Golpista se passa por Luís Castro e aplica trote em Enamorado, com pix de R$ 22,5 mil
Tem golpe que se arma com tempo, paciência e uma foto roubada na tela do celular. Foi assim que um suspeito conseguiu enganar o atacante Enamorado, do Grêmio, se passando pelo técnico Luís Castro em conversas de WhatsApp. A trama veio à tona depois que a Polícia Civil do Rio Grande do Sul, em parceria com delegacias do Rio de Janeiro, prendeu em setembro um homem identificado como Lucas de Oliveira Eduardo, apontado como autor de uma série de golpes contra jogadores e dirigentes da dupla Grenal. Mensagens às quais Zero Hora teve acesso revelam, mês a mês, como o farsante avançou até conseguir um pix de R$ 22,5 mil do colombiano.
A operação Falso 9
A investigação que prendeu o suspeito foi batizada de "Falso 9" e reúne a 4ª Delegacia de Polícia Distrital de Porto Alegre e as delegacias de Cabo Frio (126ª DP) e Itaperuna (143ª DP), no Rio de Janeiro. Segundo o levantamento policial, o golpista usava uma foto de Luís Castro e um número de telefone com prefixo fluminense para se apresentar como o técnico do Grêmio em conversas com atletas. Em abril, ainda sob essa identidade falsa, ele chegou a pedir dinheiro a outros jogadores alegando organizar um projeto social de futebol amador no Rio de Janeiro.
O primeiro contato com Enamorado
A abordagem a Enamorado começou no dia 6 de maio. Fazendo-se passar por Luís Castro, o golpista enviou mensagens a quatro jogadores do elenco — Enamorado, Dodi, Kannemann e Tetê — pedindo que chegassem mais cedo ao treino do dia seguinte, marcado para as 9h30min. Os quatro atenderam ao pedido, o que ajudou a reforçar a credibilidade do farsante diante do grupo.
A partir daí, o golpista concentrou atenção em Enamorado. Nas mensagens, questionou a rotina do atacante, perguntou pela família dele e tratou de validar o contato, já que o colombiano não tinha foto no aplicativo. Para prender o jogador na conversa, elogiou o rendimento nos treinos e prometeu um lugar entre os titulares.
"Sinto que, às vezes, é muito tímido. Pode sempre me passar uma mensagem."
Dinheiro e promessas táticas
Com a confiança do jogador conquistada, o suspeito passou a alternar pedidos de dinheiro com supostas orientações de jogo. Disse ter conseguido uma promoção para fazer doações no Rio de Janeiro: cestas básicas de R$ 150 estariam sendo negociadas por R$ 75, e pediu que Enamorado comprasse a cota de 300 itens. Quando o atacante respondeu que não conseguiria fazer o pix naquele momento, a conversa mudou de assunto e foi direto para a preparação do jogo contra o Flamengo, disputado em 10 de maio na Arena.
"Para o que estou pensando, devo começar com você no próximo jogo. Quero usar mais dessa sua mobilidade."
"Contra o Fla agora: a equipe deles joga e deixa jogar. Haverá muitos espaços. Não tenha medo de errar. Pode ir para cima."
Enamorado começou a partida no banco de reservas e entrou aos 30 minutos do segundo tempo. Antes disso, ainda na troca de mensagens, o golpista havia sugerido uma mudança de posição para o jogador e pedido sigilo sobre a conversa.
"Você se sente bem em jogar pelo meio, flutuando? Mais solto? Vamos ver se amanhã testamos isso. Eu agora vou descansar, sono bateu kkk. Amanhã no treino falamos sobre o novo posicionamento que quero lhe usar."
"Só não comente com os demais atletas sobre nossa conversa. Infelizmente, não se agradam todos os atletas. Vai descansar agora, esse calendário brasileiro requer descanso kk."
O pix de R$ 22,5 mil
Enamorado fez a transferência no dia 7 de maio, às 7h31min, no valor de R$ 22,5 mil. O golpista agradeceu e, na sequência, tentou emendar um novo pedido, citando que um atleta estrangeiro já teria pagado por 600 cestas básicas. Disse ainda ter enviado R$ 50 mil para a mesma causa, mas que não poderia repetir o valor no momento por ter estourado o limite da conta — e prometeu devolver a quantia ao jogador.
Sem dinheiro disponível na conta brasileira, Enamorado sugeriu que o suposto técnico pedisse o valor a outros companheiros, como Kannemann ou Willian. Na tentativa de manter o golpe em andamento, o suspeito chegou a ligar para o atacante, mas a chamada não foi atendida.
O caso só veio à público depois da prisão do suspeito em setembro, resultado da ação conjunta das polícias gaúcha e fluminense. A investigação aponta que o mesmo esquema foi usado contra outros jogadores e dirigentes ligados à dupla Grenal, reforçando o alerta sobre o uso de identidades falsas de treinadores e cartolas para aplicar golpes financeiros dentro do futebol. O Grêmio não se manifestou publicamente sobre o episódio até a publicação desta matéria.