Grêmio perde para o Mirassol, mergulha na crise e Odorico Roman promete até cinco reforços para fugir do Z-4
Grêmio perde para o Mirassol, mergulha na crise e Odorico Roman promete até cinco reforços para fugir do Z-4
O Maião recebeu de volta um Grêmio que parecia ter deixado os fantasmas do primeiro semestre na bagagem das férias. Não tinha. Na noite de sexta-feira (17), pela 19ª rodada do Brasileirão, o Tricolor voltou a campo depois de 48 dias de intertemporada e apanhou do Mirassol por 2 a 1, no interior de São Paulo. O resultado empurra o time de Luís Castro para a 16ª posição, com 21 pontos, apenas um à frente do Vasco, primeiro time do Z-4. Antes da bola rolar, o discurso era de reação. Depois do apito final, sobrou indignação — e a promessa de que o mercado da bola vai precisar resolver o que o elenco atual não consegue.
Um recomeço que parecia o fim do primeiro turno
Desde o primeiro minuto, o roteiro incomodou a torcida gremista. O atacante Alesson perdeu a primeira chance clara do Mirassol logo de cara, e o time paulista seguiu no controle. Aos 15 minutos, Igor Formiga cruzou da direita e Bruno Santos, estreando com a camisa do Leão Caipira, completou de carrinho para abrir o placar. Weverton, que havia acabado de retornar da disputa da Copa do Mundo com a Seleção Brasileira, ainda tentou uma defesa, mas nada pôde fazer.
O Grêmio respondeu aos 24 minutos, quando Tetê recebeu lançamento, driblou Reinaldo e bateu de perna esquerda. Walter defendeu no meio do gol. Foi o momento de maior perigo tricolor na etapa inicial. Aos 35, o time gaúcho teve uma vantagem numérica: Denilson puxou Gabriel Mec por trás e foi expulso pelo árbitro Bruno Arleu, mas o VAR revisou o lance e reduziu a punição para cartão amarelo.
A vantagem durou pouco. Momentos depois, após cobrança de falta mal batida por Amuzu, veio a sequência que resume a fragilidade gremista da noite: Kannemann desarmou dentro da área, Pavon tentou um passe de calcanhar e devolveu a bola para o Mirassol, Villasanti não conseguiu recuperar, Caio Paulista demorou para fechar o espaço, e Edson Carioca tocou na saída de Weverton para fazer o segundo. Intervalo com 2 a 0 no placar e um Grêmio irreconhecível em campo.
Castro fez quatro mudanças para o segundo tempo — mas nem todas por opção tática. Amuzu sofreu um choque de cabeça, entrou no protocolo de concussão e precisou deixar o Maião de ambulância, substituído por Willian. Caio Paulista, Villasanti e Gabriel Mec também saíram, dando lugar a Pedro Gabriel, Leo Pérez e Braithwaite. O Tricolor melhorou pouco, mas encontrou uma luz: aos 32 minutos da etapa final, Carlos Vinícius aproveitou cruzamento de Pavon para descontar, em um contra-ataque que foi a única alegria gremista na noite. Não foi suficiente. O apito final confirmou a derrota por 2 a 1.
Destaques individuais: poucos passaram ilesos
Na Cotação ZH, ninguém do Grêmio passou da nota 6. Tetê (5,5) e Carlos Vinícius (5,5) foram os melhores em campo, participando diretamente das duas jogadas de maior perigo tricolor. No lado oposto, Caio Paulista foi o pior em campo, com nota 3, alvo direto das críticas por ter sido escalado no lugar do jovem Pedro Gabriel — que, aliás, entrou no intervalo e foi o defensor mais bem avaliado da equipe. Kannemann também decepcionou, com nota 3,5, mesma nota do técnico Luís Castro.
