Guerrinha: a voz que atravessou gerações é velada hoje em Porto Alegre, entre homenagens de Grêmio e Inter
Tem gente que fala de futebol. Tem gente que vive de futebol. E tem gente que se funde ao futebol a ponto de virar parte da própria história do esporte que cobre. Guerrinha foi dessa última espécie. Nesta quarta-feira (28), Porto Alegre perdeu uma de suas vozes mais conhecidas: Adroaldo Guerra Filho morreu de madrugada, aos 70 anos, depois de cinco dias internado no Instituto de Cardiologia tratando uma infecção pulmonar que evoluiu para um quadro generalizado. O velório está confirmado para esta tarde, no Crematório Metropolitano de Porto Alegre, e já reúne homenagens de Grêmio, Inter e da Federação Gaúcha de Futebol — prova de que sua marca ultrapassou qualquer rivalidade.
O velório desta quarta-feira
A despedida de Guerrinha ocorre no Crematório Metropolitano, na avenida Oscar Pereira, 584, bairro Azenha, em Porto Alegre. A cerimônia é aberta ao público das 14h às 19h — antes desse horário, a presença é restrita aos familiares. Ele deixa a esposa, Kathia, as filhas Michelle e Karine, e três netos.
Cinco décadas de Gre-Nal, turfe e um "colorado declarado"
A trajetória de Guerrinha no Grupo RBS começou em 1983, como repórter da Zero Hora. Antes de se tornar um dos grandes nomes do futebol gaúcho, ele cobriu turfe, e só depois assumiu a setorista da dupla Gre-Nal. A paixão pelo Inter vinha de família: os pais já eram colorados, embora o pai, o radialista Vovô Guerra, tivesse mais interesse pelas corridas de cavalo do que pela bola.
Foi em 2002, já como colunista do Diário Gaúcho, que Guerrinha assumiu publicamente a camisa do coração. Ele entrou no "Lance Final", da RBS TV, para contrapor as opiniões do gremista Cacalo, substituindo Ibsen Pinheiro no programa apresentado por Pedro Ernesto Denardin. A manchete do Diário Gaúcho, em agosto daquele ano, resumiu bem o momento: "Tem colorado novo no pedaço".
Todo mundo tem um clube de futebol, uma paixão política e uma religiosa. A diferença é que a maior parte dos jornalistas não revela a paixão clubística. Sempre digo que sou colorado. Isso não impede que eu seja profissional. Não significa que eu não vá dizer que o Internacional está errado quando estiver. Adroaldo Guerra Filho, Guerrinha
Essa postura — torcer abertamente sem abandonar a imparcialidade — foi o que garantiu a Guerrinha um respeito raro no jornalismo esportivo gaúcho. Ele se tornou uma figura querida tanto por colorados quanto por gremistas, numa posição que poucos comunicadores conseguem sustentar por tanto tempo.
O gigante no Beira-Rio reformado
Um dos momentos mais simbólicos da relação de Guerrinha com o Inter aconteceu em abril de 2014, na cerimônia de reinauguração do Estádio Beira-Rio. Convidado a discursar sobre o significado do novo estádio, ele usou palavras que, hoje, parecem ter sido escritas também sobre ele mesmo.
Um gigante de verdade tem que ter vencido grandes desafios, superado expectativas, enfrentado adversidades. Ser gigante é ser respeitado e reconhecido mesmo pelos inimigos. Para ser gigante, tem que se tornar um clássico, fazer parte da história, ser lembrado sempre e por todos. Adroaldo Guerra Filho, na reinauguração do Beira-Rio, 2014
Quando o sistema de som do estádio anunciou seu nome naquele dia, a torcida aplaudiu. Foi, de certa forma, a consagração pública de um colorado que havia conquistado também o respeito do rival.
Grêmio e FGF lamentam a perda
A manifestação do Grêmio, publicada na manhã desta quarta-feira, reforça exatamente esse ponto: Guerrinha era um jornalista colorado, mas reconhecido por todas as torcidas do estado.
