Praça Major Nicoletti vira palco de histórias: Feira do Livro de Gramado chega à 29ª edição com convite à desconexão
Praça Major Nicoletti vira palco de histórias: Feira do Livro de Gramado chega à 29ª edição com convite à desconexão
Entre os dias 3 e 13 de setembro, a cidade serrana reúne livreiros, autores e famílias em torno do tema "Mais Livros, Menos Telas", propondo equilíbrio entre papel e tecnologia
Há cidades que se preparam para o inverno com cobertores e fogueiras, e há Gramado, que todos os anos reserva um canto especial da Praça Major Nicoletti para aquecer o espírito com histórias. A partir da próxima quinta-feira, dia 3 de setembro, e até o dia 13, a praça e a Biblioteca Pública Cyro Martins se transformam no coração literário do município, recebendo a 29ª edição da Feira do Livro de Gramado — um evento que, ano após ano, insiste em provar que o hábito da leitura resiste, e resiste bem, ao piscar incessante das telas.
Um tema para os tempos digitais
Sob o mote "Mais Livros, Menos Telas", a programação deste ano nasce de uma reflexão sobre o lugar da leitura em meio à avalanche de estímulos digitais que atravessa o cotidiano. Segundo o secretário de Cultura e Economia Criativa de Gramado, Jonas da Silva, a escolha temática partiu de um olhar atento sobre o uso consciente das inovações tecnológicas, sem transformar o debate em disputa.
Para o secretário, o convite não é para abandonar o digital, mas para encontrar equilíbrio: o ambiente virtual e a leitura tradicional, defende, não competem entre si — se complementam, cada um ocupando seu espaço na formação de quem lê.
O patrono e o elo entre direito e cultura
Esta edição tem como patrono o advogado e escritor Marco Antônio Lopes Ferreira, morador de Gramado há 16 anos e uma figura que transita entre os tribunais e os salões de leitura da cidade. Membro do Conselho Municipal de Cultura e atual presidente da Academia Gramadense de Letras e Artes (Agla), ele assume o posto após nomes como Sebastião Fonseca, Iraci Cassgrande e Romeo Riegel — antecessores que deixaram a régua alta.
Diante da lista de predecessores, o patrono não escondeu a emoção com o convite da organização do evento.
Diante de tantos representantes da nossa literatura, fico extremamente feliz.
Marco Antônio Lopes Ferreira — patrono da 29ª Feira do Livro de Gramado
Ao comentar o tema escolhido para 2026, Ferreira foi além da provocação óbvia entre livro e tecnologia, propondo uma leitura mais ampla sobre o papel da experiência humana diante do avanço da inteligência artificial.
Esse tema é excelente porque não trata de uma disputa entre o livro e a tecnologia, mas também da convivência entre dois mundos. O futuro pertence a quem souber utilizar ambos. Daqui a 20 anos, a Inteligência Artificial terá escrito milhões de textos. Mas haverá algo que ela nunca poderá viver: a história da sua vida. O futuro não será construído apenas por quem domina a tecnologia, mas por quem transforma conhecimento em sabedoria.
Marco Antônio Lopes Ferreira — advogado e presidente da Agla
Programação gratuita para todas as idades
Ao longo dos onze dias de feira, oito livreiros vão ocupar a Praça Major Nicoletti, ladeados por uma agenda de atividades sem custo de entrada. Palestras, oficinas criativas, contação de histórias voltada ao público infantil e apresentações musicais dividem espaço com lançamentos de obras locais, reforçando o caráter comunitário do evento.
Um papagaio-charão como guia da memória local
A abertura oficial, marcada para sexta-feira (4), reserva um momento simbólico para a identidade gramadense: o lançamento do livro Bem-vindos a Gramado. Narrada pelo Papagaio-charão — ave que carrega forte valor simbólico para o município —, a obra promove um resgate da cultura local por meio de linguagem dinâmica, pensada para dialogar com diferentes gerações e celebrar a contribuição das diversas etnias que formaram a cidade.
Assinada por Rodrigo Keller, Jonas Müller e Wanderley Cavalcante, com ilustrações de Fernando Gil e Paulo Fernando, a publicação promete se tornar um dos destaques afetivos desta edição, reforçando a proposta central da feira: transformar a praça em ponto de encontro entre memória, arte e leitura.
Entre uma página virada e outra, Gramado convida moradores e visitantes a desacelerarem o ritmo das telas, ainda que por alguns dias de setembro, e redescobrirem o prazer simples — e cada vez mais raro — de mergulhar em uma boa história impressa.