Foi justamente a manutenção da dupla Kannemann–Caio Paulista na lateral esquerda da defesa que Castro tentou justificar depois do jogo. A decisão repetia a escalação usada no amistoso vitorioso contra o Cruzeiro, mas não deu certo: o setor virou avenida para o ataque do Mirassol, que teve em Edson Carioca — livre da marcação de Caio Paulista — o principal nome da vitória.
— No primeiro tempo fomos uma equipe que ficou aquém daquilo que é a competitividade de um jogo e do que devemos fazer. São contextos diferentes, e neste jogo deveríamos ter ainda mais responsabilidade para competir mais — explicou Luís Castro, sobre a atuação do time no Maião.Luís Castro, técnico do Grêmio
— É preocupante. O desempenho ao longo da temporada tem vindo a ser esse. Internamente temos falado muito.Luís Castro, técnico do Grêmio, sobre o rendimento irregular no ano
Depois de 30 minutos de atraso — motivados por uma forte cobrança no vestiário —, Castro apareceu abatido para a entrevista coletiva. Ele reconheceu que a repetição da escalação buscava dar confiança ao grupo, mas admitiu o tropeço.
— Tivemos uma atuação muito aquém das nossas expectativas. Quisemos dar confiança à equipe ao repetir o time. Não foi o que aconteceu. Demos passos para trás.Luís Castro, técnico do Grêmio
Escalações
Mirassol: Walter; Igor Formiga, João Vitor, William Machado e Reinaldo; Neto Moura, Denilson e Eduardo; Alesson, Edson Carioca e Shaylon. Técnico: Rafael Guanaes.
Grêmio: Weverton; Pavon, Gustavo Martins, Kannemann e Caio Paulista; Villasanti, Nardoni e Gabriel Mec; Tetê, Amuzu e Carlos Vinícius. Técnico: Luís Castro.
Gols: Bruno Santos (15/1ºT) e Edson Carioca (38/1ºT), para o Mirassol; Carlos Vinícius (32/2ºT), para o Grêmio.
Cartões amarelos: Denilson (Mirassol).
Arbitragem: Bruno Arleu de Araújo, auxiliado por Carlos Henrique Alves de Lima Filho e Thayse Marques Fonseca. VAR: Paulo Renato Moreira da Silva Coelho.
Local: Estádio José Maria de Campos Maia (Maião), Mirassol (SP).
Direção sobe o tom: as peças que temos não são suficientes
Se dentro de campo o Grêmio repetiu os erros do primeiro turno, fora dele o discurso mudou de tom. Depois da coletiva de Castro, foi a vez do executivo de futebol Paulo Pelaipe e do presidente Odorico Roman falarem com a imprensa — e o recado, dessa vez, veio direto ao ponto: o elenco atual não dá conta do recado, e reforços vão chegar.
— A minha avaliação é que talvez as peças que temos disponíveis não sejam suficientes para corrigir esses problemas. A nossa expectativa é que nessa janela consigamos entregar peças para isso. Nós devemos acrescentar o plantel em torno de cinco jogadores.Odorico Roman, presidente do Grêmio
Roman classificou os problemas do time como crônicos e foi direto ao afirmar que o clube não tem orçamento para grandes contratações, mas busca um perfil específico de reforço.
— Não temos orçamento para contratações de grande vulto, mas a principal característica que buscamos é indignação.Odorico Roman, presidente do Grêmio
Pelaipe, por sua vez, descartou qualquer movimento para tirar Luís Castro do comando técnico, mesmo com a sequência de resultados ruins.
— Estamos envergonhados pelo primeiro tempo. Tenho certeza que os atletas também estão. Sabemos das dificuldades que temos, não escondemos isso do torcedor. Uma troca de treinador não é a solução. O Grêmio não vai fazer loucuras em contratações. Estou sendo honesto: a maior contratação da história do clube será manter os salários em dia até o final do ano.Paulo Pelaipe, executivo de futebol do Grêmio
Os próximos passos no mercado
A crise em campo acelera o que já era planejado nos bastidores. O Grêmio abre a janela de transferências com dois reforços já anunciados: o zagueiro Wallace, ex-CRB, e o centroavante Matheus Nascimento, que estava no LA Galaxy. Nenhum dos dois, porém, entrou em campo contra o Mirassol — ainda não estavam em condições legais de jogo.
