (27), um dia antes da morte, Pedro Ernesto já havia escrito em sua coluna pedindo força para o colega internado: "Em tantos anos de jornalismo, nunca vi uma pessoa tão resiliente como o Guerrinha."

A nota do Internacional

O clube colorado, que Guerrinha torceu a vida inteira e também criticou sem meias palavras quando julgou necessário, publicou nota oficial lamentando a morte do jornalista nas redes sociais, na manhã desta quarta-feira.

"O Sport Club Internacional recebe com profundo pesar o falecimento de Adroaldo Guerra Filho, o Guerrinha, histórico jornalista esportivo gaúcho que nos deixou aos 70 anos de idade. Colorado assumido, o profissional construiu, ao longo de mais de cinco décadas de atuação na imprensa do Rio Grande do Sul, uma trajetória reconhecida por todos e todas no estado. Dono de um estilo irreverente e popular de se comunicar, Guerrinha deu voz à crônica 'Não me acordem', uma das mais emocionantes da história colorada. Redigido por Luis Fernando Verissimo, o texto celebrava a conquista do título Mundial de 2006. Anos mais tarde, Adroaldo também participou do espetáculo 'Os Protagonistas', que celebrou a reinauguração do Beira-Rio. Neste momento de luto, o Clube se solidariza com a comunidade esportiva gaúcha e deseja força aos amigos e familiares do jornalista." — Nota oficial do Internacional

O carinho que atravessou o Gre-Nal

Nas redes sociais, a comoção não teve lado. Torcedores gremistas também publicaram homenagens, repetindo justamente aquilo que os colegas de profissão descreveram: um colorado que criticava o próprio time com inteligência e, por isso, era respeitado até por quem usava o manto tricolor. Um torcedor do Grêmio resumiu o sentimento ao escrever nas redes que Guerrinha "era mais gremista que muitos diretores nossos" em suas críticas pertinentes.

É um tipo raro de legado: o de alguém que nunca abandonou sua bandeira, mas que soube contar o futebol gaúcho para todo o estado — não só para a metade que comemorava com ele.

Guerrinha deixa o microfone depois de 27 anos de rádio e mais de cinco décadas de jornalismo, mas as frases continuam circulando pelas redes e pelas rodas de conversa de bar — exatamente como ele gostava que fosse. A Rádio Gaúcha e o Grupo RBS devem prestar homenagens adicionais ao comunicador nos próximos dias, enquanto o funeral e as despedidas públicas ainda não foram confirmados pela família.

Compartilhe:

Notícias Relacionadas