20 anos de América: relembre a campanha da primeira Libertadores do Inter
20 anos de América: a campanha que deu ao Inter a primeira Libertadores da história
Neste domingo (16), completam-se exatos 20 anos do título inédito conquistado sobre o São Paulo. Relembre, jogo a jogo, como Abel Braga transformou o Beira-Rio na casa dos campeões da América — e por que agosto voltou a ser um mês de peso para o clube colorado.
20 anos de América: a campanha que deu ao Inter a primeira Libertadores da história
A data chegou. Neste domingo, o Beira-Rio completa exatos 20 anos desde a noite em que parou de sonhar em ser campeão da América e passou a ser, oficialmente, a casa de um. Foi em 16 de agosto de 2006, num empate em 2 a 2 com o São Paulo que fechou a decisão em 4 a 3 no placar agregado. Duas décadas depois, o Internacional revive a campanha que mudou sua história — uma sequência de viradas, sustos e heróis inesperados sob o comando de Abel Braga, que terminou com a taça mais cobiçada do continente erguida pela primeira vez em Porto Alegre.
Foi um caminho longe de ser tranquilo. O time colorado enfrentou altitude no Equador, pressão em Quito, sustos em casa e, na reta final, dois duelos diante do então atual campeão mundial. A seguir, relembre como foi, etapa por etapa, a trajetória que projetou nomes como Fernandão, Rafael Sobis, Rentería e Tinga para a eternidade da torcida.
A caminhada rumo ao topo
A campanha começou de forma modesta, com um empate fora de casa diante do Maracaibo, da Venezuela — jogo em que o time equatoriano abriu o placar e Maldonado buscou o empate para os colorados no fim. Só que, dentro do Beira-Rio, a equipe de Abel Braga mostrou outra cara: no jogo seguinte veio uma goleada com gols de Michel, Fernandão e Rubens Cardoso, o início de uma campanha que colocaria o Inter na liderança do seu grupo.
Reação contra os mexicanos
Atrás no placar após falha na saída de bola, o Inter buscou a virada com gol de rebote de Rentería e cruzamento do próprio colombiano para Fernandão fechar a virada.
Susto e reviravolta
Depois de sair perdendo por 2 a 0, o time buscou o empate com Michel e Fernandão antes do intervalo e completou a virada com um gol de cabeça de Gabiru.
O golaço de Rentería
Atrás no placar após falha de Clemer, o time buscou o empate com Jorge Wagner nos acréscimos do primeiro tempo. Na etapa final, Rentería driblou o zagueiro com um chapéu e emendou de primeira para um dos gols mais bonitos da campanha.
A única derrota
Na altitude de Quito, contra a LDU, o time chegou a sair na frente com Jorge Wagner, mas cedeu a virada no segundo tempo — o único tropeço de toda a campanha rumo ao título.
A trave que quase mudou tudo
Se o time colorado teve sorte em algum momento, foi bem no início do mata-mata direto: contra o Libertad, do Paraguai, uma bola parou justamente no travessão nos minutos finais, batendo ainda nas costas do goleiro Clemer antes de sair pela linha de fundo. Resolvida a classificação com uma vitória tranquila no jogo seguinte, o caminho seguiu livre para a semifinal, superada com gols de Sobis e Rentería.
A decisão: dois jogos, uma taça
A final contra o São Paulo, então atual campeão do mundo e vice-campeão da Libertadores em 2005, reuniu as duas maiores equipes do futebol brasileiro daquele momento. No Morumbi, o Inter fez 2 a 1, com Sobis eleito o melhor em campo. No jogo de volta, uma semana depois, veio a decisão dramática: Fernandão abriu o placar aproveitando falha na saída de bola do goleiro Rogério Ceni, Tinga ampliou de cabeça — e foi expulso na comemoração, ao tirar a camisa — e o São Paulo ainda buscou o empate com um gol de Lenílson aos 39 minutos do segundo tempo. Não foi suficiente: o agregado de 4 a 3 bastou para consagrar o Internacional campeão inédito da América, sob o comando de Abel Braga.
Os personagens da conquista
Abel Braga — técnico
Comandou uma campanha de reviravoltas constantes e manteve o time competitivo mesmo diante de rivais mais tradicionais no continente.
Fernandão — capitão e símbolo
Autor de gols decisivos em praticamente todas as fases, foi o rosto da conquista e um dos maiores ídolos formados por aquela geração.
Rafael Sobis — "o menino de Erechim"
Decisivo no primeiro jogo da final, no Morumbi, entrou para a história com a frase eternizada por Pedro Ernesto na narração daquela noite.
Wason Rentería — o estrangeiro que virou ídolo
Autor de gols de bola parada e de belas jogadas individuais, foi um dos personagens mais decisivos da fase de mata-mata.
Quando agosto colorado ecoa: o Gre-Nal que também fez história
Curiosamente, não é só a Libertadores de 2006 que volta à memória gremista e colorada nesta época do ano. Com o sorteio da CBF colocando novamente Grêmio e Inter frente a frente nas quartas de final da Copa do Brasil de 2026, torcedores e ex-jogadores relembraram outro capítulo decisivo: o Gre-Nal da mesma fase, disputado há 34 anos, em 1992 — a última vez, até então, que o clássico havia sido decidido justamente nas quartas do torneio nacional.
Ex-meia do Grêmio, Caio esteve em campo no primeiro jogo daquele confronto, no Olímpico, mas foi expulso e não pôde disputar a volta. Após o segundo empate em 1 a 1, a vaga foi decidida nos pênaltis — com vitória colorada. Ele lembra bem do clima em torno daquele duelo:
Gre-Nal se jogava em Brasileirão e Gauchão sempre. Foi o primeiro, em uma fase decisiva. Realmente a mobilização foi grande. Os dois jogos com estádios cheios, bem parelhos e com a vaga decidida nos pênaltis. Infelizmente, acabamos perdendo. Caio, ex-meia do Grêmio
Do outro lado, o zagueiro Pinga, um dos titulares do Inter naquela campanha, guarda uma lembrança inusitada sobre os bastidores da preparação — o papel de dona Elza, esposa do técnico Antônio Lopes, que organizou uma reunião das famílias dos jogadores antes da decisão:
O mais interessante foi que a esposa do professor Antônio Lopes, dona Elza, fez um trabalho fundamental. Ela organizou uma programação com nossas famílias. Encontrar nossas famílias nos tranquilizou, porque sabíamos que todos estavam em segurança e estariam na arquibancada. É uma motivação a mais. Pinga, ex-zagueiro do Inter
Os dois ex-jogadores evitam cravar favorito para o novo confronto entre os rivais nas quartas da Copa do Brasil de 2026, mas concordam em um ponto: Gre-Nal em mata-mata decisivo tem uma energia própria, diferente de qualquer outro jogo do calendário.
Vinte anos depois de erguer a Libertadores pela primeira vez, o Inter vive este domingo com a data simbólica no ar — e, coincidência do calendário, recebe o Remo no Beira-Rio pelo Brasileirão hoje mesmo, no dia exato do aniversário do título. Entre a lembrança de 2006 e o novo capítulo que se escreve contra o Grêmio pela Copa do Brasil, a mensagem que fica é a mesma repetida por quem viveu aqueles agostos decisivos: história boa se conta revivendo, mas é dentro de campo que ela continua sendo escrita.