FGF cobra CBF por erros contra o Juventude, e Gaciba questiona protocolo do VAR após o Gre-Nal
O domingo de bola parada no Rio Grande do Sul virou dia de reclamação formal contra a arbitragem nacional. Enquanto o apito ainda ecoava das polêmicas do fim de semana, duas frentes diferentes bateram na porta da CBF: de um lado, a Federação Gaúcha de Futebol, cobrando explicações sobre decisões recorrentes contra o Juventude na Série B; de outro, o consultor de arbitragem do Grêmio, Leonardo Gaciba, questionando os critérios do VAR depois do pênalti não marcado no Gre-Nal 455. Dois times, duas competições, a mesma desconfiança: a de que o protocolo de revisão em vídeo está sendo aplicado de um jeito que prejudica os clubes gaúchos.
A nota da FGF e o pênalti de Fortaleza
O estopim do lado alviverde foi o empate em 2 a 2 entre Ceará e Juventude, na tarde deste domingo, em Fortaleza, pela 34ª rodada da Série B. Nos acréscimos da segunda etapa, com 11 minutos já cumpridos, o árbitro paranaense Kleber Ariel Gonçalves Silva marcou pênalti para o Ceará após toque de mão de Rodrigo Sam, com o VAR orientando a revisão. A cobrança garantiu o empate ao time cearense no lance final da partida.
A reação da Federação Gaúcha de Futebol veio horas depois, em nota oficial publicada no site da entidade. No texto, a FGF reconhece o trabalho da comissão de arbitragem da CBF, mas deixa claro que a recorrência de erros em jogos do Juventude já não pode ser tratada como coincidência.
A tecnologia do VAR foi incorporada ao futebol para auxiliar a arbitragem e corrigir erros claros e manifestos. No entendimento da FGF, porém, o episódio ocorrido na partida entre Ceará e Juventude demonstrou o efeito contrário: a intervenção desconsiderou a orientação de valorizar e fortalecer as decisões de campo e induziu o árbitro a alterar sua marcação.
A entidade gaúcha também criticou a qualidade das imagens disponibilizadas na Área de Revisão do Árbitro (ARA), argumentando que uma ferramenta pensada para dar precisão às decisões precisa oferecer nitidez e ângulos adequados — o que, segundo a FGF, não teria ocorrido no lance de Fortaleza. Com isso, a federação formalizou um pedido de análise criteriosa do episódio e de esclarecimentos técnicos à CBF, além de solicitar uma reunião direta com a Direção e a Comissão de Arbitragem da entidade nacional para discutir critérios mais claros e uniformes.
Tumulto e expulsões após o apito final
O desgaste do Juventude com a arbitragem não ficou restrito ao lance do pênalti. Segundo a súmula divulgada pela CBF, o goleiro reserva Pedro Rocha já havia sido expulso ainda durante o segundo tempo, por reclamar de uma falta não marcada em Raí Silva — lance que deu origem ao primeiro gol de empate do Ceará. Depois do apito final, em meio ao tumulto gerado pela marcação do pênalti, o árbitro também expulsou o zagueiro Marcos Paulo e o volante Luan Martins, ambos por se dirigirem de forma exaltada ao juiz, com dedo em riste e ofensas verbais. Pelo relato da súmula, os cartões vermelhos nem chegaram a ser mostrados em campo por conta do clima hostil criado pelos jogadores.
A confusão também envolveu a diretoria do clube. O documento da CBF registra que o executivo Lucas Andrino entrou no campo de forma exaltada, dirigiu-se ao árbitro chamando-o de "vagabundo" e "ladrão", e teria desferido um soco contra o escudo do policiamento que escoltava a arbitragem, sendo contido pelos próprios jogadores.
Até a publicação desta nota, a CBF não havia divulgado o áudio do VAR referente ao lance do pênalti. Com as três expulsões, o Juventude vai a campo desfalcado de Pedro Rocha, Marcos Paulo e Luan Martins na próxima partida, contra o Náutico, na segunda-feira, dia 26, no Alfredo Jaconi, pela 35ª rodada da Série B.
Gaciba e o pênalti não marcado no Gre-Nal
Enquanto a crise alviverde ganhava corpo, o Grêmio também reabria sua própria disputa com a CBF. Em entrevista à Rádio Gaúcha neste domingo, o consultor de arbitragem do clube, Leonardo Gaciba, voltou a criticar a orientação de mínima interferência do VAR — critério que, segundo ele, impediu a marcação de um pênalti claro em Diego Caito durante o Gre-Nal 455, disputado na Arena.
O lance em questão envolveu o lateral tricolor e o lateral colorado Bernabei. Na última quarta-feira, dia 14, a própria CBF já havia reconhecido que a marcação do pênalti seria a decisão correta, mas considerou que o lance permitia interpretação e que o VAR agiu de acordo com o protocolo ao não chamar o árbitro de campo, Rodrigo José Pereira de Lima, para revisão no monitor.
Gaciba fez questão de isentar o árbitro de campo de qualquer responsabilidade pelo erro, direcionando a crítica ao próprio critério estabelecido pela comissão de arbitragem da CBF.
O erro não é do Rodrigo. O Rodrigo fez a interpretação dele dentro do campo de jogo e não teve a oportunidade de ver a jogada no monitor. Pela visão da comissão de arbitragem, o Caio acertou em não chamar o Rodrigo porque é a orientação da comissão.
Para o ex-árbitro, o problema não está na atuação individual de quem apitou o clássico, e sim na régua definida pela CBF para quando o VAR deve ou não intervir.
Isso é uma questão de filosofia e a CBF acha que está legal. São muitos clubes reclamando, não é só o Grêmio. Temos que rever, dar uma olhada, pensar.
Gaciba detalhou ainda como funcionou a comunicação entre a cabine do VAR e o árbitro de campo no lance do Gre-Nal: depois de analisar as imagens, o árbitro de vídeo perguntou a Rodrigo o que ele havia observado, e o juiz respondeu que percebeu apenas um pequeno contato — interpretação que a cabine optou por manter, sem chamar a revisão no monitor.
Como é que eu vou explicar para o Grêmio, para a torcida do Grêmio, que a comissão acha que foi pênalti, mas que o árbitro de vídeo acertou em não chamar? É difícil fazer esse tipo de explicação.
Não é a primeira vez
O consultor tricolor lembrou que o episódio do Gre-Nal não é um caso isolado na temporada do Grêmio. Em duas outras ocasiões, a CBF já havia reconhecido erros de arbitragem contra o clube no Brasileirão: contra o Bragantino, com a anulação de um gol após marcação equivocada de falta, e contra o Vitória, quando o VAR não recomendou a expulsão de Caíque por agressão a Noriega.
Na avaliação de Gaciba, porém, esses dois casos anteriores têm solução mais simples — passam por treinamento específico da arbitragem. Já a situação do Gre-Nal, segundo ele, expõe um problema estrutural que exige revisão do próprio protocolo.
O reconhecimento do erro é muito legal quando se tem a humildade de buscar a melhora daquele item. E, de preferência, que esse tipo de erro não aconteça mais.
No campo, o Juventude volta a jogar na segunda-feira, dia 26, contra o Náutico, no Alfredo Jaconi, já sem três peças importantes suspensas após o tumulto em Fortaleza. O Grêmio, por sua vez, segue de olho na resposta da CBF sobre a revisão de critérios do VAR, enquanto soma mais um capítulo em uma lista de decisões contestadas nesta reta do Brasileirão. Nos dois casos, o pano de fundo é o mesmo: a confiança dos clubes gaúchos no sistema de arbitragem nacional, cada vez mais abalada.