Além da dupla já confirmada, o clube caminha para fechar com o lateral-esquerdo Diego Caito e o meia-atacante Jovane Cabral, com acordos encaminhados, e trata a possível antecipação da chegada de Mandaca, que teria assinado pré-contrato para desembarcar no Grêmio mais cedo do que o previsto. Some-se a isso a fala do presidente Odorico Roman projetando quatro, talvez cinco reforços ao todo — o que deixa espaço para pelo menos mais um anúncio na sequência da janela.
O nome que mais mobilizou o torcedor nos últimos dias, porém, ficou pelo caminho. O Grêmio recuou na negociação pelo zagueiro argentino Nicolás Valentini, de 25 anos, da Fiorentina, que estava emprestado por empréstimo com opção de compra. O motivo foi a pedida salarial do jogador, considerada alta demais para o novo momento financeiro do clube. A porta não está fechada — o Tricolor mantém boa relação com o clube italiano depois da venda de Villasanti — mas só há espaço para retomar as conversas se Valentini reduzir suas pretensões. Enquanto isso, o departamento de futebol já monitora outros nomes no mercado, dentro do que classifica como nova realidade financeira do clube, e chegou a sondar um segundo zagueiro também ligado à Fiorentina.
Até a chegada de um novo nome para o setor, o técnico Luís Castro segue com Kannemann e Wagner Leonardo como opções para o lado esquerdo da zaga — justamente a dupla que, na função de titular ao lado de Caio Paulista, foi um dos pontos de maior fragilidade contra o Mirassol.
Análise: o time que a diretoria monta não é o time que está jogando
É aí que mora o paradoxo gremista neste momento: enquanto a diretoria discute reforços e prazo de contratação, o time que está em campo segue sem resposta. A repetição da escalação do amistoso contra o Cruzeiro, decisão de Castro para dar confiança ao grupo, terminou em desconfiança redobrada. Villasanti, recém-recuperado de lesão, ainda não emplacou o ritmo de jogo. Kannemann, símbolo de uma era vitoriosa do clube — completou 10 anos de Grêmio na quarta-feira antes do jogo —, hoje enfrenta o desgaste físico que o tira do nível que sustentou ao lado de Geromel em títulos importantes da década passada.
O aproveitamento gremista na primeira metade do Brasileirão foi de 36,8%, número típico de time em zona de rebaixamento. Como visitante, foram apenas quatro pontos em dez jogos — nenhuma vitória, quatro empates e seis derrotas, com só seis gols marcados e 14 sofridos. É esse histórico que sustenta a urgência da diretoria em reforçar o elenco antes que o calendário aperte de vez.
O que vem por aí
O Grêmio não tem tempo para lamber as feridas. Na quinta-feira (23), o time viaja a La Paz para enfrentar o Bolívar, na Bolívia, pelo jogo de ida do playoff das oitavas de final da Copa Sul-Americana. Depois, no domingo (26), volta a campo pelo Brasileirão diante do Fluminense, na Arena, em Porto Alegre — compromisso decisivo para tentar sair da vizinhança do Z-4 antes que a distância para a zona de rebaixamento diminua ainda mais.
Enquanto isso, os próximos dias devem ser de movimentação intensa no mercado. Com a janela de transferências aberta, a expectativa é que o Grêmio anuncie novos nomes a qualquer momento, na tentativa de dar a Luís Castro as peças que, segundo o próprio presidente do clube, o atual elenco não tem sido capaz de entregar dentro de campo.
Entre a cobrança que ecoou no vestiário do Maião e a promessa de reforços que ainda não têm data para chegar, o Grêmio corre contra o tempo. O torcedor já viu esse filme no primeiro semestre. Resta saber se o roteiro do segundo turno vai ser reescrito antes que seja tarde.