48 pioneiras do futebol feminino gaúcho são homenageadas pela CBF no Museu do Inter
Antes de qualquer bola rolar em campo, quarenta e oito mulheres caminharam por um corredor de vidro e memória, dentro do Museu do Inter, no Beira-Rio. Não vestiam chuteiras naquela tarde de sábado, mas carregavam décadas de resistência nos ombros. Nesta tarde de 10 de outubro de 2026, o Ministério do Esporte e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) prestaram homenagem a essas pioneiras do futebol feminino gaúcho, horas antes de o mesmo estádio receber Brasil e Argentina em amistoso preparatório para a Copa do Mundo Feminina de 2027.
A escolha do local não foi por acaso. A casa do Colorado, que à noite abriria os portões para a Seleção Brasileira, serviu pela manhã e pela tarde de palco para um acerto de contas histórico: reconhecer, em vida, as mulheres que jogaram futebol quando isso era proibido por lei no Brasil.
Uma modalidade que nasceu na marra
Até 1979, o futebol feminino era oficialmente vetado no país por decreto federal. A regulamentação só veio no início dos anos 1980, e foi justamente nesse período de transição que o Rio Grande do Sul escreveu um dos seus capítulos mais importantes. Em 17 de abril de 1983, poucos dias depois de o futebol praticado por mulheres ser finalmente autorizado no Brasil, Esportivo de Bento Gonçalves e Sport Club Rio Grande entraram em campo no Estádio Olímpico, em Porto Alegre, para a primeira partida oficial da modalidade no estado.
O placar, 8 a 0 para o Esportivo, quase virou detalhe diante do que aquele jogo representou. Um time do interior, hoje apagado do calendário oficial, e o clube mais antigo em atividade no futebol brasileiro, o Sport Club Rio Grande, dividiram o gramado diante de um público que, em sua maioria, nunca tinha visto uma partida de futebol feminino.
O dia em que o Olímpico parou para ver
Rosângela Solano Rodrigues, uma das atletas daquele Rio Grande histórico, lembra a cena mais de quarenta anos depois como se tivesse acontecido ontem.
— Foi uma coisa extraordinária. Para um time do interior e o time mais antigo em atividade no Brasil, o Sport Club Rio Grande, aquela partida, com aquele número de pessoas que até então nunca tinham visto um jogo de futebol feminino, foi emocionante.
Do outro lado daquele placar elástico, Claudete Anderle, conhecida como Ket, carrega o mesmo orgulho pela camisa do Esportivo.
— Me orgulho muito, não somente eu, mas todas meninas do Esportivo e do Rio Grande, de fazer aquela que foi a primeira partida oficial do Rio Grande do Sul.
Os rostos da homenagem
A cerimônia no Museu do Inter reuniu nomes que atravessaram diferentes clubes e diferentes frentes da luta pela legalização do futebol feminino no estado. Entre as presenças confirmadas, estavam Juliana Agatte, secretária Extraordinária da Copa do Mundo Feminina de 2027; a professora Silvana Vilodre Goellner, referência nos estudos sobre a história da modalidade; Marianita Nascimento, ex-jogadora do Grêmio; Elaine Evaldt, representando o Inter; além de Claudete Anderle e Rosângela Solano Rodrigues, símbolos daquele confronto fundador entre Esportivo e Rio Grande.
Claudete Anderle (Ket) e Rosângela Solano Rodrigues
Protagonistas da primeira partida oficial do futebol feminino gaúcho, em 17 de abril de 1983, no Estádio Olímpico.
Marianita Nascimento
Ex-jogadora tricolor, parte da geração que lutou pela legalização da modalidade no Brasil há mais de 40 anos.
Elaine Evaldt Machado
Representou o Colorado na cerimônia, realizada dentro do próprio Museu do clube, no Beira-Rio.
Juliana Agatte e Silvana Vilodre Goellner
Representaram, respectivamente, a organização da Copa do Mundo Feminina de 2027 e a pesquisa histórica sobre a modalidade.
Para Elaine Evaldt, o contraste entre o silêncio de décadas atrás e a casa cheia que receberia a Seleção Brasileira horas depois resumiu o tamanho da conquista.
— Não tem como descrever o que nós estamos vivendo hoje. O futebol feminino foi tudo nas nossas vidas e ver hoje esse mundo de gente aqui, para ver a Seleção Feminina... A gente teve uma caminhada enorme na legalização do futebol feminino, então para nós é uma coisa extraordinária.
Marianita Nascimento foi na mesma direção, lembrando que a luta gaúcha fez parte de um movimento nacional muito maior.
— Vocês voltem há 43 anos, quando a gente lutou pela legalização do futebol feminino no Brasil e demos a nossa contribuição. E dentro desse Brasil todo teve muito mais pioneiras lutando pela mesma causa. Agora a gente está aqui, hoje, recebendo uma Seleção Brasileira dentro do Beira-Rio. Ver a construção desse caminho todo, para nós, é emocionante, mas também é maravilhoso demais.
O círculo que se fechou no Beira-Rio neste sábado tem um significado que vai além do protocolo. As mesmas mulheres que precisaram provar, goleada a goleada, que o futebol feminino merecia existir viram a Seleção Brasileira pisar no mesmo estádio onde foram homenageadas, em um amistoso que serve de preparação direta para a Copa do Mundo Feminina de 2027 — torneio que o Brasil vai sediar. Da proibição ao Mundial em casa, o caminho contado por Rosângela, Ket, Elaine e Marianita deixou de ser só memória: passou a ser também o enredo do presente do futebol gaúcho.