"Fantástico, competitivo e aguerrido": ex-companheiros relembram a parceria com Émerson Leal
Tem gente que marca o futebol pelos gols que fez. Tem gente que marca pelo trabalho que ninguém vê — a cobertura, o desarme, o passe simples que destrava a jogada do companheiro. Émerson Leal era desse segundo tipo. Volante revelado pelo Grêmio no fim dos anos 1990, ele morreu nesta terça-feira (27), aos 46 anos, depois de passar uma semana internado em decorrência de um infarto. A notícia chegou como um Gre-Nal perdido na reta final: dura, inesperada, e seguida imediatamente pelas lembranças de quem esteve ao lado dele no vestiário e no gramado.
Leal não foi um nome de capa de revista, mas foi peça de um Grêmio que ergueu taças e também sofreu quedas. Passou pelo profissional tricolor entre 2001 e 2004, somando 158 jogos e cinco gols — números de quem joga para o time, não para a estatística pessoal. Fez parte do grupo campeão da Copa do Brasil de 2001 e também esteve no elenco que amargou o rebaixamento à Série B em 2004, um contraste que resume bem o que é carreira de volante: você está lá nos dias de festa e também nos dias de crise.
Do Projeto Piloto ao profissional
A história de Leal com o Grêmio começou na base, dentro do Projeto Piloto, iniciativa que revelou jogadores para o clube no final da década de 1990. Foi o técnico Cléber Xavier quem o descobriu e acompanhou sua trajetória dos juniores até o time principal — uma relação que atravessou anos e categorias.
"Uma pessoa séria e muito correta. Como atleta, competitivo e aguerrido. Muito bom marcador, com jogo de passe simples." — Cléber Xavier, técnico que revelou Émerson Leal no Grêmio
A descrição de Xavier é exatamente o retrato de um volante clássico: o cara que não aparece no resumo da rodada, mas que sustenta o time para que os outros apareçam.
Os números que contam a história
Christian: "Um grande amigo que perdemos"
Dentro de campo, Leal teve parceiros de peso. Um deles foi o atacante Christian, com quem formou uma dupla saída do banco de reservas em 2003 para decidir a vitória do Grêmio por 3 a 1 sobre o Guarani, pelo Brasileirão daquele ano — o último gol marcado por Leal com a camisa tricolor.
"Ele era um cara fantástico. Como jogador era um volante que sabia jogar e que trabalhava para o grupo. Um grande amigo que perdemos." — Christian, ex-atacante do Grêmio
A temporada de ouro ao lado de Tite
Entre 2001 e 2003, o técnico Tite comandou o Grêmio e manteve proximidade constante com o volante. Foi sob o comando de Tite que Émerson teve sua melhor fase: em 2001, disputou 29 partidas e balançou as redes três vezes, participando de vitórias importantes — 2 a 0 sobre o São José pelo Gauchão, 2 a 0 contra o Talleres na Copa Mercosul e 3 a 1 sobre o Botafogo pelo Brasileirão.
No ano seguinte, 2002, Leal ampliou sua presença em campo: 40 jogos disputados, com um único gol marcado, mas um gol que entrou para a história da goleada tricolor sobre o Vitória naquele Brasileirão.
O alerta médico e a despedida do Grêmio
O caminho de Leal com o Tricolor teve uma reviravolta precoce. Em novembro de 2004, após uma passagem pelo Sport, ele retornou ao Grêmio, mas foi afastado dos trabalhos pelo departamento médico do clube após a detecção de uma alteração cardíaca — um sinal que, décadas depois, ganha um peso simbólico diante da causa de sua morte.
Seu último jogo pelo Grêmio foi, justamente, um Gre-Nal: a derrota por 3 a 1 para o Inter na edição 363 do clássico. Leal só voltaria a jogar em 2007, já liberado pelos médicos, mas sem continuar no clube que o revelou.
Depois do Grêmio
A carreira de Émerson Leal seguiu por outros clubes gaúchos e brasileiros: Juventude, Novo Hamburgo, Madureira, América-RN, Canoas e Novo Horizonte foram algumas das casas que o receberam depois de deixar o Tricolor.
Émerson Leal nunca foi o nome mais lembrado das campanhas gremistas do início dos anos 2000, mas era exatamente esse tipo de jogador que Cléber Xavier, Tite e Christian descrevem hoje: sério, competitivo, companheiro. Um volante que cumpriu seu papel nos dias de título e nos dias de queda — e que agora, aos 46 anos, deixa o futebol gaúcho de luto pela perda precoce de um dos seus.