Grêmio sobe ao teto do mundo para desafiar o Bolívar pela repescagem da Sul-Americana
Grêmio sobe ao teto do mundo para desafiar o Bolívar pelos playoffs da Sul-Americana
Tricolor viaja a La Paz, a 3.650 metros de altitude, para o duelo de ida diante de um adversário que faz do ar rarefeito sua principal arma
Existe um tipo de silêncio que só se ouve acima dos três mil metros. O ar fica mais fino, os pulmões trabalham em dobro e até a bola parece se mover diferente. É nesse silêncio de altitude que o Grêmio vai mergulhar nesta quinta-feira (23), às 19h30min (de Brasília), quando visita o Bolívar no estádio Hernando Siles, em La Paz, pelo duelo de ida dos playoffs da Copa Sul-Americana. Uma vaga nas oitavas de final está em jogo, mas antes disso o Tricolor terá que vencer o próprio ar.
Um caminho que já começa complicado
O sorteio não foi gentil. Depois de terminar a fase de grupos em segundo lugar no Grupo F, com 11 pontos, o Grêmio caiu nos playoffs contra um Bolívar que vem justamente da Libertadores — terceiro colocado do Grupo C, com cinco pontos — e que conhece cada centímetro da vantagem que a altitude boliviana oferece contra visitantes.
A história recente não anima o torcedor gremista. Em quatro jogos disputados acima dos três mil metros, o Tricolor venceu apenas uma vez e perdeu as outras três. A última visita à Bolívia foi em 2024, quando o Grêmio caiu por 2 a 0 para o The Strongest, pela fase de grupos da Libertadores, num jogo em que o então técnico Renato Portaluppi optou por poupar titulares. Contra o próprio Bolívar, o retrospecto também dói: em 2003, já classificado às oitavas da Libertadores daquele ano, o Tricolor perdeu por 1 a 0 no mesmo Hernando Siles. Um ano antes, em Cuzco, no Peru, a queda foi diante do Cienciano, por 2 a 1. A única alegria em solo altiplano aconteceu lá atrás, em 25 de março de 1983 — justamente o ano do primeiro título da Libertadores —, quando o Grêmio venceu por 2 a 1 na estreia da fase de grupos daquela campanha histórica.
Grêmio chega sem peças importantes
Depois da derrota para o Mirassol na retomada do Brasileirão, o Grêmio vira a chave para o torneio continental já sabendo que vai precisar remendar o time. Carlos Vinícius, artilheiro do setor ofensivo, cumpre suspensão de dois jogos aplicada pela Conmebol após a expulsão no empate por 2 a 2 com o Montevideo City Torque, e por isso é desfalque certo. A tendência é que Braithwaite herde a titularidade do ataque.
Amuzu é outra baixa: o atacante segue no protocolo de concussão da CBF e não deve ser liberado para viajar. Para completar o quadro de dificuldades, o Grêmio não conseguiu inscrever a tempo os reforços Diego Caito e Jovane Cabral para a disputa da repescagem — os dois só poderão entrar em campo pela competição caso o clube avance de fase.
Já Gabriel Mec segue sendo uma das poucas certezas na equipe titular. Mesmo em meio à novela do interesse do Shakhtar Donetsk — a venda por 12 milhões de euros está travada por causa de uma bonificação extra pedida pelos empresários do jogador —, o meia-atacante foi titular na derrota para o Mirassol e deve manter a posição também em La Paz.
Logística para driblar o ar rarefeito
Ciente do que a altitude de 3.650 metros pode causar no corpo dos atletas, a diretoria gremista montou uma logística especial. A delegação embarcou na tarde desta quarta-feira para Santa Cruz de la Sierra, cidade boliviana a apenas 400 metros de altitude, onde vai ficar hospedada. Só na quinta-feira o grupo faz o deslocamento final até La Paz, numa viagem de cerca de uma hora em voo fretado até o aeroporto de El Alto — chegando poucas horas antes da bola rolar. Encerrada a partida, o retorno a Porto Alegre também será imediato, em voo fretado.
Bolívar: o adversário que faz da altitude uma arma
Do outro lado, o Bolívar chega embalado justamente pela vantagem de jogar em casa, na altura que domina como poucos times do continente. Vindo de uma campanha discreta na fase de grupos da Libertadores, a equipe boliviana sabe que o resultado do jogo de ida pode ser decidido menos pela qualidade técnica e mais pelo desgaste físico que impõe a quem chega de fora.
O dilema de Luís Castro
Questionado sobre qual prioridade o clube vai dar à Sul-Americana neste momento da temporada, o técnico Luís Castro preferiu não cravar uma resposta direta, mas deixou claro onde está o verdadeiro foco do Grêmio em 2026.
"A dimensão do Grêmio não nos permite abdicar de competições. O prestígio do Grêmio e a dimensão do Grêmio nos obriga a lutar por todas as competições. Eu, enquanto treinador, acredito que o objetivo fundamental é o Brasileirão. É nele que reside o nosso grande foco. É ali que nós jogamos muito do que é o futuro e o presente do Grêmio. A Copa do Brasil é outra grande competição e prestigiada do Brasil, e que nós queremos muito seguir em frente. A Sul-Americana vamos nos atirar aos jogos em função de como estaremos nas duas competições que damos mais importância."
A fala reforça a leitura de que o Grêmio pode poupar peças em La Paz, de olho no duelo direto contra o Fluminense, já no domingo (26), pela 20ª rodada do Brasileirão — um jogo que pode significar a saída da zona de rebaixamento ou a permanência dentro dela.
Onde assistir
A partida tem transmissão exclusiva na TV fechada, pelo Paramount+. No rádio, a Rádio Guaíba abre a jornada da decisão a partir das 18h30min. O site do futebolrs.com.br também vai acompanhar o confronto em tempo real.
Bolívar x Grêmio
Ida dos playoffs da Sul-Americana · Estádio Hernando Siles, La Paz
Quinta-feira (23), 19h30min
Transmissão: Paramount+ e Rádio Guaíba (18h30min)
Se depender da história, o Grêmio sobe a serra boliviana como azarão. Mas o Tricolor já provou, em 1983, que é possível respirar fundo, encarar o ar fino e sair de La Paz com um resultado para contar. Resta saber se Luís Castro vai arriscar força máxima ou preservar o time pensando no Brasileirão — a resposta só vem minutos antes da bola rolar no Hernando Siles.