O Grêmio lamenta profundamente o falecimento do jornalista Adroaldo Guerra Filho. Com décadas de trajetória na imprensa esportiva, Guerrinha se tornou uma das vozes mais marcantes da história do rádio do Rio Grande do Sul. O futebol é feito por grandes personagens, dentro e fora de campo. Guerrinha foi um deles, deixando sua marca na comunicação esportiva e no esporte gaúcho, respeitado por todas as torcidas. Que sua trajetória seja lembrada com carinho e que seu legado siga presente na memória de todos. Nossa solidariedade aos familiares, colegas e amigos neste momento de enorme tristeza. Nota oficial do Grêmio
A Federação Gaúcha de Futebol também se manifestou, destacando a contribuição de Guerrinha para o jornalismo esportivo regional ao longo de mais de cinco décadas.
Com uma trajetória de mais de cinco décadas no jornalismo, Guerrinha construiu uma carreira marcante na comunicação esportiva do Rio Grande do Sul, reconhecido pelo carisma, pelo bom humor e pela personalidade de seus comentários. Seu estilo irreverente e suas frases marcantes conquistaram ouvintes e leitores de diferentes gerações, deixando uma contribuição importante para a história do jornalismo esportivo gaúcho. Federação Gaúcha de Futebol (FGF)
Uma família dividida — e uma vida sem rancor pela bola
Curiosamente, a paixão colorada de Guerrinha não se propagou para toda a família. As filhas Michelle, jornalista, e Karine, bancária, torcem para o Grêmio. Um dos netos, João Victor Guerra Callegari, seguiu o caminho profissional do avô e hoje trabalha na Rádio Gaúcha, dando sequência a uma tradição familiar de comunicação esportiva que já passa de três gerações.
27 anos de Rádio Gaúcha e mais de 250 frases para a história
Guerrinha passou 27 anos na Rádio Gaúcha, período em que construiu uma identidade única como frasista. O livro "As Mortas do Guerrinha", escrito por Pedro Carvalho Baldi, reúne mais de 250 declarações históricas do comunicador. Entre elas, dez entraram para o imaginário popular do futebol gaúcho:
"Restaurante com ventilador de teto não serve farofa."
"Não se vai pra guerra com uma escova de dentes."
"O time vai jogar motivado? Então vai perder motivado."
"Se caminhar fosse bom, carteiro não morria."
"Precisa acertar o tiro no ânus do mosquito."
"A última calcinha que eu vi foi a da vizinha. No varal."
"Não dá pra comer banana e assoviar ao mesmo tempo."
"O pianista é no piano. O guitarrista é na guitarra."
O "Paredão do Guerrinha" e uma década de entrevistas históricas
Além do rádio, Guerrinha construiu nos últimos dez anos um espaço só dele de conversa com os grandes nomes do futebol gaúcho: o "Paredão do Guerrinha". No formato de "papo de bar", o programa recebeu figuras como Dunga, Falcão, Geromel, Luan, D'Alessandro, Lucas Leiva, Abel Braga, Maicon, Sobis e seu grande amigo Pedro Ernesto Denardin — um retrato de como Guerrinha conseguia reunir, numa mesma bancada, ídolos de Inter e Grêmio sem que isso fosse estranho a ninguém.
D'Alessandro revelou brigas com rivais e árbitros e detalhes da relação com treinadores e direções coloradas.
Pedro Geromel contou como conquistou a confiança da torcida tricolor.
Abel Braga, considerado por muitos o maior técnico da história do Inter, falou sobre o Brasileirão de 2020.
Luan, antes de ser eleito Rei da América em 2017, também passou pela bancada do programa.
Nesta quarta-feira, enquanto Porto Alegre se despede de Guerrinha no Crematório Metropolitano, fica evidente o tamanho do espaço que ele ocupava no futebol gaúcho. Colorado assumido, mas aplaudido pelo Beira-Rio e lamentado pelo Grêmio na mesma manhã, ele deixa um legado de décadas de rádio, frases que se tornaram parte do vocabulário popular e entrevistas que registraram a história viva do Grenal. Guerrinha se tornou, como ele mesmo definiu um dia referindo-se ao Beira-Rio, aquilo que todo clássico precisa ser: lembrado sempre, e por todos.